O que sabemos sobre os públicos de museus e exposições de arte no Brasil?

Luiz Palma

Leitores afetos às questões culturais estão diante de um abrangente trabalho de pesquisa e análise sobre hábitos culturais do qual participaram em torno de oito mil respondentes de 21 cidades com mais de 100 mil habitantes em 2014, onde se concentrava à época metade da população de São Paulo. De acordo com os organizadores, o Instituto Datafolha e a JLeiva Cultura & Esporte, trata-se de um projeto maior e permanente, do qual este livro faz parte: “ Contempla seminário sem várias cidades e um site com a íntegra da pesquisa, com acesso livre e gratuito, disponível (…) www.jleiva.com.br/pesquisa_sp/. Cabe salientar que a viabilidade de todo o processo se deu com patrocínios privados e recursos do ProAC/SCEC/SP.

O livro resulta de um primeiro conjunto de observações e análises que contaram com importantes nomes de referência em suas áreas de atuação, tais como estudiosos e pesquisadores, jornalistas e produtores culturais. Todos os nomes e suas filiações profissionais podem ser conferidas na “Carta do Editor[1]“. Os resultados certamente são valiosos para formuladores e gestores de políticas culturais, artistas, produtores independentes ou de instituições. E bem, de certa forma em 2020 questões de muitas naturezas abrem-se à permanência da memória e ao apego das lembranças, pois todo o planeta vive um acontecimento ímpar – fim de um ciclo e início de outro, portanto os dados importam igualmente para historiadores e à antropologia cultural.

A metodologia contou com abordagens quantitativas e qualitativas em diferentes etapas do processo, de modo a buscar uma compreensão ampla de cultura que envolve desde os limites da criação e da produção até as facilidades ou barreiras para a fruição do público. Assim posto, a presente edição abre um amplo arco de limitações e desafios existentes: “Da composição de uma música ou um poema ao restauro de um prédio histórico, passando pela preservação de manifestações folclóricas, a multiplicidade de dados a ser coletados e organizados é desafiadora”[2]. Critérios técnicos definidos a priori garantiram informações sobre deslocamentos de públicos entre municípios e na capital, assim como o impacto das novas mídias no universo cultural. Aos recortes de gênero, idade, renda e educação, somaram-se quesitos sobre religião e cor da pele.

A leitura trará surpreendentes dados e análises críticas e propositivas que se mantêm vivas e abertas para as novas necessidades e condições de produção e sociabilidade. Capítulos instigantes perpassam temas como: Metodologia, Tempo livre; Renda; Educação; Terceira idade; Cultura urbana; Interior; Mobilidade; Tecnologia; Festas populares; Artes visuais; Artes cênicas; Cinema e Música. Aproximem-se pelo Prefácio e motivem-se a continuar seu compromisso com a cultura com as notas do Posfácio.

O que significa, por exemplo, a alegação de que 20% dos paulistanos (notas de zero a três) terem pouco ou nenhum interesse por cinema? Considerando o centro da capital, o percentual cai para 13,5%; já em cidades do interior, chega a 28% (Bauru) e 33% (Araçatuba). Em todo o estado, cerca de um terço da população de baixa renda (classes D e E) respondeu nunca ter ido ao cinema – dez vezes mais do que nas classes A e B. Além disso, 45% dos entrevistados que não estudaram declararam nunca ter ido ao cinema, em comparação a 20% dos que fizeram ensino fundamental, 5,6% dos que concluíram o médio e apenas 1% dos que têm nível superior.

Tais resultados permitem supor que a dificuldade de acesso e a baixa exposição às práticas são mais problemáticas para certas pessoas do que para outras e mais impeditivas em certas regiões do que em outras. Ou seja, mesmo no campo do lazer e do tempo livre, os hábitos e os interesses não são fruto de mera preferência pessoal.

Por que não ir ao museu? Temos uma prevalência do fator renda que se projeta com mais efeito no teatro e nos museus, ainda que aqui a escolaridade também desempenhe um papel importante. Nessa questão sobre o estímulo da escola pela cultura, uma maior proporção daqueles que cursaram apenas o ensino fundamental afirma que a escola estimulou muito (24%) em relação aos que frequentaram uma faculdade(19%). A escola privada continua a ter resultado melhor: 24% dos estudantes dizem que a escola incentiva atividades culturais, ante 19% dos estudantes de escolas públicas. Também reforça a visão de um baixo impacto da escola sobre os hábitos culturais o fato de que mesmo a população em idade escolar de 12 a 15 anos utiliza como referência para escolher eventos culturais ou de lazer muito menos os professores (16%) do que a televisão (44%), as redes sociais (40%),os amigos e a família (36%).

Em todos os casos, a pesquisa permite observar que, em qualquer classe de renda, o desinteresse é a principal causa para não ir ao cinema, ao teatro nem aos museus. A segunda causa são razões econômicas, apontadas por 21%, 18% e15% da população das classes A e B, C e D e E, respectivamente. No entanto, o interesse pela maioria das atividades cresce com a renda.

Indagações e análises de Ana Letícia Fialho (p.150) são compartilhadas em seu texto: “Mas o que isso significa, para além dos dados quantitativos? O que sabemos sobre os públicos de museus e exposições de arte no Brasil? Existem dados qualitativos sobre eles? Quais são os fatores que estão provocando o crescimento do número de visitantes de equipamentos e eventos dedicados às artes visuais? O que determina e quais são os parâmetros para avaliar altas ou baixas taxas de visitação? Qual tipo de experiência/troca/aprendizagem/questionamento instituições, exposições e eventos voltados às artes visuais proporcionam ao público?”.

 A leitura dos dados e as análises trazem as correlações entre o acesso e a possibilidade de consumir cultura como causas estruturantes da desigualdade no espaço urbano e a localização das instituições culturais. Nas classes D e E 83% praticamente só realizam atividades de forma gratuita.

Em relação aos jovens[3], nota-se que o processo de formação cultural é influenciado pelos círculos familiar, escolar e dos amigos (referido principalmente à faixa etária que vai de 12 a24 anos, e também dos 25 aos 34 anos, os chamados, adultos jovens). Pode-se inferir com os dados que o potencial de transformação dos jovens depende de dois fatores principais, primeiro, a ousadia própria de contestação e criatividade, segundo do grau de democratização sociocultural das oportunidades.  Aqui o leitor vai encontrar interessantes referências históricas sobre gerações e suas influências e expectativas alcançadas ou frustradas: os baby boomers – geração que nasceu depois da Segunda Guerra (1945 a 1960); a geração X (1960 e 1980), a geração Y (1980 a 2000) e a geração Z (nascidos a partir do ano 2000) : “A ideia vem como possibilidade de entendimento do espírito dessas épocas (zeitgeist) e as principais transformações comportamentais e estéticas pelas quais o mundo contemporâneo tem passado”.

Boa imersão!

CULTURA SP – Hábitos culturais dos paulistas

Leiva, João. Cultura SP: Hábitos culturais dos paulistas / organização

João Leiva. – São Paulo Tuva Editora, 2014.

ISBN 978-85-66920-04-8

Resenha: Luiz Palma – SCEC/UPPM/SISEM

Maio/2010


[1]Carta do Editor, p.7.

[2] Prefácio. João Leiva, p. 23.

[3]Baixo Ribeiro. Movimento, Inovação e Convergência. pp. 88/89.