Museus e o desafio da sustentabilidade ambiental

Luiz Fernando Mizukami

No dia internacional do meio-ambiente, data-lembrete sobre o que devemos praticar cotidianamente na preservação ambiental como mencionado por Elizabeth Zolczak, o SISEM-SP organizou uma roda de conversa para tratar da interface entre práticas museológicas e a sustentabilidade ambiental.

Parte integrante de uma discussão que tem por finalidade a elaboração de uma Política Setorial para Gestão de Museus e Sustentabilidade e de um Plano Estratégico para a Gestão Sustentável em Museus (2020-2023) para o Estado de São Paulo[1], a partir das provocações despertadas pelo Marco Conceitual Comum em Sustentabilidade (MCCS) elaborado pelo Ibermuseus[2], esta primeira roda de conversa particulariza discussões iniciadas em 2019, quando o SISEM-SP já havia convidado profissionais que atuam em museus para participar do Seminário “Sustentabilidade em Museus – do conceito à prática”, na qual foram expostas as linhas gerais do MCCS e exemplos de atividades desenvolvidas pelos próprios museus vinculados à SECEC-SP (Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo) que refletiam aspectos presentes no documento exarado pelo Ibermuseus.

Em janeiro de 2020, foi realizado o “Seminário sobre o Marco Conceitual Comum em Sustentabilidade de Museus”, no qual foram formados grupos de discussão correspondentes às dimensões Ambiental, Econômica, Social e Cultural, com posterior indicações para formação do Grupo Técnico da Política Setorial e do Grupo de Trabalho do Plano Estratégico.

Este histórico preliminar de atividades realizadas pelo SISEM-SP faz-se necessário para colocar em contexto esta roda de conversa. Percebe-se assim que não é uma atividade de motivação gratuita ou que apenas embarca na efeméride do Dia Internacional do Meio-Ambiente. É sim uma atividade concatenada com uma estratégia de discussão de longo prazo, visando a construção de instrumentos para a formulação de políticas públicas para o setor museal paulista.

Feito este preâmbulo, o que se pode depreender das discussões colocadas nesta ocasião? Primeiro, que a associação entre práticas de museus e sustentabilidade ambiental (que foi o tema desta primeira roda de conversa) parece ser mais facilitada quanto maior for a consciência de inserção da instituição na sociedade. Talvez não tenha sido à toa que duas das convidadas para a roda de conversa sejam provenientes de ecomuseus, tipologia de museu que entende o próprio território como patrimônio cultural a ser trabalhado. Remete-se aqui à Mesa-redonda de Santiago do Chile, realizada em 1972[3], também mencionada durante a roda de conversa por Terezinha Rezende, coordenadora do Ecomuseu da Amazônia.

Sobre a tão evocada “Mesa Redonda sobre la importância y el desarrollo de los museos en el mundo contemporáneo”, nome oficial da Mesa-redonda de Santiago do Chile, ocorrida em de 20 a 31 de maio de 1972, cabe dizer que a mesma foi diretamente influenciada por temas já amplamente em discussão, incluindo a questão ambiental, visto que no mesmo ano foi realizada a primeira UNCED – United Nations Conference on the Human Environment, em Estocolmo/Suécia, no período de 05 a 16 de junho[4].

O vínculo entre herança natural e civilização, em que “se definiu, como sujeito da prática museológica, a sociedade; e, como âmbito de atuação da museologia, o meio ambiente total: sociedade, território, patrimônio natural e cultural”[5], estava formado. E, o afastamento dos museus sobre as reflexões decorrentes daquelas existentes no campo ambiental não seria mais possível.

Assim, não soa estranho ouvir ações desenvolvidas como formação de nutricionistas, parcerias com rede de educadores ambientais ou ações junto a coletores de material reciclável como as relatadas por Tamires Amancio, do Ecomuseu de Itaipu. O desafio posto seria o de ampliar este tipo de ação para além de alguns setores das instituições museológicas (não apenas os setores educativos devem se encarregar da condução deste tipo de ação) e para além de um tipo de museus (não somente os ecomuseus ou os museus de ciência, mas sim todos os museus, inclusive os de arte que parecem sempre se afastar mais desta inserção em atividades que saiam do campo das artes).

O segundo ponto que se depreende desta roda de conversa é que a questão da sustentabilidade ambiental é transversal (assim como todos os outros eixos que orientam os ODS – Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável). Desta maneira, colocando os museus dentro de um processo reflexivo e cobrando uma atuação mais integrada à sociedade (em consonância com a própria ideia de museu integral emanada na mesa-redonda de Santiago do Chile). E, neste segundo ponto, poderíamos nos remeter à reflexão do tempo em que nos situamos e à forma como refletimos.

Estamos em tempos acelerados, de inovações constantes, de paradoxos entre globalização e identidade. Passamos de territórios para multi-territorialidades[6], de um espaço de lugares para um espaço de fluxos[7], de um tempo definido pelas estações da natureza para um tempo atemporal. Esta é a era, que Lipovetsky[8] denominou de hipermodernidade:

(…) a cultura-mundo é a da compressão do tempo e do encolhimento do espaço. Além disso, as ferramentas informáticas tornam possível uma comunicação em tempo real, criando um sentimento de simultaneidade e de imediatismo que transcende as barreiras do espaço e do tempo. Simultaneidade midiática que permite aos indivíduos afastados no espaço partilhar uma mesma experiência, libertar-se dos limites das fronteiras, achar confusa a diferença entre próximo e distante, beneficiarem-se do sentimento de inclusão em um mundo global. Paris está na hora de Nova York e São Paulo na hora de Pequim: eis a era do espaço-tempo mundial, do cibertempo global, do hiperespaço-tempo abstrato e universal. (Lipovetsky; Serroy, 2011, p.16)

Para estes tempos é interessante ressaltar também a urgência de uma forma de reflexão e ação que ultrapassem o “paradigma de simplificação” traçado por Descartes no século XVII quando separou o sujeito pensante e a coisa entendida. Como colocado por Edgar Morin: “(…) o princípio de disjunção isolou radicalmente uns dos outros os três grandes campos do conhecimento científico: a física, a biologia e a ciência do homem”. A única maneira de remediar esta disjunção foi uma outra simplificação: a redução do complexo ao simples (redução ao biológico ao físico, do humano ao biológico). Uma hiperespecialização devia, além disso, despedaçar e fragmentar o tecido complexo das realidades, e fazer crer que o corte arbitrário operando no real era o próprio real”[9].

Há posto somente nesta busca de se refletir sobre museus e sustentabilidade ambiental não somente a forma de atuação dos museus na sociedade, ultrapassando o paradigma conservacionista (ou pré-museológico) para o paradigma social (ou desenvolvimentista)[10], mas também na reflexão sobre o papel do museu na articulação de campos disciplinares visando um conhecimento multidimensional.

Neste sentido, de inserção da instituição museu na produção de conhecimento multidimensional, as falas trazidas por Elizabeth Zolczak e Manuel Furtado Mendes são bem ilustrativas desta necessidade. Ao se falar que “museu não é sustentável ambientalmente mas que pode atuar com responsabilidade ambiental” e que faz-se necessária a adoção de melhorias na matriz energética dos museus visando a redução de impactos ambientais, ambos trazem pontos antes ausentes diante dos gestores de museus.

Entende-se que museus, como instituições necessitam urgentemente acompanhar o passo de sintonia com a sociedade. Ainda mais em tempos pós-pandemia, onde não poderá ser observada a relevância dos museus se os mesmos não estiverem abertos ao diálogo e atentos ao seu papel, cumprindo o que a própria definição vigente do ICOM traz:

“Museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, pesquisa, comunica e exibe o patrimônio cultural tangível e intangível da humanidade e seu ambiente para os propósitos de educação, pesquisa e prazer”[11].

E, para além disso, perseguir ainda a aspiração presente numa possível nova definição, que a meu ver é mais inspiracional do que normativa. Ou seja, um lugar em que sonhamos que os museus possam chegar e atuar:

“Museus são espaços polifônicos, inclusivos e democráticos para o diálogo crítico sobre passados e futuros. Reconhecendo e enfrentando os conflitos e desafios do presente, eles mantêm artefatos e espécimes para a sociedade, salvaguardam diversas memórias para as gerações futuras e garantem direitos iguais e acesso igual ao patrimônio para todas as pessoas. Os museus não têm fins lucrativos. Eles são participativos e transparentes e trabalham em parceria ativa com diversas comunidades para coletar, preservar, pesquisar, interpretar, exibir e aprimorar entendimentos do mundo, visando contribuir para a dignidade humana e a justiça social, a igualdade global e o bem-estar planetário. “[12]

Como podemos ver, há um longo caminho a ser percorrido adiante. O desafio para os museus está posto e, cabe ver se os gestores estão seguindo a favor dos ventos que sopram e indicam tais rumos ou se resistem a aceitar o papel que a sociedade cobra destas instituições.


[1] https://www.sisemsp.org.br/politica-setorial-de-gestao-de-museus-e-sustentabilidade/atividades-realizadas/

[2] http://www.ibermuseos.org/pt/recursos/publicacoes/marco-conceitual-comum-em-sustentabilidade/

[3] http://www.ibermuseus.org/wp-content/uploads/2014/09/Publicacion_Mesa_Redonda_VOL_I.pdf

[4] https://sustainabledevelopment.un.org/milestones/humanenvironment

[5] SCHEINER, Tereza Cristina – “Formação em museologia e meio ambiente” in Museus, biodiversidade e sustentabilidade ambiental, Rio de Janeiro : Espirógrafo editorial : Associação Brasileira de Museologia, 2014, p.86  

[6] Rogério Haesbaert no artigo “Território e multiterritorialidade: um debate”, coloca: “Assim, dentro da diversidade territorial do nosso tempo devemos levar em conta, em primeiro lugar, essa distinção crescente entre uma lógica territorial zonal e uma lógica territorial reticular. Elas se interpenetram, se mesclam, de tal modo que a efetiva hegemonia dos territórios-zona estatais que marcaram a grande colcha de retalhos política, pretensamente uniterritorial (no sentido de só admitir a forma estatal de controle político-territorial) do mundo moderno, vê-se obrigada, hoje, a conviver com novos circuitos de poder que desenham complexas territorialidades, em geral na forma de territórios-rede, como é o caso das territorialidades do narcotráfico e do terrorismo globalizado.” (HAESBAERT; 2007: p.30)

[7] Manuel Castells elucida esta transição entre o que chamou de “espaço dos lugares” para “espaço dos fluxos” em Sociedade em rede (CASTELLS; 1999). Mas creio que este trecho do livro A corrida para o século XXI – no loop da montanha-russa, de Nicolau Sevcenko, ilustra bem esta realidade de espaços de fluxos e aceleração do tempo: “Toda esta vasta população, portanto, tem sua vida administrada por uma complexa engenharia de fluxos, que controla os sistemas de abastecimento de água corrente, esgotos, fornecimentos de eletricidade, gás, telefonia e transportes, além de planejar as vias de comunicação, trânsito e sistemas de distribuição de gêneros alimentícios, de serviços de saúde, educação e segurança pública. Assim, numa metrópole tudo se insere em sistemas de controle, até o passo com que as pessoas se movem nas ruas, dependente da intensidade dos fluxos de pedestres e do trânsito de veículos, de forma que se alguém for mais lento do que seus circunstantes, ou será chutado, acotovelado e pisado ou, se não atravessar a via expressa num rabo de foguete, terminará debaixo de algum veículo desembestado.” (SEVCENKO; 2001: p.62)

[8] Gilles Lipovetsky, filósofo francês (Millau, 1944), atua como pesquisador e professor da Universidade de Grenoble. Por meio do termo “hipermodernidade” buscou definir o momento vivido pela sociedade atual, na qual os valores da modernidade estão exacerbados, elevados de forma exponencial.

[9] Em “Introdução ao pensamento complexo”, Edgar Morin, Editora Meridional/Sulina, 2005, ps.11-12.

[10] MANUEL-CARDOSO, Pedro – “O que é museologia?” in Cadernos do CEOM/Centro de Memória do Oeste de Santa Catarina, vol.1, n.1 (jan./jul.1986), Chapecó : UNOChapecó, 1986, ps.130-131

[11] Tradução livre do conceito presente em https://icom.museum/en/resources/standards-guidelines/museum-definition/

[12] Tradução livre do texto exposto em https://icom.museum/en/resources/standards-guidelines/museum-definition/


Luiz Fernando Mizukami é mestre em Museologia pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades da Universidade de São Paulo (PPGMus/USP) e executivo público da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo (UPPM/SCEC).