10º Encontro Paulista debate os principais desafios éticos dos museus na atualidade

Painel reúne professor da USP, Christian Dunker, e procurador da República, Sérgio Suiama

“Desafios éticos e contemporâneos para museus”. Esse é o nome do painel em que participa o psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP, Christian Dunker, ao lado do procurador da República, Sérgio Gardenghi Suiama. O painel será realizado no dia 18 de julho, a partir das 15h, no primeiro dia de atividades do 10º Encontro Paulista de Museus (10EPM). O evento ocorre de 18 a 20 de julho, no Memorial da América Latina, em São Paulo, e é uma realização do Sistema Estadual de Museus (SISEM-SP), da Secretaria da Cultura do Estado, em parceria com a ACAM Portinari.

Na entrevista abaixo, Dunker explica quais os desafios mais urgentes aos museus e qual a importância de se debater o assunto no Encontro. Confira a programação completa: www.sisemsp.org.br/epm/programacao

SISEM-SP: Quais são estes desafios éticos contemporâneos para museus?

Christian Dunker: Temos os desafios que, de certa forma, têm sido integrados pelos esforços de curadoria de arquitetura e de crítica cultural para tornar o museu, de fato, um fragmento mais potente do espaço público, de forma mais inclusiva e menos segregatória. Isso implica uma reformulação discursiva das relações entre alta cultura e cultura popular, uma reformulação dos saberes compatível com as contradições do neoliberalismo globalizado e com a sociabilidade digital. A ética senhorial e colonizatória, na qual os conceitos museológicos clássicos se formam, passa por interpelações que exigem maior diversidade, outras formas de representatividade e distintas incidências para a força normativa que ainda remanesce nas decisões museológicas. Além disso, é preciso reformular a experiência receptiva da arte, e isso envolve também os artistas e críticos. O trabalho sobre história da arte separou-se da formação da atitude crítica, a leitura de imagens e a coletivização de técnicas composicionais, assim como a conversa entre formas estéticas e contradições sociais está demasiadamente truncada. A dinâmica de interesses, interna ao sistema das artes, com suas valorizações calculadas e alianças programadas, enfrenta uma espécie de choque não transformativo com a procura da recuperação da autonomia da obra de arte, no modelo purificacionista.

SISEM-SP: Quais debates éticos ainda precisam ser feitos nos museus? Que papel os museus podem exercer socialmente para essa discussão?

Christian Dunker: Os museus ainda não se integraram muito bem à dinâmica participativa e opinativa, própria da sociabilidade digital. Por isso, os grandes acontecimentos museológicos da contemporaneidade não são exatamente exposições, mas propostas arquitetônicas como Norman Foster, Frank Gehry e Renzo Piano. Desta forma, o que há de novo no museu não são suas obras, e sim a sua experiência com o espaço. O problema da escala, da redução da imagem ao formato da tela, o problema do silenciamento da recepção, ainda não encontraram um bom tratamento. Por outro lado, há ainda uma extensão das grandes exposições de massa que atraem um público interessado, que tem demanda para aprofundar sua experiencia estética, o que se torna muito difícil se consideramos a atual experiência de compressão e tráfego de populações que se tem ao visitar um Louvre ou um MoMA. Os grandes autores, as exposições de clássicos, às vezes reunidos ao modo temático, despertam grande interesse, mas, por outro lado, isso se torna um desperdício, pois não se oferece nada que possa ultrapassar a dimensão do consumo cultural e do entretenimento.

SISEM-SP: Qual a importância de se debater esse assunto em eventos como o 10EPM?

Christian Dunker:  A reflexão museológica, ainda que esquecida, é uma das poucas áreas nas quais se discutiu cultura de um ponto de vista da totalidade no Brasil. Lembremos do encontro de Mário de Andrade com Lévi-Strauss e a ideia de integrar universidade e memória, biblioteca e museu. Nossos museus ainda não são lugares de estudo, nem mesmo para a experiência longa do olhar, como se vê em museus europeus. Isso é possível e necessário, em um momento de dispersão de linguagens e fragmentação de discursos. Nossos museus precisam oferecer programações permanentes de debates, de cursos, de conferências ligadas ao que se passa em seu interior. Neste sentido, a experiência com o “Histórias da Sexualidade”, feita pelo MASP, pode ser considerada muito bem-sucedida, e não me parece uma coincidência que ela tenha sido objeto do mais feroz ataque conservador, assim como a Queermuseum, de Porto Alegre. Isso depende da percepção, ainda que tênue, de que os museus são lugares de criação de saber, não só de cultivo do respeito e interiorização de formas estéticas bem-sucedidas. O termo do dirigismo e do patronizing tem feito nossos educativos adotar uma posição muito tímida e excessivamente não intervencionista, o que não é suficiente para introduzir alguém no debate das artes. Não basta valorizar a perspectiva de cada um, com seus pontos de vista e sua lógica própria de reconhecimento, a cultura é contradição e conflito, e não aplainamento de opiniões amorfas baseadas no gosto.


SERVIÇO
Painel “Desafios éticos e contemporâneos em museus”
Onde: Memorial da América Latina, durante o 10EPM
Endereço: Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664 – Barra Funda – São Paulo/SP
Quando: 18 de julho, às 15h
Informações: (11) 3339-8111