Afinal, o que se espera de um museu histórico?

Por Ana Carolina Xavier Avila

Diversos são os significados e tarefas atribuídos aos museus históricos ao longo dos anos, no entanto, para que seja possível entender, de fato, estas instituições, faz-se necessário, primeiro, compreender que, para que se tornem efetivas à sociedade, precisam congregar as expectativas depositadas sobre elas no passado (como locais de evocação e celebração da memória) aos anseios do presente, sendo elas palco de reflexões não apenas sobre objetos históricos, mas, sim, sobre problemas históricos.

Sob esta perspectiva, Ulpiano T. Bezerra de Meneses redige o capítulo introdutório da publicação “Como explorar um museu histórico”, veiculada pelo Museu Paulista, no ano de 1992. Partindo de exemplos contidos no acervo desta instituição, os autores dos sete artigos que constituem a publicação, trabalham diversos exemplos de exploração do acervo material, formulando, a partir de suas características intrínsecas, a análise da estruturação, desenvolvimento e mudanças da sociedade.

A publicação, estruturada em sete artigos, traz textos dos seguintes profissionais pertencentes ao corpo técnico do Museu Paulista: Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses, o então diretor da instituição e professor titular na Universidade de São Paulo, autor de quatro dos sete textos; Vânia Carneiro de Carvalho, historiadora do Museu; Marlene Suano, professora do Departamento de História da FFLCH/USP e Heloisa Barbuy, museóloga do Museu Paulista.

Inicialmente, apresenta ao leitor indagações básicas sobre o que caracteriza um museu históricos e quais os critérios comumente utilizados para tipificar objetos como “históricos”. A partir daí, tece profícuo raciocínio sobre o novo sentido que os objetos recebem ao ingressarem em uma coleção museológica e, utilizando-se do exemplo do Museu Paulista, construído como monumento de celebração à Independência, desenvolve breve interpretação histórica de seus símbolos, culminando na reflexão que celebração e evocação da memória devem, sim, estar presentes nos museus históricos, porém não como objetivo, mas como objeto de conhecimento.

No texto seguinte, Meneses apresenta, novamente a partir de exemplos contidos no Museu Paulista, diversificadas formas de abordagem dos objetos históricos (cultura material), de forma que tais artefatos sejam investigados não apenas por seus dados intrínsecos, mas, também, por seu aspecto extrínseco, aprofundando o entendimento de seu papel no desenvolvimento social e formação de consciência histórica.

Capa da publicação “Como explorar um museu histórico”, publicada pelo Museu Paulista no ano de 1992.

Um pouco adiante, nos textos concebidos por Vania Carneiro de Carvalho, Marlene Suano e Heloisa Barbuy, observa-se três excelentes exemplos, partindo também do estudo do acervo pertencente ao Museu Paulista, de interpretação dos artefatos museológicos, abordando a exploração desses objetos (características morfológicas, tecnológicas e funcionais) como forma de nos remeter às relações sociais, enfatizando a importância das características materiais das coisas, que apontam para diversas formas de organização social, valores e visão de mundo.

Encerrando a publicação, temos mais dois textos de autoria de Ulpiano T. Bezerra de Meneses: “Pintura Histórica: documento histórico?” e “O Salão Nobre do Museu Paulista e o teatro da história”. No primeiro caso, discorrendo sobre uma pintura de Benedito Calixto, o autor nos relembra sobre a antiga função simbólica que os objetos artísticos possuíam nos acervos de museus históricos e faz uma nova leitura, segundo parâmetros contemporâneos, sobre como investigar tais obras para que auxiliem na reconstrução e entendimento do imaginário da época em que foram concebidas.

Alinhavando todos os artigos, por fim, o autor redige seu último trecho, contendo atenta análise da exposição do Museu Paulista (configuração relativa à época de divulgação desses textos), relembrando ao leitor que tais artefatos, cuidadosamente eleitos para composição dessa exposição, incluindo as características arquitetônicas do prédio, faziam-se documentos históricos muito mais ligados à memória que se criou da Independência ao final do século XIX, do que, de fato ao advento da Independência tal qual o foi.

Aos apaixonados por museus históricos, extremamente curiosos em descobrir os fatos além das memórias “óbvias” em seus acervos, “Como explorar um museu histórico” será uma leitura extremamente prazerosa e produtiva, apoiando na elaboração de estratégias de investigação de acervos por meio de seus exemplos claros e raciocínio coeso. Recomendamos a leitura. Aproveite!


UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (São Paulo, SP). Museu Paulista. Como explorar um museu histórico. São Paulo: Museu Paulista, 1992. 27 p.


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