Relatoria – A ELOQUENTE REDE DOS MUSEUS: perseverança e compromisso

Por Luiz Palma[1]

Paul Klee. Angelus Novus. Óleo sobre tela. Acervo The Israel Museum (Jerusalém). 1920.

Chamado todo o tempo de inimigo invisível, o virus do Covid-19, desencadeou uma sequência de metáforas de guerra na política e mesmo nos centros de coordenação das ações emergenciais de saúde. Combate, arma, comando, comboio, ataque, soldados. A quem interessa a movimentação belicosa das guerras? Ao déspota, ao populista, a indústria bélica, a tiranos e tiranetes. Não há inocentes por ai. Ingênuos talvez. Com a finalidade de adotar um conceito amplo da saúde, em 7 de abril de 1947 ou seja, há 73 anos entrou em vigor, na Organização Mundial da Saúde (OMS), o conceito de saúde como: “o estado de mais completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de enfermidade”. Uma amplitude civilizacional, pois apesar da maior dificuldade operacional para se alcançar o completo bem-estar, é um horizonte a ser perseguido e norteador da atual epidemiologia. Aqui há ciência, profissionalismo e solidariedade social, missões difíceis e ações arriscadas, mas nada parecido com uma guerra. O que a movimenta é a preservação da vida.

O ethos da Cultura é marcado pela convivência humana, sua pluralidade de formas e linguagens, embora possa carregar atavismos diversos, é pacífica, ou seja, é a antinomia da guerra.  É preciso reafirmar aos obscurantistas que só a natureza da consciência, como potência humana, é capaz de lançar-se à frente de si mesma e para dentro do futuro. E a isso se pode chamar de “a força silenciosa do possível”. Nessa quadra histórica carregada de cacofonias do desespero e do improviso oportunista, no âmbito dos museus uma luz, entre outras, vem de Waldisa Rússio [2] ao afirmar que ao museu cabe “restaurar o elo entre o passado e o presente, projetando a ponte para o futuro, através da preservação e da ênfase à manifestação do trabalho criador do homem, de sua inteligência e sensibilidade; cabe ao museu possibilitar a leitura não do símbolo, mas do elemento simbolizado, penetrando na raiz mesmo do Humanismo”. E de Walter Benjamin (1985) para quem o passado está presente nas ruínas, que, se pudessem falar, teriam muito a contar. Basta dar ouvido a elas – ou então fazer uma leitura em busca de componentes dispersos de algo anteriormente totalizado.

O princípio da razão exige que não haja efeito sem causa – essas causas requerem outras causas, pois sabemos da multicausalidade dos acontecimentos históricos, carregados de uma incessante transformação. No entanto, compreender que nada será como antes é muito diverso do que agir como se não houvera amanhã, pois a rigor a repetição das mesmas coisas em contextos diferentes não é repetição, pois se trata de considerar as várias camadas de sua significação. Não cabe aqui certo saudosismo de trocar um “futuro melhor” por um “passado melhor” dado que ambos são suspeitos de ser uma negação do real. É na tese central do anjo da história que Benjamin (1985) articula seu repúdio à postura de progresso a qualquer custo, cujo pecado maior é o de desprezar as vozes do passado. No Angelus Novus, obra de Paul Klee, o filósofo reconhece que o anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. É possível ver na composição uma cadeia de acontecimentos que enseja uma catástrofe única, um acúmulo de ruína sobre ruína dispersa a nossos pés. O anjo tenta deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos, no entanto “uma tempestade sopra do paraíso e prende-se a suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso” [3].

Inseridos nessa realidade da pandemia os museus, como não poderia deixar de ser, fecharam suas portas, mas não cessaram o “fazer museal” consubstanciado pela ressonância do conhecimento, advindas da teoria e a pratica da museologia contemporânea. Institucionalmente, seguem com suas peculiaridades engajados na superação da crise, reafirmando seus princípios fundamentais[4], embora com o peso das restrições, necessárias para a preservação da saúde e da diminuição dos riscos à espécie humana. Aqui há de certa forma um horizonte muito próprio aos museus para uma reação fora da “cegueira situacional”[5].

Momentaneamente em muitos museus do mundo, como pontuado em conferência on line pelo ICOM[6], assim como nos Museus da Secretaria de Cultura e Economia Criativa e do SISEM-SP,os acervos em exposição, as mostras programadas, a interatividade com o público; o programa educativo com as crianças, com os adultos e os idosos, prosseguem adaptados tecnologicamente por meio dos acessos nos links e em alguns museus por lives – transmissões interativas de suas plataformas nas redes sociais. E ainda por outras modalidades de comunicação – sejam as palavras, os sons e as imagens. O momento impõe sacrifícios autofágicos, pois não são poucas as restrições que afetam a sustentabilidade financeira dos museus e consequentemente alcançam todas as suas dimensões constitutivas.

Ao final dessa síntese reflexiva talvez caiba indagar sobre a ontologia a que se referem Negri e Hardt (2004) como uma alternativa constituinte, propelida como uma antologia histórica de nós mesmos, ou uma genealogia da constituição do ser social que interroga a si mesmo enquanto sujeito moral da ação. A construção dos nomes da realidade seria o espaço cognitivo no interior do qual o sujeito desenvolve a passagem do desejo de viver à cooperação, como união da força viva do ser: “como se o mundo fosse desfeito e refeito tendo como fundamento uma série de pensamentos, ações e intuições baseadas na singularidade individual e coletiva, que as organiza no seu desejo e na sua força” [7].


[1] Técnico da UPPM/SECEC. Psicólogo social e artista plástico.

[2] Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. Organização Maria Cristina Oliveira Bruno. P. 55. São Paulo: Pinacoteca do Estado: Secretaria de Estado da Cultura: Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus. 2010.

[3] Walter Benjamin (1985) Obras escolhidas. Vol. I. p. 226. Trad. Sérgio Rouanet. São Paulo: Brasiliense.

[4] Art 2º da lei nº 11.904 de 2009, que institui o Estatuto de Museus: I – A valorização da dignidade humana; II – A promoção da cidadania; III – O cumprimento da função social; IV – A valorização e preservação do patrimônio cultural e ambiental; V – A universalidade do acesso, o respeito e a valorização à diversidade cultural; VI – O intercâmbio institucional.

[5] Como revelam a literatura especializada e as boas práticas, o Planejamento Estratégico Situacional criado por Carlos Matus busca balancear a técnica e a política, o passado e o futuro. Previsão e prontidão, firmeza e sensibilidade que conferem ao exercício do planejamento o importante e necessário espírito da mediação.

[6] https://icom.museum/en/covid-19/resources/icom-oecd-webinar/ OECD – ICOM – Impact, innovations and planning for post-crisis. 10/4/2020.

[7] Luiz Palma, “Arte e Psique: um poder sem majestade”. P. 123. Editora Escuta: São Paulo, 2019.