SISEM-SP entre perdas e recomeços

Por Michael Argento – ACAM Portinari

Na semana em que celebramos a 15ª Primavera dos Museus, o consórcio de veículos de imprensa que mapeia a evolução da pandemia de covid-19 no Brasil registrou a superação das marcas de 590 mil óbitos e 21,2 milhões de casos confirmados. E o tema desta estação, Perdas e Recomeços, não poderia ser mais pertinente aos museus brasileiros.

Ambos os substantivos são referências inerentes à existência humana. É necessário ter, ser ou estar em algo para perdê-lo. E é em situações de perda que geralmente nos mobilizamos rumo a um recomeço. De uma forma ou de outra, as duas coisas estão atreladas à condição básica da incerteza. Ela sucede e antecede a perda, sucede e antecede o recomeço. Os museus, instituições irremediável e essencialmente humanas, não estariam em contexto alheio.

Na medida em que o aumento substancial do número de casos e óbitos passou a pressionar os sistemas públicos e particulares de saúde, ainda no início de 2020, medidas de isolamento social precisaram ser implementadas pelos poderes executivos estaduais do Brasil. Naturalmente, os equipamentos culturais e, consequentemente os museus, foram obrigados a fechar suas portas físicas, reforçando um cenário já conhecido de fragilização técnica e administrativa do setor.

A exemplo de milhares de pessoas, enlutadas pela partida de parentes e amigos e socialmente enfraquecidas por um cenário de interrupção do crescimento econômico, os profissionais da cultura e dos museus depararam-se com um contexto de demissões em massa, sobretudo nas áreas de atendimento ao público visitante e programação cultural.

Raros foram os casos de instituições culturais e museológicas que mantiveram suas equipes intactas durante os momentos mais incertos da pandemia, contrariando a lógica de contingenciamento e redução sistemática de orçamentos para proporcionar garantias mínimas de uma luta justa contra o vírus, quase nunca sem recorrer a mecanismos de redução de cargas horárias e salários.

Enquanto profissionais convivem com um cenário ainda marcado pela dor das perdas, pela premência de recomeços (não esqueçamos, em hipótese alguma, que a pandemia de covid-19 não acabou) e pela incerteza quanto ao futuro, situações estas compartilhadas com a sociedade para quem prestam serviços, a temporada cultural deste ano nos incita à reflexão: qual o papel dos museus neste momento?

O grande movimento dos museus frente às transformações ocasionadas pela pandemia foi a virtualização de parte substancial das atividades ligadas ao atendimento de público. A inserção de ações de comunicação museológica no ciberespaço parece um elemento inerente ante à crescente oferta de recursos digitais para a área, mas em decorrência da covid-19, os museus se viram obrigados a migrar subitamente para o ambiente digital, em muitos casos sem as condições técnicas e infraestruturais necessárias.

O principal efeito colateral do caminho para a virtualização das programações culturais e ações educativas decorrente da pandemia foi o recrudescimento da já frágil relação dos museus, que ainda são vistos (ou se veem?) como instituições essencialmente eruditas e excludentes, com seus públicos não familiarizados com dispositivos tecnológicos, não conectados à rede mundial de computadores ou em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Alijados das atividades presenciais dos museus, os públicos não puderam dispor de experiências essencialmente museais. Se o que vemos pelas telas dos computadores é um fragmento da realidade, a relação do público com o patrimônio também é segmentada. Também serão conhecidos os impactos que a interrupção de atividades culturais presenciais causaram à saúde mental da população, apesar dos movimentos recentes de reabertura ocasionados pelo avanço das políticas de vacinação em massa.

Por outro lado, também são numerosas as iniciativas dos museus para refletir sobre o efeito da pandemia de covid-19 sobre o público. Para citar apenas duas, destacam-se o Projeto Palavra no Agora, do Museu da Língua Portuguesa, e a exposição Diários da Pandemia, do Museu da Pessoa.

O primeiro, um projeto que visa proporcionar um espaço virtual perene de diálogo e expressão do público sobre os sentimentos trazidos pela pandemia e seu alento por meio do uso da palavra. O segundo, fruto de uma parceria binacional (Brasil e Holanda), que expressa os impactos do isolamento e das incertezas trazidas por uma realidade pandêmica.

O Sistema Estadual de Museus atravessa desafios semelhantes na pandemia de 2020-2021. Responsável por formular políticas públicas para a área de museus no Estado de São Paulo, congregando instituições da capital, interior e litoral, ele se estrutura em atividades de articulação, apoio técnico, formação e comunicação, muitas delas concebidas originalmente como presenciais. Apoia políticas de fomento para que instituições, sobretudo de pequeno e médio portes, alcancem a sustentabilidade econômica.

A interrupção de ações do setor cultural e a migração emergencial das atividades presenciais para uma rotina de teletrabalho levou, a exemplo dos museus, à virtualização imediata da maioria das atividades do SISEM-SP. Paralelamente, o sistema preocupou-se com uma questão determinante a esta realidade pandêmica: os museus dispõem da estrutura necessária para a virtualização de seus processos de trabalho e proporcionar o atendimento ao público que se viu impedido de ocupar seus espaços físicos?

O resultado direto deste processo foi a realização da primeira pesquisa Museus e Conectividades no Estado de São Paulo, ação que teve como objetivo central identificar as condições técnicas e estruturais das instituições paulistas no momento em que se viram obrigadas a ocupar de forma mais efetiva ambientes digitais. Espera-se que o processo de amadurecimento decorrente deste primeiro esforço, associado à compreensão mais efetiva sobre a ação dos museus neste contexto, leve a novas versões.

A própria execução da pesquisa denunciava o desafio de novos tempos. Realizada virtualmente, ela já problematiza, em seu método de coleta, como incluir instituições e profissionais sem acesso constante à internet. Como um caminho de dominós, a iniciativa verificou que aspectos geográficos, políticos e socioeconômicos reforçam a relevância de se estruturar diretrizes de inclusão que considerem instituições museológicas, profissionais da área e público.

O investimento maciço de esforços na produção de conteúdos para mídias sociais foi outro caminho adotado pelo SISEM-SP no intuito de reforçar sua presença digital. Para isso, tanto ações incipientes, como a Política Setorial de Museus e Sustentabilidade, quanto consolidadas, como Encontro Paulista de Museus (EPM), passaram a figurar no ciberespaço.

No caso deste, a realização da primeira edição totalmente virtual do EPM pode não ter eliminado as barreiras técnicas impostas à comunicação digital, mas diminuiu substancialmente a distância geográfica de profissionais de museus e gestores culturais que não poderiam participar presencialmente da ação na Capital, num movimento complementar à itinerância dos Encontros experimentadas em 2019 e repetidas em 2021, desta vez estruturadas também de forma virtual em decorrência da pandemia.

Na mesma semana em que se discute recomeços para os museus em uma nova conjuntura da sociedade, celebra-se também o Dia Nacional da Luta pelos Direitos das Pessoas com Deficiência (21 de setembro). Se museus são processos, o SISEM-SP também é. O amadurecimento de ações realizadas remota e virtualmente leva a novos desafios e à superação de outros (mas nada novos) obstáculos para proporcionar o acesso a informações e conteúdo.

Como parte diretamente interessada no compartilhamento do conhecimento, o processo de democratização do acesso deve ser um compromisso perene da instância, por meio da estruturação e implementação de estratégias de inclusão e acessibilização de seus conteúdos.

Se a eclosão da pandemia de covid-19 no Brasil não pode ser considerada uma surpresa, ao menos a partir do momento em que as notícias vindas da Ásia, Europa Ocidental e América do Norte sobre o aumento em proporções calamitosas nos números de mortes e contaminações chegavam, menos surpreendente ainda é o impacto profundo que ela trouxe aos setores cultural e museológico.

Rapidamente, nossas áreas reforçaram a fragilização socioeconômica de grande número de profissionais e suas respectivas famílias. Aqueles que permaneceram em suas funções, por sua vez, também foram cobertos com este véu de incertezas inerentemente causadas pelas insubstituíveis perdas e pela irremediável necessidade por um recomeço.

Não foi somente no aspecto econômico e social que o setor museológico sentiu o impacto das perdas. Em São Paulo, a pandemia nos levou o museólogo Júlio Abe Wakahara, idealizador dos Museus de Rua e um dos grandes expoentes da museologia social do Brasil. O SISEM-SP teve a oportunidade de homenageá-lo em vida com a segunda Medalha de Mérito Museológico Waldisa Rússio Camargo Guarnieri, cujo depoimento foi transmitido postumamente na abertura do 11º Encontro Paulista de Museus, em 2020.

Referência e inspiração para profissionais e pesquisadores, novos ou consagrados, Abe foi um dos principais contribuintes para a “humanização” da sociedade, termo que sua amiga e colega de trabalho de longa data e que dá nome à honraria paulista conceitua como “um aspecto, ou estágio, que se perfectibiliza quando a maior parte da população – a camada mais extensa possível – passa a usufruir, a consumir, não só os bens econômicos, mas também os culturais” (GUARNIERI, 2010, p. 77).

A pandemia de covid-19 será mais um dos diversos desastres que testaram nossa humanidade ao longo da história. Outros virão, sejam eles evitáveis (como as mudanças climáticas que já se fazem presentes, conflitos armados que já assolam nações e comunidades, a escalada da desigualdade social…) ou irremediáveis. Humanidade que enfrenta com resiliência a perda e encontra novos caminhos para recomeçar.

Caberá mais uma vez aos profissionais de museus e a uma comunidade engajada resistir aos ataques inerentes a uma coletividade em crise para que ela possa encontrar seu espaço de diálogo. Que sejamos otimistas. Pois, como Mário Chagas (1999, p. 127) conclui,

“No mundo da globalização, novo nome para o velho imperialismo, os museus têm um papel importante. Eles são espaços de relações, são lugares de poder e de memória, mas são também arena, campo de luta onde germinam identidades culturais regadas por uma gota de sangue. Há uma gota de sangue em cada museu.”


REFERÊNCIAS UTILIZADAS PARA A PRODUÇÃO DESTE CONTEÚDO

CHAGAS, Mario de Souza. Há uma gota de sangue em cada museu: a ótica museológica de Mário de Andrade. In: Cadernos de Sociomuseologia Nº 13. Lisboa: Universidade Lusófona. 1999.

BRUNO, Maria Cristina Oliveira (Org). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. Volume 1. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo : Secretaria de Estado da Cultura : Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus. 2010.

CÂNDIDO, M. M. D., AIDAR, G., & MARTINS, L. C. (2015). A experiência museal: discutindo a relação dos museus com seus visitantes na contemporaneidade. Museologia & Interdisciplinaridade, 4(7), 308–315. https://doi.org/10.26512/museologia.v4i7.16787