‘Situação do Masp ainda é preocupante’, diz presidente do museu

No aniversário de 20 anos de uma de suas maiores crises institucionais, o Masp enfrenta o que sua presidente, Beatriz Pimenta Camargo, 82, chama de “situação financeira preocupante”. “Todo museu tem seu acervo de desafios. Os do Masp têm a dimensão de sua grandiosidade.”

Faz duas décadas que a eleição do bibliófilo José Mindlin (1914-2010) para a presidência do museu foi anulada na Justiça, levando o arquiteto Júlio Neves ao cargo e desencadeando uma debandada de intelectuais do maior museu da América Latina.

Na época, os curadores Fábio Magalhães e Maria Alice Milliet deixaram o museu em apoio a Mindlin. Desde 1994, Neves e seus aliados vêm se revezando na direção do Masp, sendo um deles a atual presidente, que neste mês completa um ano no cargo.

Masp na avenida Paulista ao fundo com obras atrasadas o anexo do museu

Masp, na avenida Paulista; ao fundo, com obras atrasadas, o anexo do museu

Há ainda outra data redonda. O centenário da arquiteta Lina Bo Bardi, em dezembro, faz relembrar o fato de sua museografia -tão experimental quanto o prédio, com cavaletes de vidro em sucessão vertiginosa na grande galeria do museu-, ter sido aposentada naquela época.

Numa entrevista concedida à Folha por e-mail -uma exigência dela-, Pimenta Camargo disse que o Masp “vai comemorar condignamente o centenário de Bardi”, acrescentando que “o casal Bardi é uma referência para nós”.

“Os painéis de vidro se acham preservados e são utilizados esporadicamente”, diz a presidente. “Os museus, hoje, não falam mais em exposição permanente e sim de longa duração, porque há necessidade de renovação.”

VÃO LIVRE
Mas, mesmo em meio a ideias de renovação, o museu continuou enfrentando problemas. Em 2006, o Masp teve a energia elétrica e linhas de telefone cortadas, somando então dívidas de R$ 3,5 milhões -a presidente não quis detalhar a situação atual. No ano seguinte, ladrões invadiram o museu e levaram quadros de Picasso e Portinari.

Uma tentativa de saldar as dívidas por meio de uma parceria com a Vivo, que comprou e doou o prédio vizinho ao museu em troca da permissão para batizar seu anexo, também não se concretizou, com as obras paralisadas e sem previsão de retomada, segundo Pimenta Camargo.

No fim do ano passado, o museu voltou ao centro das atenções com o debate sobre cercar o vão livre para evitar que fosse usado por traficantes e usuários de crack.

Pimenta Camargo discorda do curador-chefe do museu, Teixeira Coelho, para quem cercar o vão livre “amenizaria” esses problemas.

“Nunca pensei em cercar o vão livre, que faz parte do espaço sociocultural do museu e da cidade”, afirma ela. “Problemas circunstanciais são recorrentes e devem ser enfrentados com serenidade.”

Enquanto corria a discussão sobre o espaço externo do museu, o Masp não conseguia confirmar qualquer exposição de peso em sua programação do lado de dentro. Até agora, o museu não anunciou oficialmente o calendário de mostras deste ano.

Pimenta Camargo diz que “no ano da Copa do Mundo, é compreensível que os patrocínios tenham migrado da cultura para o esporte” e que a comparação com museus como a Pinacoteca do Estado ou o Museu da Imagem e do Som não são válidas, já que essas instituições “têm um aporte financeiro estatal”.

Ela lembra que o Masp é uma entidade privada, que depende em grande parte “de leis de incentivo e mecenas”.

Mesmo assim, Pimenta Camargo conseguiu apoio para o restauro da tela “Moema”, pintada por Victor Meirelles (1832-1903) em 1866 e um dos ícones da coleção do museu, além de garantir a catalogação de obras de peso, como a coleção de arte oriental do diplomata Fausto Godoy.

De certa forma, é um avanço notável, já que o orçamento anual do Masp gira em torno de R$ 11 milhões -cerca de um terço do que gasta a Pinacoteca, por exemplo.

É um valor 32 vezes menor que o orçamento anual de 2013 (aproximadamente R$ 350 milhões) da Tate, em Londres, da qual o Masp, segundo sua presidente, é um “similar latino-americano”.

‘CLUBE FECHADO’
Mas é nesse ponto que detratores do museu centram as atenções. Se o Masp não fosse tão privado e não funcionasse como “clube fechado”, como diz Luiz Marques, que foi curador do museu nos anos 1990, talvez garantisse os recursos para se manter.

“É a estrutura do Masp que é inviável. Está nas mãos de uma sociedade fechada, administrada como se fosse um clube, o que não é compatível com seu acervo”, diz Marques. “Há um isolamento do museu, que ficou sem conexão com os artistas, com as universidades, um quadro de desinteresse geral embalado por surtos de indignação.”

Na época do furto das telas de Picasso e Portinari, Marques teve um desses surtos e liderou -sem sucesso- um abaixo-assinado pressionando para que o museu abrisse sua gestão para incluir o poder público em seu conselho.

Juca Ferreira, secretário municipal da Cultura, diz que gostaria de participar da gestão do museu, “ícone da cidade”. “Tenho interesse de me aproximar do Masp”, diz Ferreira. “Mas talvez esteja faltando disponibilizá-lo para que as instituições públicas ajudem. Sempre há dois lados das coisas. O diálogo tem de ser franco, aberto.”

Na mesma linha, Moacir dos Anjos, que foi curador da Bienal de São Paulo há quatro anos, acredita que o museu “se acomodou num patamar de importância e de criatividade administrativa muito abaixo do que acontecia”.

“Era um protagonista de primeiríssima linha que foi perdendo a sua importância, tanto por ter tomado decisões equivocadas quanto por não ter sido capaz de se modernizar”, opina Dos Anjos.

Questionada sobre a possibilidade de mudanças e maior transparência na gestão, Pimenta Camargo disse que “a transparência é um valor sempre agregado às atividades” da instituição e que “muitas conquistas positivas se registraram nos últimos 20 anos”. E acrescenta: “O Masp é um museu para todos”.

RAIO-X

MASP

FUNDAÇÃO

Em 1947, o empresário Assis Chateaubriand e o crítico Pietro Maria Bardi criam o museu no prédio dos Diários Associados, no centro de São Paulo. O museu tem cerca de 8.000 peças, com obras de Rafael, Botticelli, Monet e Picasso. Projetada por Lina Bo Bardi, a sede na av. Paulista foi inaugurada em 1968. A estrutura tem como principal atrativo o vão livre

SUCESSO
Entre as mostras de maior público estão as de Claude Monet (1997), com 400 mil pessoas, Salvador Dalí (1998), com 200 mil, e Pablo Picasso (1999), com 202 mil. Das mais recentes, a de Caravaggio fez de 2012 o ano de maior visitação da história do museu: 851 mil pessoas passaram por lá

CRISE
A anulação da eleição do bibliófilo José Mindlin à presidência do museu, em 1994, foi o estopim de uma crise que se arrasta até hoje. A Justiça viu irregularidades no pleito, como o fato de a convocação não ter explicitado que era um encontro para definir a nova diretoria. O caso conduziu o arquiteto Júlio Neves ao comando do museu, onde permaneceu até 2008. Desde então, seus aliados se revezam no poder

CAVALETES
O projeto de Lina Bo Bardi previa que os quadros parecessem flutuar em sucessão vertiginosa, já que estariam pendurados em cavaletes de vidro. A famosa museografia da arquiteta foi aposentada também em 1994

GRADES
Denúncias de que havia usuários de crack, traficantes e moradores de rua no local levaram o curador do Masp, Teixeira Coelho, a dizer que instalar grades ao redor do espaço “amenizaria” a ocorrência de crimes ali, detonando um debate sobre a função do vão livre

Fonte: Folha de São Paulo