Primeiro dia do Encontro Paulista de Museus é marcado por reflexões sobre avanços e desafios do campo museal

Avanços e desafios no campo museal. Essa foi a premissa do primeiro dia do 12º Encontro Paulista de Museus (EPM), na terça-feira (08/11) e que segue até sexta-feira (11/11).



Durante as principais atividades da programação convidados rememoraram marcos históricos e apontaram aspectos fundamentais para superar obstáculos e atender as demandas da sociedade contemporânea. A cerimônia de abertura contou com a presença do secretário de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Sergio Sá Leitão, e representantes de organizações ligadas à cultura e aos museus.

Organizado pelo Sistema Estadual de Museus (SISEM-SP), e a organização social ACAM Portinari, instâncias da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, o EPM deste ano aborda o tema “Bem-viver, território, antirracismo, diversidade: com quantos termos se faz um museu?” que esteve bastante presente no bate-papo da primeira atividade do dia: “Diálogos sobre as implicações da nova definição de museus pelo ICOM”.

Participaram dessa conversa a mestre em museologia social, Marília Bonas, o doutor em história, Camilo de Mello Vasconcelos e o diretor do Museu Nacional da Colômbia, William Rosas. A mediação foi realizada pela doutora em museologia e ex-presidente do ICOM Brasil, Maria Ignez Mantovani Franco, que apresentou o contexto da nova definição de museus pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM).

Maria Ignez lembrou que o processo contou com ampla participação dos brasileiros e enfrentou uma série de divergências internacionais até a aprovação e publicação em agosto de 2022, durante conferência em Praga, na República Checa. “Milhares de profissionais se debruçaram nesse processo com a preocupação de uma definição que não fosse imperativa, mas inspiradora”, comentou a mediadora.

Marília, que também integra o ICOM Brasil abordou a metodologia empregada para estabelecer os 20 termos selecionados pelo Conselho Internacional e destacou o engajamento da comunidade museológica brasileira. “Tivemos 1800 pessoas envolvidas e considero a redação dos termos um dos aspectos mais importantes do processo, pois são muito característicos do Brasil e da América Latina”, revelou.

Para Camilo, o papel da América Latina também foi fundamental para determinar os 20 termos da nova definição, embora alguns outros tenham ficado de fora. “Agora não podemos mais esperar 50 anos para fazer essa revisão que exigiu um esforço incomensurável.

Willian Rosas participou virtualmente do bate-papo e ressaltou as diferenças entre Brasil e Colômbia na promoção de políticas públicas de cultura e, em especial, para o campo museal. O diretor do Museu Nacional explicou que no país vizinho os desafios são ainda maiores em razão da guerra civil e falta de investimentos. “A situação é dramática e nos últimos 20 anos muitos museus desapareceram. Quatorze passaram a funcionar como um grupo de trabalho interligados ao Museu Nacional”, conta.

Segundo painel

No período da tarde a programação seguiu com o bate-papo “Diálogos sobre a construção das definições de museus e a comemoração dos 50 anos da Mesa-redonda de Santiago do Chile, de 1972”. Participaram Yara Mattos, pesquisadora, museóloga e doutora em Ciências Pedagógicas, Maria de Lourdes Parreiras Horta, pós doutora em museologia e Hugues de Varine-Bonham, historiador e arqueólogo.

Ana Karina Calmon, doutora em museologia e Júlio Cesar Chaves, mestre em antropologia social e cultural, mediaram a conversa que girou em torno das memórias da Mesa-redonda de Santiago e os avanços dos últimos 50 anos no campo museal. “As novas ideias da mesa de Santiago demoraram para serem implementadas assim como a democratização dos museus, considerando o público como verdadeiro protagonista da ação museológica”.

Para Haugues, o evento de Santiago onde se definiu o conceito de museus deve ser visto como inspiração. “Estamos em outro mundo. Precisamos pensar no espírito de Santiago, em novas direções e melhores usos do patrimônio em serviço da humanidade, da sociedade e dos nossos territórios”.

Durante a conversa, Yara comentou que era recém-formada à época do evento no Chile e foi conhecer o conteúdo daquele encontro somente depois de alguns de anos. “Não tivemos acesso aos documentos provenientes a mesa de Santiago por conta da ditadura”, lembrou.

Cerimônia de abertura

Cerca de 200 pessoas acompanharam a abertura do EPM no Museu do Ipiranga. O Secretário de Cultura destacou o trabalho das equipes organizadoras e os investimentos do Estado no setor. “Ampliamos a rede de equipamentos culturais, qualificamos os espaços, aumentamos o alcance das atividades. Concluímos políticas públicas consistentes e adequadas a necessidade do Estado” disse. Ele também recomendou a inserção dos termos da nova definição de museus nos equipamentos geridos pelo Estado.

Renata Cittadin, diretora do SISEM ressaltou o tema escolhido para a edição do evento em 2022. “Nos inspiramos na mesa de Santigo, no Chile, e na definição de museus pelo ICOM para discutir os museus que queremos e como colaborar com a construção do futuro, da política estadual de museus”.

A coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico (UPPM), Paula Paiva Ferreira, acredita que os conteúdos da programação ajudarão a nortear os próximos passos no campo museal. “Sabemos onde não queremos mais estar e agora cabe entender para onde vamos”.

Angélica Fabbri, diretora executiva da ACAM Portinari, que operacionaliza ações do SISEM, ressaltou a retomada presencial do EPM e possibilidade da troca de experiências, diálogos e reflexões.  “Essas discussões não se esgotam durante a programação, elas vão reverberar por outros espaços”. Rosário Ono, diretora do Museu do Ipiranga também celebrou o reencontro com o público e convidou a todos para conhecer os novos ambientes do museu, reinaugurou em setembro passado, após ampla reforma.