No encerramento do EPM, a equipe do SISEM-SP anuncia ampliação do mapeamento de museus em 2023

Ampliar o mapeamento dos museus de São Paulo e abrir espaço para outros formatos museológicos são algumas das ações previstas pelo SISEM-SP – instância vinculada à Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo – para 2023.

Esses e outros planos foram apresentados no último dia das atividades presenciais do 12º Encontro Paulista de Museus (EPM). O evento teve início na terça-feira (08/11), no Museu do Ipiranga, com transmissão pelo canal do SISEM-SP no Youtube.

Os museus no contexto do combate ao racismo, inclusão e acessibilidade, entre outras pautas pertinentes da sociedade contemporânea, também estiveram em discussão no encerramento do EPM. Pela manhã, o bate-papo girou em torno de “A responsabilidade dos museus com o futuro”. Participaram do encontro a coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo (UPPM/SCEC), Paula Ferreira, e a gestora do setor cultural da Unesco, Isabel de Paula.

Durante a conversa a dupla abordou os obstáculos enfrentados pelos museus com relação à gestão, formação de profissionais, captação de recursos financeiro e técnico. “Enfrentamos desafios em toda área da cultura, como a reconstrução das políticas públicas, de retomada de alguns caminhos importantes que vinham sendo trilhados”, comentou a gestora da Unesco.

Isabel destacou também a necessidade do gerenciamento de riscos no campo museal para lidar com situações como a do incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Além de comprometer a estrutura da edificação, parte do acervo foi consumido pelas chamas. Em processo de reestruturação, ela acredita que o espaço terá a oportunidade de se tornar mais próximo da sociedade a partir de sua reinauguração.

Além de ocupar esses espaços a convidada destacou que é preciso enxergar outras maneiras de acesso. Isabel lembrou que a pandemia teve um forte impacto nos museus, mas que por outro lado também possibilitou o investimento em tecnologias, mídias digitais, a criação de museus virtuais. “A cultura nos salvou no confinamento”.

Paula também indagou a convidada sobre como o passado pode trazer ensinamentos para o futuro no setor museal. “O novo museu, o museu do futuro deve fazer essa conexão e trazer o que há de único, a memória, a história em diálogo com os tempos contemporâneos. O maior objetivo é estar trabalhando a serviço da sociedade”, concluiu.

Combate ao racismo

“Educação Antirracista: responsabilidade partilhada e atuação dos museus” foi o tema do segundo encontro no último dia de atividades presenciais do EPM. Marina da Silva Pinheiro, integrante da Rede Museologia Kilombola, foi a articuladora do bate-papo que contou com a participação da doutora em comunicação e semiótica e diretora da Universidade dos Direitos Humanos, Aparecida Moura e a antropóloga, mestre em educação e pesquisa no Centro de Estudos Afro-Orientais, Jamile Borges.

As convidadas apresentaram um resumo de suas trajetórias e compartilharam experiências e exemplos de ações no combate ao racismo, especialmente nos âmbitos da cultura e da educação. Jamile começou destacando que os museus precisam ser realmente condizentes com o antirracismo, refutando suas estruturas patriarcais, com soluções políticas e poéticas.

Enquanto apresentava slides no telão, Jamile reforçou a importância de trazer a resistência e as lutas do povo negro para ocupar o lugar do luto e da dor. “É preciso investir nas pessoas, em memórias e entender os museus como uma nova arena de luta”. A antropóloga também salientou que esse é um enorme desafio pois “o racismo é autossustentável, possui mecanismos de se reproduzir”.

Marina perguntou sobre a instrumentalização dos museus no combate ao racismo e Aparecida argumento que primeiro é preciso pensar sobre a sensação de entrar em um museu. “É um grande salão de exibição do conforto antológico branco, que causa desconforto nos outros corpos”, disse. Também ressaltou a utilização desses espaços como uma extensão das instituições privadas que os gerenciam. “É necessário pensar na comunidade do entorno, que laços e lastros esses museus possuem com essas pessoas, como elas estão representadas e são convidas a entrar”, completou.

Aparecida falou da importância em manter uma vigilância efetiva para que o campo museal seja um lugar de resistência, de democratização do saber e dos sujeitos que produzem esses saberes. Mencionou ainda a necessidade de criar políticas institucionais, de sair da esfera do desejo. Jamile acrescentou o desafio em levar os discursos antirracistas para além do campo acadêmico. 

As convidadas reforçaram que o racismo é uma relação de poder, de submissão e que no caso dos museus existe uma perenidade das narrativas e de conforto. Chamaram a atenção para o fato desses espaços estarem inseridos em uma lógica colonial, seguindo um padrão europeu homogêneo como se não houvesse diversidade. 

Ao final do encontro a emoção tomou conta das convidadas que receberam um abraço coletivo da plateia.

Encerramento

A equipe do SISEM-SP, instância vinculada à Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, em parceria com a ACAM Portinari, fechou a programação com um bate-papo descontraído em que a plateia pôde apresentar sugestões e tirar dúvidas sobre o campo museal no Estado.

Renata Cittadin, diretora do SISEM, destacou o papel de articulação e suporte aos museus e algumas ações em curso da organização. Entre as novidades falou do novo portal que facilitará ainda mais a comunicação com os gestores dos equipamentos culturais, até mesmo com os que não realizaram o cadastro no SISEM.

A diretora contou que a pretensão em 2023 é criar um Plano Estadual de Museus, de forma participativa. Expandir o mapeamento no Estado por meio de uma busca ativa, incluindo os espaços que não estão institucionalizado também fazem parte do cronograma. “É importante reconhecermos outros modelos museológicos. O SISEM precisava caminhar nessa direção”, observou. “Precisamos identificar, inclusive, as cidades que não têm museus”, completou.

A partir do questionamento proposto pelo EPM, “Bem-viver, território, antirracismo, diversidade: com quantos termos se faz um museu?” um dos participantes na plateia quis saber de que forma o SISEM incentivará a adoção de boas práticas considerando os termos presentes no tema do evento.

“Temos a campanha Sonhar o Mundo em que trabalhamos essas temáticas. Nesse ano abordamos a acessibilidade para pessoas com deficiência”, comentou Carolina Rocha. Renata complementou explicando que as ações da iniciativa, como palestras e oficinas, contam com importantes parcerias. “Trabalhamos de forma horizontal com quem também está discutindo os temas com as quais estamos lidando”, completou Renata. 

Luiz Fernando Mizukami, do Grupo Técnico de Coordenação do SISEM esteve presente durante o painel, respondendo questionamentos da plateia. Paulo Nascimento coordenador do grupo de relatoria do EPM – composto por universitários -, também participou.