Novos integrantes do COSISEM-SP comentam desafios para o setor museal

Maria de Lourdes Bueno e Nilo Almeida foram eleitos durante 10EPM para o biênio 2019-2020

A artista plástica e produtora cultural de Praia Grande, Maria de Lourdes Marszolek Bueno, e o museólogo e funcionário da Secretaria da Cultura, Esporte, Lazer e Turismo da Prefeitura de Santo André, Nilo Mattos de Almeida, são os novos integrantes do Conselho de Orientação do Sistema Estadual de Museus (COSISEM-SP) para o biênio 2019-2020.

Ambos foram eleitos em votação realizada durante os dois primeiros dias do 10º Encontro Paulista de Museus (10EPM) – organizado pelo SISEM-SP e ACAM Portinari de 18 a 20 de julho, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Na entrevista abaixo, Maria de Lourdes e Nilo comentam sobre os desafios que se apresentam atualmente aos museus paulistas e como superá-los, qual a importância do Cadastro Estadual de Museus (CEM-SP) e de outras políticas públicas para o setor. Confira.

SISEM-SP: Atualmente, qual o maior desafio aos museus paulistas e como o COSISEM-SP pode ajudar a superá-lo?

Maria de Lourdes Bueno: São muitos e grandes os desafios. Entretanto, as estruturas de sustentabilidade, gestoras, técnicas, financeiras e físicas são as maiores demandas. O COSISEM-SP busca orientar os museus através sugestões para dar suporte às necessidades básicas apontadas nas fragilidades apresentadas.

Nilo Almeida: O grande desafio dos museus paulistas é o mesmo dos museus de todo o Brasil: a adoção dos padrões museológicos em seus procedimentos de trabalho. E isto abrange desde as bases legais, como criação, estatutos, plano museológico, assim como os procedimentos técnicos de manuseio e conservação das coleções. Ainda vivemos um momento em que estas questões são muito claras para os profissionais diretamente envolvidos nas instituições, mas que causam estranheza em gestores públicos e na sociedade em geral. Seria aquela visão do museu como um local cheio de regras ou de procedimentos exagerados, que não correspondem à realidade. O COSISEM-SP tem um papel importantíssimo como um grande interlocutor e mediador junto aos gestores públicos e à sociedade para comunicar e conscientizar sobre a função social e construtiva dos museus no mundo.

SISEM-SP: Qual a importância do Cadastro Estadual de Museus (CEM-SP) para a qualificação dos museus paulistas?

Maria de Lourdes Bueno: Justamente por orientar e sugerir ações que possam ajudar os museus a se estruturem melhor, através dos apontamentos das qualificações. Se o museu quer ser considerado um museu, precisa estar dentro dos parâmetros básicos de funcionamento. Se ele não corresponde, o Conselho orienta o caminho que sua missão deve seguir. A Instituição pode não ter uma missão museológica, e ser um espaço cultural bem estruturado; como também ter a missão museológica, mas não ter pontos fortes que a qualifiquem como sendo. Neste caso, ela é uma instituição em processo de formação museológica.

Nilo Almeida: O Cadastro Estadual de Museus funciona plenamente como um marco regulatório para os museus, assim como atua como uma ferramenta para orientar e assegurar a adoção das boas práticas nos diversos setores das instituições. Ao mesmo tempo em que abre um canal de comunicação positiva dentro da comunidade em que está inserido, algo como “Vejam, somos um Museu!”, ele indica um caminho que a instituição deve seguir para se qualificar. Durante o preenchimento dos quesitos, as respostas tornam-se diretrizes. Quando se pergunta “Temos lei de criação?”, abre-se o caminho para a estruturação legal. Quando se pergunta das condições físicas do prédio, como se planejar para adequações que possam ser necessárias. Rompe-se um ciclo de práticas de confronto, onde se criar um museu ou ter um museu deixa de ser um “problema” e torna-se uma plataforma para a construção de conhecimento e de uma sociedade melhor.

SISEM-SP: Tendo em vista a variedade estrutural, orçamentária, de público e conteúdo dos museus paulistas, como atuar de maneira a atendê-los em suas necessidades e diferenças?

Maria de Lourdes Bueno: Na verdade, é uma posição difícil de qualificar. Às vezes, um grande museu nem sempre está dentro das qualificações básicas exigidas no Cadastro, e outras vezes temos museus de pequeno porte que cumprem bem suas missões, em conformidade com o CEM-SP. São grandes as diferenças apresentadas, mas cada caso é um caso e as orientações são específicas e pontuais.

Nilo Almeida: Exatamente compreendendo e respeitando estas diferenças, mantendo a igualdade apenas no entendimento que todos são museus. Não existe museu maior ou menor, ou “museu que é mais museu”, “quase museu”, “museu pior ou melhor”. Museus são diversos tanto como são os conhecimentos do mundo. Entender as diferenças como algo que complementa e constrói é o grande trunfo que deve unir a todos nós. Você pode ter um museu pequeno com uma coleção específica e um grande museu com várias coleções e uma gama infinita de serviços. Os dois são igualmente e absolutamente preciosos e necessários. Isto posto, os investimentos devem ser dedicados a ampliar o potencial de cada instituição dentro da sua realidade. Existe a necessidade de investimentos que são comuns a todos, como ações de conservação, segurança, acessibilidade e programas de ação educativa. Para além deste escopo, deve se observar a natureza e estrutura de cada instituição para decidir quais ações terão melhor resultado.

SISEM-SP: Como o Estado deve atuar para que os museus sejam, de fato, agentes impactantes ao público e sociedade nos quais atuam?

Maria de Lourdes Bueno: A saída é reconhecimento, olhar para o museu como um lugar que indica e constrói caminhos, lugar de saber, de trocar e refletir, lembrar para não esquecer daí, buscar parcerias com outros setores que possibilitem, público, investimentos financeiros através de editais de associações, enfim querer que os museus tenham sustentabilidade, física, técnica, segurança, recursos financeiros e equipe profissional qualificada com organogramas, planos, regulamentos, alvarás… enfim, que possam atuar no cumprimento de suas missões na conservação e preservação de seus acervos e no recebimento do público adequadamente.

Nilo Almeida: Primeiramente, adotando uma prática interna regular e consistente de fomentar a visitação e o conhecimento dentro de sua própria estrutura. É importante que os demais setores do governo estadual conheçam os museus, se apropriem deles do ponto de vista cidadão. E não vejo problema se esta ação partir num primeiro momento junto aos museus do próprio governo estadual. Porque a máquina do Estado sensibilizada e proativa em relação aos museus, se traduz na parceria que será bem vista com maior facilidade em uma cidade mais afastada. Várias ações têm sido feitas neste sentido, e a própria existência do SISEM-SP e do COSISEM-SP são provas disso. Tivemos neste ano o 10º Encontro Paulista de Museus. É preciso compartilhar estas conquistas com a sociedade.

Fonte: SISEM-SP