Quando sistematizar é preciso

Gerindo uma rede de museus que, simplesmente, não atua em rede.

Por Ana Carolina Xavier Avila

Gerir uma instituição museológica, por si só, não é tarefa simples. Imagine, então, a seguinte situação: um universo de, aproximadamente, 50 museus; espalhados por mais de 40 municípios paulistas; criados em anos distintos; administrados por profissionais da área de educação, com pouco ou nenhum conhecimento sobre museologia; nascidos na pasta da Educação, tendo migrado pelas pastas de Cultura, Esporte e Turismo, depois, Cultura, Ciência e Tecnologia para, enfim, chegarem à pasta da Cultura; constituídos em rede, mas sem a mínima articulação para tal. Este era o cenário enfrentado pela equipe do Departamento de Museus e Arquivos (DEMA), subordinado à Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, em meados dos anos de 1980.

O Departamento de Museus e Arquivos, oficialmente instituído no ano de 1983, antes mesmo da criação do Sistema Estadual de Museus de São Paulo (SISEM-SP), por longos anos deteve a incumbência de coordenar o funcionamento da Rede de Museus Históricos e Pedagógicos do Estado de São Paulo, no entanto, apesar da denominação “rede”, este conjunto de instituições museológicas, tendo sido as primeiras formadas no ano de 1956, no decorrer de sua trajetória se desenvolveram autonomamente, adaptando-se aos contextos culturais regionais, dando cada uma suas próprias soluções a problemas comuns a todas elas. Nesse contexto, surge o “Guia prático para os museus do DEMA no interior”.

Capa da publicação “Guia prático para os museus do DEMA no interior”

Nitidamente de caráter interno, redigida pela equipe técnica do DEMA, a publicação apresenta, de forma acessível e sucinta, preceitos teórico-metodológicos, próprios à Museologia, para orientação dos gestores dessas instituições museológicas que, não raramente, encontravam-se “à deriva”. Embora aborde conteúdo predominantemente técnico, oferta, também, excertos com reflexões acuradas sobre o papel dos museus e seu poder de impacto social.

Dividindo-se em oito temáticas, perpassa assuntos como segurança nos museus, conservação preventiva, documentação museológica, pesquisa para exposições, montagem de exposições, monitoria em museus, entre outros. Chama a atenção, em vários momentos, o processo de transição de alguns conceitos e terminologias aplicados aos fazeres museológicos no decorrer dos 35 anos desde a publicação desse texto. Causa admiração, também, que já no início da década de 1980, aborde-se com considerável destaque, em subitem separado dos demais, a necessidade de divulgação do museu e suas ações ao público, fazendo uso de todos os veículos de comunicação disponíveis à época. O que, para muitos de nós, parece tão recente, fruto da explosão digital, na verdade vem se intensificando há décadas.

Curiosamente, para além de sua construção, preponderantemente em tópicos, cada temática abordada possui a subdivisão “O que deve ser feito” e “O que não deve ser feito”, deixando ainda mais explícitas as orientações encaminhadas pelo DEMA. E aqui, cabe a conjectura: considerando o percurso de formação dessas instituições e intempéries sofridas ao longo dos anos; levando em conta, também, o largo transcurso desde o início de sua formação (em 1956) e a divulgação do Guia (meados de 1980), possivelmente, os subitens “O que não deve ser feito” foram “baseados em fatos reais”.

Mesmo se tratando de publicação interna, desenhada para uma situação e público muito específicos, o “Guia prático para os museus do DEMA no interior” apresenta conteúdo, em sua maior parte, contemporâneo, e pode nos ajudar a refletir sobre onde estávamos, em relação à gestão de museus do interior, na década de 1980 e onde estamos hoje. Quanto avançamos até agora? No que avançamos? Aos profissionais que se interessam pela trajetória dos Museus Históricos e Pedagógicos e, em especial, nos caminhos trilhados pela gestão pública, essa publicação se faz interessante capítulo. Boa leitura!

Leia a obra completa:

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