William Kentridge: fortuna

A Pinacoteca de São Paulo, instituição da Secretaria de Estado da Cultura, apresenta a exposição William Kentridge: fortuna, com 38 desenhos, 27 filmes e animações, 184 gravuras e 10 esculturas produzidas pelo renomado artista sul-africano entre 1989 e 2012, incluindo séries inéditas de trabalhos. Essa é a primeira grande exposição monográfica sobre Kentridge na América do Sul. A mostra, especialmente concebida para o Brasil, chega ao país graças à parceria entre o Instituto Moreira Salles, a Fundação Iberê Camargo – que já receberam a mostra.

A exposição, com curadoria de Lilian Tone, colocará em evidência o processo de criação pouco convencional do artista em seu estúdio, em Johannesburgo. A escolha das obras, portanto, ao contrário de privilegiar um viés temático, destaca a variedade e o vigor da atividade multifacetada do artista, mostrando como seu trabalho se dissemina por contaminação interna, em diferentes escalas e plataformas – desenhos, gravuras, ópera, esculturas, filmes, teatro e performance.

Kentridge alcançou visibilidade internacional com a série de curtas-metragens Drawings for Projection (Desenhos para projeção). Iniciada em 1989 (o filme mais recente, Other Faces, foi finalizado no ano passado), a série constitui, segundo o artista, o alicerce de sua produção. Todos os dez filmes serão mostrados pela primeira vez em conjunto, acompanhados por 23 desenhos que o artista executou ao preparar os filmes, criando uma oportunidade única para examinar o diálogo entre desenho e filme e o processo de criação das obras. Os filmes têm uma aparência diferente das animações convencionais, devido a uma técnica caseira, inventada por Kentridge, que o artista descreve como “cinema da idade da pedra”. Kentridge filma, quadro por quadro, alterações que faz sobre um único desenho, realizado em carvão ou pastel. Apaga, adiciona, subtrai, acumula, redesenha. O método, marcado por sucessivas mudanças e redefinições, não só se manifesta na percepção da obra como se incorpora à imagem. Na sequência dos desenhos, marcas brutas tornam-se linhas elegantes, que se transformam, com fluidez, em outras imagens. “O processo de Kentridge é transmitido como uma ilusão plausível, em que motivos recorrentes do artista – uma constelação de elementos iconográficos – são construídos, desconstruídos e remontados diante de nossos olhos. Observamos um gato passando por transfigurações múltiplas: transformando-se em uma máscara de gás, um megafone, assumindo a forma de uma bomba”, escreve a curadora Lilian Tone.

Na obra de Kentridge, é constante a utilização de objetos cotidianos, muitas vezes itens que o artista tem à mão em seu estúdio: um pote de café, uma tesoura. Mais do que apenas o espaço de trabalho, dentro de sua obra o estúdio assume a função de palco, de mise-en-scène e de sujeito, sendo parte de vários trabalhos que estarão na exposição. “O estúdio é um personagem central na prática de Kentridge, um espaço de invenção onde o artista parece quase organicamente incorporado. É um lugar continuamente reanimado por manifestações, uma mistura de linguagens e alegorias que envolvem os diferentes gêneros de seu trabalho”, completa Lilian Tone. Para construir sua obra, Kentridge utiliz a elementos reais, referências atuais de lugares, situações e eventos. O mais forte desses elementos é a memória social da África do Sul e seu histórico do Apartheid, mais especificamente na cidade de Johannesburgo – onde Kentridge nasceu, vive e trabalha.

A noção de “fortuna”, princípio guiador do processo artístico de Kentridge, e presente no título da exposição, traz o sentido de acaso, de destino, de devir. Segundo o próprio artista, “fortuna é um termo geral que utilizo para essa gama de agenciamentos, algo diverso da fria probabilidade estatística, no entanto fora do âmbito do controle racional”. Em outras palavras, é possível entender esse conceito como um acaso direcionado, uma engenharia da sorte, em que pré-determinação coexiste com possibilidade. Fortuna refere-se a uma condição do trabalho artístico em estado constante de construção; a um sentido de descoberta, menos do que invenção, à celebração da excentrici dade, mas não em detrimento do engajamento político.

Kentridge nasceu em 1955, em Johannesburgo. Estudou ciências políticas e estudos africanos na Universidade de Johannesburgo antes de entrar na Johannesburg Art Foundation e se voltar para as artes visuais. Durante esse período, dedicou-se intensamente ao teatro, concebendo e atuando em diversas montagens. Seu interesse pelo teatro e pela ópera perpassa toda sua trajetória e indica o caráter dramático e narrativo de sua produção artística, assim como o seu interesse em sintetizar o desenho, a escultura e o filme em uma única linguagem. Após ter influenciado artistas na África do Sul por mais de dez anos, Kentridge ganhou reconhecimento internacional em meados dos anos 1990. Desde então, seu trabalho tem sido incluído em exposições e performances em museus, gale rias e teatros em todo o mundo, como a mostra Documenta, em Kassel, na Alemanha (1997, 2003, 2012), a Bienal de Veneza (1993, 1999, 2005), exposições individuais no MoMA, de Nova York (1998, 2010), no Museu Albertina, em Viena (2010), no Jeu de Paume, em Paris (2011), no Louvre, em Paris (2010), no Metropolitan Museum of Art, em Nova York (2005), e performances no Metropolitan Opera, em Nova York (2010), e no La Scala, em Milão (2011).

Em 2011, Kentridge recebeu o prestigioso Kyoto Prize, em reconhecimento a suas contribuições no campo das artes visuais e da filosofia. No mesmo ano, foi escolhido como Membro Honorário da American Academy of Arts and Letters e recebeu o título de Doutor Honoris Causa da University of London. Em 2012, apresentou as Charles Eliot Norton Lectures, na Universidade de Harvard, em Cambridge; tornou-se membro da American Philosophical Society, da American Academy of Arts and Sciences; foi nomeado para o Dan David Prize, da Tel Aviv University; e recebeu o título de Commandeur dans l’Ordre des Arts et des Lettres do Ministério da Cultura e Comunicação da França.

De como não fui Ministro d’Estado

O flipbook De como não fui Ministro d’Estado é uma edição fac-similar da obra especialmente criada por William Kentridge para a exposição brasileira Fortuna. Na publicação, Kentridge faz uma intervenção em uma edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, publicada pelo Clube do Livro, em São Paulo, em 1946. Com desenhos de sua autoria e trechos do livro de Machado, William Kentridge cria uma narrativa que ganha movimento com o trocar de páginas. A publicação é acompanhada por um DVD com um curta metragem com a animação dessa narrativa.

Catálogo William Kentridge: fortuna

O Instituto Moreira Salles, a Fundação Iberê Camargo e a Pinacoteca do Estado de São Paulo lançam por ocasião da mostra o catálogo homônimo William Kentridge: fortuna. Além de publicar um portfólio com todos os trabalhos que fazem parte da exposição, o livro tem um texto inédito da curadora Lilian Tone; uma análise de Kate McCrickard, autora da publicação Modern Artists: William Kentridge (Londres: Tate Publishing, 2012); uma seleção de 10 textos escritos por Kentridge e uma cronologia selecionada.

Pinacoteca do Estado de São Paulo
Praça da Luz, 02 – Luz – Tel. 11 3324-1000
Terça a domingo das 10h às 17h30 com permanência até as 18h
Às quintas até as 22h. Entrada franca das 18h às 22h
Ingresso combinado (Pinacoteca e Estação Pinacoteca): R$ 6,00 e R$ 3,00
Grátis aos sábados. Estudantes com carteirinha pagam meia entrada.
Crianças com até 10 anos e idosos maiores de 60 anos não pagam.
Mais informações: Carla Regina Tel. 3324 1007 ou pelo email coliveira@pinacoteca.org.br