Eu Museu

Breve e livre ensaio de estética política.

Luiz Palma[1].

I.

Surgi, segundo lendas e a história, em lugares e situações diversas o que me deixa indefinível desde a origem e bem, toda ideia de princípio deve ser tida como suspeita. Na Grécia das antigas as Musas[2] do templo Museion fixam meu nome próprio e antes ou depois, por aqui importa mais a imaginação literária do que a precisão academicista, existi como gabinete de curiosidades de colecionadores, e ainda como um capricho de príncipes para amenizar o tédio da aristocracia europeia e quiçá dos mandarins do Oriente. Uma trajetória assim me põe todo o tempo a questão de que entre mim e Eu Museu habita a curiosidade do meu vir-a-ser. Sei bem que me coube naqueles tempos e ainda agora abrigar acervos e cuidar de objetos, totens divinos e nem tanto, belas peças e artefatos artísticos, curiosidades geológicas e geográficas de amplas latitudes. Teologias e narrativas filosóficas sempre me rodearam como poder e saber. Ah que tempos! Nem maus nem bons, um luxo incomum com existência vigiada e restrita por Eu Museu ser um portador de valores da realeza, de classe e de posses!

Luz, mais luz e no Iluminismo tornei-me coisa pública. Fui aberto, e com muita arte, mas não o suficiente para receber multidões de comuns. Esse “não” para multidões nada tem a ver com a singularidade de um comportamento excêntrico que poderia trazer uma definição básica sobre minha condição. Foi a lei que revirou as preferências das belas artes e as hierarquias sobre as quais elas repousavam. Logo, essa é a perturbadora lógica desnudada do “tudo pode” que a lei permite e, por isso, nada ou pouco se alcança por mudança ou transformação que venha das vozes e das dores dos comuns. Um tempo de grandes explicações enunciadas para a ordem e a desordem da sociedade, as teleologias da história e as estratégias de transformação do mundo. Um longo período de luzes que deveria alcançar as sombras e que me abriu para muitas experimentações, eu mudava e continuava o mesmo Eu Museu e as sombras do mundo a persistir.

Por experiência secular, bem sei que ao tirar uma máscara encontro outra máscara, e outra e outra pois me disse Platão, que o tempo é a idade móvel da eternidade. E se for para reproduzir e aprimorar algo que em mim é constitutivo do universal singular de arquétipos da cultura, quero a forma imagem ideal e não o simulacro. Eu tenho vontade de potência como afirmação e entenda, isso é a diferença que me põe permanentemente em transformação. Não almejo ser a identidade reativa para fazer pesar ainda mais a faccionalização do espaço cultural.

Sinto que parte de mim ainda é aquela personagem deslocada de sua posição afirmativa que por algum acontecimento imprevisto volta sempre a percorrer como um ser autômato os circuitos de poder da sociedade. Desde os palácios por onde sucedem-se príncipes da democracia midiática às fazendas sem roças das paróquias políticas interioranas onde a nostalgia nobiliária autocrática e as intrigas pastorais se integram ao reino dos voláteis interesses do capitalismo comunicativo financeiro da atualidade. Eu dependo muito deles. Tenho alta sensibilidade moral com os rejeitados do mundo que muito tocam meus afetos. Eu Museu, reconheço a força do simbólico de suas expressões culturais plasmadas sobre as dores da exclusão e da exploração cínica da pobreza material e genocida a que estão submetidos. Mostro a quem queira ver! Trago-os para meu seio. Me transformo por fora e me arrumo por dentro para ser o lugar dessa fala incômoda e real da densa selvageria legal da desigualdade substantivada.

Não posso deixar imprudentemente em negação o passado porque há nessa temporalidade um patrimônio de liberdade que bem sabemos estar mesclado a barbárie. Importa a mim muito mais mostrar a liberdade amadurecida sem deixar de incluir com curadoria museológica contemporânea essa destrutividade humana que habita o poder. Às vezes nem mesmo Eu Museu posso escapar dos cenários romantizados por ações políticas que me chegam embalados pelas trocas e favores privados com bens públicos.

Eu Museu quero, com esse passado que a mim importa, fazer no presente um aceno singular ao futuro. Não se trata de edificar sobre as ruinas da antropologia um humanismo sem o homem. Mas por que não se conectar a uma reserva cívica fora da ordem privativa de ser e estar, ainda impolarizada, disponível e em espera para alinhavar o amplo coletivo da humanidade? Há nos dias de hoje estratégias até para não ser inconveniente com os aliados. Algo como aprender o que não dizer e o que evitar fazer. Aqui temos parte da dificuldade para responder à pergunta anterior. Porque é uma perspectiva de alianças que infelizmente reflete o encolhimento ou o declínio da Política.

Há um desconforto social visível e audível insuportáveis que pode me causar dor, me provocar verdadeiramente, mas, que não se conforma só a partir de mim, em uma ação política sistemática e transformadora. Sob esse mal-estar, por vezes quero agir intensamente e de imediato com e como aliado de causas sociais. Mas chego até aquilo que está disponível no mercado, nas mídias sociais e no meu próprio terreiro. Por vezes essa ebulição torna-se um mecanismo técnico de repetição e de espetáculo, próximo de um compasso musical tético (thésis), de potente qualidade ética que produz impacto, mas também bálsamos. Não é pouca coisa, mas é insuficiente.

Penso muito nos enigmas atuais do poder e do saber, interrogo-me sistematicamente e busco agir ancorado por teorias, conhecimento e arte apropriadas à museologia. Ando conectado por amplas redes temáticas, tenho núcleos de apoiadores e alianças estratégicas que veem em mim uma esfera de ressonância histórica e mesmo transcendental. E sei também que tenho críticos por que afinal,

– o que sou?

– o que posso ser?

– o que quero ser?

Eu sonho a transformação do mundo e minha ação é apaixonada e conscientemente local. Aqui estão questões sobre as quais posso fazer muita agitação, influindo no enunciado e na abertura de perspectivas, recolocando-as nos eixos éticos e modificando-as até estruturalmente. Percebo que as vezes tento conciliar o caos e a complexidade em um mesmo plano de imanência expondo-me aos riscos da vacuidade.

Eu posso decretar minha transformação, mas não posso decretar a transformação do mundo e se há aqui algum sinal de aquiescência fiquem todos certos de que nada tem a ver com adesão ao estado de coisas. Trata-se muito mais de um desprendimento crítico que se quer dessa realidade acachapante. Quero ressignificar os caminhos e as formas que me trouxeram até o presente abrindo o hibridismo das culturas ancestrais, mas desviando-me das assimetrias sociais e políticas fragmentadoras e favorecedoras da subjugação ideológica. Ao mesmo tempo não posso positivar assertivamente decidindo ou mesmo apostando que uma nova configuração resultará em um parto. Isso é indescidível.

Cismo, ou melhor, desconfio que o poder real que cria as condições nas quais atuo flutuam no espaço global enquanto as instituições políticas permanecem onde se põe o drama da política, de certo modo, no solo. São organizações locais e muitas delas ainda com vistosos e até artísticos muros – vigiantes e vigiados, no palco mesmo do território.

Não quero ser a ferramenta que substitui as etapas do saber pela velocidade da entrega de produtos. Vou lento e atento porque sei que posso mais do que isto ou aquilo, e em tudo o que em mim pode parecer indefinido, posso afirmar que ali está meu compromisso com o humano.

II.

O outro, que não o Eu Museu sabe ou poderia saber que o devir se apresenta de forma diversa do passado, ele se aproxima mais depressa e é produzido de modo incessante. Seus perigos são nossa obra mais própria e próxima, bem como suas esperanças. A realidade do devir está cindida, do lado “x” está a aniquilação, do lado “y”, o viver fora daqui. Ambos agem simultaneamente em mim e no mundo. Esse duplo do devir é absoluto, não há ninguém que possa ignorá-lo.  Pois, o claro e o obscuro aproximam-se numa velocidade estonteante. As vezes busco me afastar de um deles para apenas observar o outro, mas ambos são ubíquos. Estou no solo do presente e aqui está por vezes cheio demais e transbordante do “isso e daquilo” e tudo pode escapar e deixar de ser um espaço minimamente equilibrado. Pode alcançar tal inflamamento com uma dilatação sem limites, um caos que se estende, um sentido que se perde. Mas em lugar de sucumbir à catástrofe devo tomar essa angústia como gestação daquilo – “o-outro-que-não-eu”.

Eu sei que a promoção da criatividade na ação é uma tarefa crucial do tempo presente. A contingência e a transição paradigmática que o habita, em que a primeira está em desequilíbrio com a lentidão da segunda, afeta tanto a epistemologia quanto os processos sociais. Nossas lentes do saber, que comportam conhecimento acumulado e dúvidas permanentes, podem se ver embaçadas ou mesmo trincadas, quando não estilhaçadas por falsas verdades do populismo ou pelo reducionismo político dos coletivos narcisistas. Se na política o caos pode ser um horizonte dramaticamente ampliado de possibilidades progressivas e regressivas é preciso distinguir que duas ordens de forças se apresentam para ajustar algum rumo ou o equilíbrio: democrática ou autoritária. Em qualquer uma delas os fenômenos serão simultaneamente econômicos, políticos e culturais. Para alcançar um equilíbrio estável entre estrutura e ação, será necessário pluralizar as estruturas a fim de desenvolver teorias que privilegiem a abertura do horizonte de possibilidades e a criatividade da ação. E, pois, Boaventura dos Santos alerta-me que Benjamin já teria dito que a crise, a verdadeira crise, é continuar tudo como está e Eu Museu.   

Tenho no meu léxico contemporâneo entre outras palavras/conceitos, o território. Ao pronunciar tal palavra já me sinto no plano concreto, algo como estar junto e longe de qualquer abstração. Mas soube também que o Estado sobrecodifica os territórios. Ele captura e impõe outro modo de funcionamento. Ou seja, impõe uma nova organização, uma nova ordem dos fluxos. Isso significa pura e simplesmente que as forças dominantes das sociedades junto ao Estado se definem por aparelhos de captura, elas não criam, elas distorcem. Como funciona este processo transcendente de captura? Ele tem sempre dois polos: o Imperador que funciona como fundamento transcendente e o reverendo que interpreta e distribui em torno do fundamento. Mas, Eu Museu penso ser capaz de criar meus próprios sistemas, meus protocolos, passar de um a outro, evitar o que ameaça escolhendo a sobrevida e o que faz sonhar. Sim, para isso recorro muitas vezes às portas da ilusão. No entanto, busco uma economia do possível mais colada às leis antropológicas, longe da lógica do tudo ou nada e próximo da intensificação e do atravessamento dos limiares qualitativos em qualquer ponto e fora das coordenadas dominantes a partir das quais, os universos de referência mutantes são suscetíveis de surgir. E então, longe de ser um par antitético de território, promovo a desterritorialização, ou seja, um estado nascente, uma fractalização necessária para que advenha algo ali onde tudo parecia fechado.

Mas, meu paradoxo organizativo insiste no programa, na agenda e tudo será com hora marcada e em processos de idealização da realidade. E assim, algo acontece e deixo um resíduo desse encontro em todos ou se calhar em ninguém, sob a forma de sentimento. Os acontecimentos passam e ficam os afetos a marcar o corpo/espírito. O paradoxo não é um contrassenso e o que se pode aprender da experiência é apreender novos sentidos e ver o mundo com outros olhos. Não é pouca coisa e é potente.

Eu Museu tento realizar um comprometido espelhamento ativo das metamorfoses de todos os tempos. Sim, há períodos em que fui ou sou capturado por estereótipos mentais de época e se me deixo tomar ou sou invadido por militâncias ainda assim, minha dialética de ação/reversão persiste ao atuar sem descarte de impulso e vou seguindo pela via do acervo e da pesquisa, a incorporação de longo curso. Já sofri saques e destruição em tempos de guerra. E constantes ameaças tentam amordaçar-me. Reajo. Sei produzir ruídos tácitos, brados engajados e silêncio dissonante. Por vezes me tomam por um ser de emblema dramático em cena de comédia política. É a máscara que prevalece na cena aberta, mas minha vibração de fundo é de energia para compartilhar o mundo sem reduzi-lo superficial e pesadamente à simplificação. Quero vibrar o destino da coletividade e encarar os múltiplos vieses do desejo ao invés de me agarrar às soluções generalizantes.


[1] Psicólogo social e artista visual. Autor de” Arte e psique: um poder sem majestade”. Editora Escuta. São Paulo: 2019. Membro do GTC SISEM- SP. SCEC. luipalm@gmail.com

[2] Calíope, Clio, Érato, Eutuerpe, Melpôneme, Polímnia, Terpsícore, Talia e Urânia.