Vespa é símbolo da ‘dolce vita’ em mostra

a princesa e o pebleu

É uma longa história de amor. Desde que Audrey Hepburn subiu numa Vespa com Gregory Peck e atravessou as praças de Roma na cena mais lembrada de “A Princesa e o Plebeu”, clássico de 1953 de William Wyler, o mundo das celebridades não esqueceu a famosa motoquinha italiana.

Uma exposição agora no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, revê com fotografias, anúncios publicitários, desenhos e cenas de filmes a história da Vespa como um símbolo do design indissociável da indústria cultural.

Ela aparece em 1960 em “A Doce Vida”, de Federico Fellini, como o veículo preferido dos paparazzi que atormentavam as beldades romanas. Décadas depois, foi o acessório perfeito para o sedutor Alfie, vivido por Jude Law, nas escapadas por Nova York.

Dentro ou fora da Itália, a Vespa acabou se tornando um objeto-fetiche usado sempre que se quer evocar o glamour despojado da “dolce vita”, a época em que Roma se firmou como capital hedonista do mundo no pós-Guerra.

De certa forma, a Vespa, que teve sua primeira versão criada em 1946 pelo engenheiro Corradino d’Ascanio, tem as rodas bem plantadas no ocaso da indústria bélica.

Quando a Itália perdeu a Segunda Guerra, foi obrigada a desmantelar suas fábricas de armamentos. A Piaggio, fabricante da Vespa, então encerrou sua produção de caças para criar a moto, reaproveitando trens de pouso dos antigos aviões como as rodas das primeiras Vespas.

Um anúncio dos anos 1980 relembra essas origens ao descrever a moto como “filha do ar, que desceu do céu para correr leve e segura de sua nobre origem aeronáutica, abandonando as asas para se vestir de formas de aço”.

Velocidade, aliás, era a palavra de ordem numa Itália que se modernizava a toque de caixa. Acostumados a ver soldados em suas motos, italianos criaram a Vespa como uma versão “made in Italy” das desengonçadas Cushman, a motocicleta padrão entre os militares.

“Foi uma revolução na mobilidade urbana”, diz Ricardo Peruchi, curador da mostra. “Era um veículo compacto, de baixo consumo, com uma guarda na frente para o condutor não se sujar. A Itália, com suas ruas estreitas, era o lugar ideal, e a Vespa foi um sucesso estrondoso.”

EMANCIPAÇÃO FEMININA

Tanto sucesso tem a ver com o apelo universal da motocicleta. Foi o primeiro veículo do tipo a conquistar também as mulheres, que podiam andar de saia, com as pernas resguardadas pela frente da moto -quase um acessório fashion na cidade.

Na opinião de Peruchi, a Vespa se firmou então como símbolo da “emancipação feminina” na Itália da época. Anúncios da moto ao longo da história, aliás, sempre puseram as mulheres em primeiro plano.

De sofisticadas donas de casa a pin-ups turbinadas, com biquínis vermelhos de bolinhas brancas, toda italiana precisava de uma Vespa.

Mas a fama da moto também rodou o mundo, em especial depois da projeção que teve em Hollywood. No Brasil, onde a Vespa desembarcou em 1957 chamada em anúncios de “a mais feliz concepção técnica em motonetas”, não foi muito diferente.

Entre homens e mulheres, ela chegou a ser a motocicleta mais vendida em meados dos anos 1980, saindo de moda nas décadas seguintes até retornar nos últimos anos como objeto —caro— e cult.

É uma trajetória que lembra suas origens na Itália, quando substituiu as bicicletas numa onda de modernização calcada no poder e no deslumbramento do design.

VESPA: UM ÍCONE ITALIANO
QUANDO abre nesta terça (10), às 19h30; de ter. a dom., das 10h às 18h; até 3/8
ONDE Museu da Casa Brasileira, av. Brig. Faria Lima, 2.705, tel. (11) 3032-3727
QUANTO R$ 4

Fonte: Folha de S. Paulo