Questões Indígenas e Museus

No centro dos grandes debates da museologia contemporânea está a descolonização dos museus.

Otávio Balaguer – ACAM Portinari

A história do mundo se manifesta pelo fenômeno da migração, desde seus primórdios a humanidade se desloca e ocupa o planeta. A vida em sociedade é um fator de sucesso no prolongamento da espécie humana, ela propicia o desenvolvimento dos mais complexos sistemas de cultura e suas expressões, cuja preservação é o propósito dos museus. 

Contudo, a mesma história é marcada por formas violentas de ocupação do espaço, dominação física e simbólica do outro, perpetradas pela colonização e suas narrativas, que se estendem ao longo do tempo. Os mecanismos políticos de controle que as sociedades europeias empregaram na invasão do continente americano deixaram marcas nas sociedades autóctones, os grupos indígenas.

Nesse processo, o museu foi um dos instrumentos utilizados, como lugar de ordenação do mundo, hierarquização das culturas, e caracterização de desigualdade entre os povos. Isso acabou por reduzir os indígenas às coleções etnológicas cujo tratamento e comunicação se deram, durante muito tempo, por um olhar enviesado e supremacista.

Durante os movimentos de descolonização, que são contínuos e não terminam com a emancipação política dos territórios, a museologia passa a se questionar sobre alternativas para tratar as coleções, que muitas vezes são fruto de espólios, e como comunicá-las dentro dos parâmetros éticos condizentes com a dignidade humana. 

Capa da publicação “Questões Indígenas e Museus: Debates e Possibilidades”

No Brasil, as questões indígenas suscitam fervorosos debates e nossos museus não estão fora disso, já que possuem significativas coleções etnográficas e arqueológicas que dizem respeito à história e memória dos diversos grupos indígenas brasileiros. Nesse sentido, o Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre, na cidade de Tupã, deu lugar ao I Encontro Paulista de Questões Indígenas e Museus, e ao III Seminário Museus, Identidades e Patrimônios. O evento produziu uma série de discussões que são resultado do esforço coletivo que reúne acadêmicos, profissionais e lideranças indígenas e não indígenas; e teve como resultado a publicação “Questões Indígenas e Museus: Debates e Possibilidades”.  

A centralidade da reflexão, na obra, está em como os indígenas podem participar dos processos de musealização organicamente, não no lugar de objeto deles, mas na posição de agentes. Neste processo há desafios que devem ser pensados, tais como o respeito às epistemologias indígenas na tradução dos conceitos e experiências da linguagem museológica ocidental, para o universo de cada sociedade. Mas também há possibilidades: as reflexões convergem para a necessidade da curadoria compartilhada, como caminho em direção à gestão responsável das coleções que dizem respeito a povos do presente, contrapondo uma ideia errada que os insere tão somente no passado. 

As questões discutidas envolvem o patrimônio como condutor de reflexões em temáticas indígenas e museológicas, que devem suscitar, dentro do museu, problematizações sobre a formação da sociedade brasileira. Debate-se, também, a respeito da consolidação dos museus como lugares de memória, construção de identidades e representatividade indígena contemporânea no estado de São Paulo.

Lançar um novo olhar em direção a estes acervos, cujo processo de comunicação está historicamente marcado pela perspectiva colonizadora, é um desafio que está posto, não só para os gestores de museus, mas também à sociedade como um todo, e para o qual não há resposta pronta. O campo tem espaço para democratização e experimentação. Isso pode ser visto ao longo de todos os textos da obra.

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