Dia dos Museus, três breves reflexões

Por Carla Nieto Vidal*


Hoje é o dia Internacional dos Museus. A data foi criada como um estímulo à população para que visite os museus, marcando assim um dia de valorização dessas instituições.

A cada ano, a comunidade de profissionais de museus, por meio do seu Conselho Internacional – o ICOM, escolhe um tema para orientar as celebrações e as reflexões sobre a data, que funciona como um chamado que abraça uma causa, um desafio do tempo presente e que acaba orientando diversos processos institucionais ao longo do ano.

O chamado deste ano volta-se para o tema: “futuro dos museus: recuperar e reimaginar”.

E esse tema traz algumas reflexões:

Primeira reflexão

A convocação para o futuro requer um profundo desapego, para permitir brechas de contato com o desconhecido e o exercício sistêmico de explorar, testar, inventar. Assim sendo, o futuro não se finca na expectativa de recuperação, mas sim na iminência de permitir novos modelos e ensaios , o que sugere que, talvez, um termo que pudesse se
adequar melhor à palavra “recuperar”, fosse “sustentar”.

Sustentar vai além da sua natureza de verbo transitivo direto, “que sustenta, equilibra, evita a queda”, para ampliar-se como uma prática mais ampla, que se estende até se converter no processo de sustentabilidade, um substantivo feminino que caracteriza a condição de sustentação. Quase como um gesto da mãe que carrega seu filho e não se priva de lhe ofertar condições e insumos que desenvolvam seu bem-estar físico, mental e emocional. Um fluxo de vida que abraça a ecologia humana e a metáfora de nos levar ao encontro de uma atuação cada vez mais dentro das perspectivas da sustentabilidade social, ambiental, econômica e cultural dentro dos museus. Eis aí um desafio para os museus em sua rota para o futuro: a criação de uma política de sustentabilidade que respeite a diversidade de cada instituição e sua escala nas cidades e comunidades em que atuam.

Segunda reflexão

Outro ponto é a palavra “reimaginar”.

Há uma pequena diferença entre ela e a palavra “imaginar”. Enquanto reimaginar significa imaginar de novo, voltar às experiências já vividas, restabelecer contato com o já feito, a palavra imaginar nos convoca para um exercício de construir novas imagens, de se permitir a experimentação e a inovação. Talvez esse convite, num mundo que se mostra repleto de fraturas tão expostas, fixadas em imagens tão sofridas, faça mais sentido.

Se de um lado você sustenta, ampliando essa capacidade de dar condições de permanência, do outro se permite a exercícios, a experimentação, a criação de novos arranjos e práticas, de novas imagens de existência.

Desde o início da Pandemia de Covid 19, a imaginação tem sido convocada como um recurso essencial para a nossa sobrevivência. Ela e suas possibilidades práticas estiveram presentes em muitas falas, conversas, lives e escritos proferidos em encontros que reuniram profissionais de diversas áreas do conhecimento.

A imaginação esteve presente também nas expectativas mais íntimas de cada um de nós que, em meio a tanta complexidade, temos testado nossa capacidade de imaginar saídas para os dilemas individuais e coletivos despertados pela profunda crise social e econômica, que tem abalado todas as nossas estruturas de forma tão decisiva.

A imaginação torna-se uma convocação quase que espiritual e esse é também um ponto sensível para superarmos a nossa delicada realidade –a espiritualidade emerge no exercício da imaginação e nos conecta com a nossa anima e o nosso vir a ser, repleto de potencialidades.

Quem sabe seja sobre isso que devemos nos debruçar, sobre essa possibilidade de sentido e direção mais profundos de nossas vidas e que impactam também experiências tão sublimes como a visita a um museu.

A pergunta que fica é: como estamos criando essas conexões, entre os nossos sonhos e imagens não realizadas e as das instituições culturais? E isso também tem muito a ver com a relevância que damos ao nosso sentir, e a relevância que as instituições dão ao seu existir e que se conectam num fluxo comunitário, onde os museus possam acolher e
também usufruir dessa capacidade humana tão sublime que é a imaginação – uma capacidade que diz respeito a essa possibilidade de religarmos nossa anima individual à anima institucional, em pontes de atuação que transcendam as práticas até então usuais, para acolher as questões urgentes da nossa sociedade, sem o medo de levantar as
bandeiras que fazem parte das mudanças que podem nos ajudar a sustentar o mundo e assim criar este futuro que tanto desejamos encontrar adiante.

Uma terceira reflexão

Um último ponto para esse exercício das palavras diz respeito à imagem estabelecida no cartaz da campanha.

Talvez pudéssemos substituir os óculos virtuais por óculos de mergulho, que nos conduza às profundezas e
magnitudes de novos mundos, humanamente reais.

São Paulo, 18 de maio de 2021.

*Carla Nieto Vidal

Especialista em gestão cultural tem se dedicado a desenvolver estratégias institucionais e planejamento de comunicação, captação de recursos e sustentabilidade para projetos, programas e instituições da cultura. Atuou nas equipes da Gazeta Mercantil, do Museu da Pessoa e da Expomus e desde 2018 integra o coletivo de trabalho Gengibre Criativo. Dentre os projetos em que colaborou destacam-se as ações para a elaboração de planos museológicos e estratégicos de importantes museus brasileiros e as estratégias de captação e de comunicação de grandes exposições internacionais realizadas no Brasil e que foram as mais visitadas no mundo, no período em que se realizaram. Tem colaborado na formação de novos gestores culturais ministrando aulas junto aos programas do Observatório do Instituto Itaú Cultural e do MBA em Museologia ABGC e Expomus, ligado à Universidade da Candido Mendes. Estudou História na PUC – SP e se especializou em gestão cultura e planejamento institucional.