Qual o papel dos museus e dos seus profissionais diante das demandas da sociedade?

Por Joselaine Mendes Tojo – ACAM Portinari

O ano de 2020 ficará para sempre marcado pelo início da pandemia de Covid-19, de abrangência global, que afetou todos os segmentos da sociedade. A imposição do distanciamento social e de novos hábitos impactaram principalmente as instituições culturais; todos nós sabemos e estamos vivendo essa história.

Organizações como o ICOM e o Ibermuseus se mobilizaram rapidamente, com o objetivo de contribuir com os profissionais de museus e as instituições que tiveram que fechar suas portas e ver suas atividades direcionadas para o mundo virtual.

Narrativas sobre o “novo normal” se destacaram e as discussões sobre os museus, o ciberespaço e seus públicos tomaram conta dos principais interlocutores. Contudo, a pandemia somente evidenciou as fragilidades e acelerou debates que já vinham permeando as discussões sobre a museologia, os museus e sua relevância para sociedade.

Nesse contexto, difícil não lembrar da afirmação de Waldisa Russio que coloca o museólogo como um trabalhador social, “no sentido de quem trabalha conscientemente com o social, colaborando com a mudança” (Russio, 1990).

Uma das personalidades mais influentes no desenvolvimento do pensamento teórico do setor, no Brasil e fora dele, como funcionária pública contribuiu, nos anos 1960 e 1970, com projetos de implantação de museus estaduais; auxiliando também na consolidação do ensino da disciplina e regulamentação da profissão.

A partir dos anos 1980, se destacou como membro do Comitê Internacional de Museologia (ICOFOM). As reflexões da museóloga sobre cultura, patrimônio e preservação e suas relações com a sociedade, continuam atuais e necessárias. Temas como descolonização, acessibilidade, inclusão de novos públicos já estavam presentes em sua produção intelectual e parte delas está registrada no livro “Waldisa Rússio Camargo Guarnieri, textos e contextos de uma trajetória profissional” (volumes 1 e 2).

Lançado em 2010 e comercializados pela Pinacoteca, os livros estavam esgotados quando, em 2018, durante o 10°EPM, foram lançadas as versões digitais que podem ser acessadas no site do SISEM-SP. O Volume 1, “Textos selecionados: a evidência dos contextos museológicos”, organizado em quatro blocos de textos dispostos em ordem cronológica, registra parte da produção de Waldisa Rússio e seus caminhos pela cultura, em especial pela museologia.

A primeira parte “A aproximação com o universo dos museus e a percepção sobre os seus compromissos públicos” reúne um conjunto de sete textos, que registra sua aproximação ao mundo dos museus marcada pela sua atuação na gestão pública, que lhe deu experiência para as questões que problematizou principalmente em sua dissertação de mestrado.

A segunda parte “A elaboração de princípios teóricos-metodológicos e as abordagens sociopolíticas e culturais”, formada por doze textos, é dedicada aos seus textos mais teóricos, que permeiam questões de ordens política, cultural e patrimonial.

Nesse bloco, as discussões sobre a evolução da museologia como campo específico do conhecimento e sua interdisciplinaridade, influenciadas por autores do leste europeu como Vinos Sofka, Anna Gregorová e Z. Stransky, evidenciam seu conhecimento nas áreas da antropologia, sociologia e filosofia, consequência de uma educação erudita que vemos refletida na profundidade com que escreve, mesmo expondo suas ideias de forma simples.

A terceira parte “A defesa da profissão museológica” é dedicada exclusivamente à sua produção sobre o perfil profissional do museólogo, suas singularidades e perspectivas de conexão com outros campos de trabalho. Leitura interessante para compreender os primórdios da criação da profissão no Brasil e a defesa que fazia sobre a formação do profissional museólogo em nível de pós-graduação.

Na quarta e última parte “Projetos museológicos”, estão reunidos trechos de alguns projetos elaborados pela museóloga, como o Museu Memória do Bixiga e a Estação Ciência.

Na “Apresentação do Projeto Editorial” o texto de Maria Cristina Oliveira Bruno, que foi aluna de Waldisa, traz um tocante relato sobre a figura da museóloga e sua importante contribuição para a museologia. Inclui também o relato sobre as escolhas para a organização da publicação, que teve a contribuição de vários ex-alunos.

O livro contém ainda, fotos e digitalizações de textos escritos à mão pela museóloga. Alguns dos textos fazem parte da bibliografia para o processo seletivo para o Programa de Pós-Graduação Interunidades em Museologia da Universidade de São Paulo e referência indispensável para aqueles que estão ingressando nesse campo do conhecimento que é a museologia.

Apesar dos textos terem sido escritos no final dos anos de 1970 até início de 1990¹, suas ponderações continuam pertinentes e nos provocam a refletir sobre o papel dos museus, e do profissional museólogo e sua responsabilidade com a preservação do patrimônio cultural brasileiro, sem perder de vista as transformações da sociedade. Boa leitura!


BRUNO, Maria Cristina Oliveira. Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado: Secretaria de Estado da Cultura: Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus, 2010.


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¹ Waldisa Rússio faleceu em 11 de junho de 1990.