Sebastião Salgado abre sua nova exposição no Palácio das Artes

S. Salgado

Se hoje Sebastião Salgado continua envolvido com a fotografia, como um dos grandes nomes dessa área no mundo, muito disso se deve a um pedaço de terra na região do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. É lá que, ao lado de sua mulher Lélia Wanick, ele plantou cerca de 2,5 milhões de árvores, um ação que não transformou apenas o cenário de uma fazenda degradada, antes pertencente aos seus pais, mas também o atual dono dela. “Ao reconstruí-lo, eu reconstruí a minha vida também”, revela esse mineiro de 70 anos, que chegou nesta segunda-feira (2) a Belo Horizonte para divulgar a exposição “Genesis”, que será aberta na quarta-feira (4) no Palácio das Artes.

Trabalho que consumiu oito anos, percorrendo lugares intocados do planeta, ela reúne 245 fotos que reproduzem a esperança de mundo melhor para as gerações futuras. Recuperado de uma forte depressão após realizar o projeto “Êxodos”, em que acompanhou situações precárias em países africanos, Salgado buscou na fotografia algo que se relacionasse com o que estava acontecendo na fazendo Bulcão. “A minha maior viagem em Genesis foi para dentro de mim mesmo”, afirma o fotógrafo a um grupo de jornalistas, antes de conduzi-los por uma visita guiada a um dos patamares da exposição.

Já envolvido com uma nova jornada, desta vez enfocando as tribos indígenas do país, Salgado também tem planos ambiciosos para o Instituto Terra: recuperar as milhares de nascentes do rio Doce. O maior entrave tem sido o alto custo: cerca de R$ 3 bilhões. Não é nada, porque o Brasil está comprando 30 caças que, cada um, equipado, custa R$ 250 milhões. Quatro deles já pagariam o projeto”, compara. Mais do que isso, o fotógrafo a recuperação do rio é uma questão de vida ou morte: “O que estamos fazendo é, a cada emissão de carbono, colocando um preguinho em nosso caixão”, alerta.

Origem em Minas

Esse projeto nasceu em Minas Gerais. Nasceu lá em Aimorés, no Instituto Terra. Eu fiz uma série de fotografias antes do Genesis, chamada Êxodos. Depois de frequentar e ver coisas tão duras e difíceis na África, principalmente em Ruanda, Congo e Burundi, eu estava com uma carga negativa tão grande. Eu voltei com sintomas de depressão, afetando não só o lado psicológico, como o físico também. Coincidentemente na época os pais estavam ficando velhinhos e resolveram, ao lado de minhas sete irmãs, passar a fazenda deles, em Aimorés, para o único filho homem. Quando nós tomamos posse dessa terra, era o momento em que estava pior em minha vida. Pensava em desistir da fotografia e voltar para o interior de Minas. Mas a terra da fazenda estava tão ou mais degradada do que eu. A Lélia (Wanick), então, teve uma ideia fantástica, lembrando o que eu dissera sobre minha infância passada num paraíso.

Mundo selvagem

A fazenda Bulcão tinha cerca de 50% de mata atlântica, mas quando pegamos a terra ela tinha menos meio por cento dessa vegetação. Assim como todo o Vale do Rio Doce, que é o vale mais degradado do Brasil. E fui estimulado por ela para fazer esse trabalho de recuperação ambiental. Depois de um ano, ele chegou a conclusão que, para recuperar aquele solo, precisaríamos plantar cerca de 2,5 milhões de árvores. Um desafio muito grande, mas conseguimos. Hoje temos mais de 70 espécies e uma quantidade grande de animais e pássaros que estavam ameaçados de extinção. Até onça agora temos. Ao reconstruir esse pedaço de terra, eu reconstruí a minha vida também. Foi nesse momento que concebemos um projeto que tivesse relação com aquilo que estávamos fazendo, em buscássemos o que tivesse de intocado no planeta.

Relação com a imprensa

Sempre trabalhamos com redações, dando exclusividade para o “Paris Match”, na França, para o “New York Times Magazine”, nos Estados Unidos, e para o “The Guardian”, na Inglaterra. Tínhamos várias revistas que trabalhávamos com exclusividade e os recursos que vinham da venda dessas fotografias era investido no projeto. Com a mudança da imprensa escrita, por causa da internet, os recursos mudaram completamente e passamos a ter dificuldades financeiras. Através de vários patrocinadores, entre eles a Vale do Rio Doce, “Genesis” foi realizado em oito anos, iniciando-se em 2004. Pode parecer um tempo grande, mas é uma pequena amostragem diante da dimensão do planeta.

Viagem a pé

A minha maior tristeza nesse projeto foi quando ele acabou. Eu e a Lélia, que me acompanhou em vários momentos da viagem, nos oferecemos o maior presente que poderíamos ter na vida: a oportunidade de deslocar para os lugares mais maravilhosos do planeta. Foram lugares de acesso extremamente difícil, alguns muito secos, altos ou frios, e que representam 46% do planeta. Não foi fácil fisicamente, pois já estou com 70 anos (na época tinha 64). No norte da Etiópia, eu tive que percorrer 850 quilômetros a pé. A cada dois dias eu me comunicava por telefone de satélite com um pessoal de Genebra especializado em cartografia e, com o GPS, dava a minha posição. Aí eu ajustava dez, vinte quilômetros do eixo principal que eu deveria estar. Fiz essa viagem em 55 dias e foi uma das mais fantásticas que fiz.

Maior viagem

A minha maior viagem em “Genesis” foi para dentro de mim mesmo. Percebi que tudo que temos hoje nós já tínhamos no passado. Eu tive uma lição de balística com um índio, Ipó, que se tornou muito amigo meu. Fomos fazer uma caçada, saindo às 4 horas da manhã para encontrar os macacos. Em determinado instante, eu estava a 30, 40 metros de Ipó e ele me avisou que eu precisava sair do lugar, pois ali que a flecha iria cair. Ele calcula o retorno da flecha, de forma que, se ele errasse, ela iria sair da floresta e voltar exatamente numa clareira onde fosse fácil recuperá-la. Na verdade, o que fizemos foi quantificar o que a gente já sabia. Transformamos em fórmula matemática o que já sabíamos de forma prática. Eles já amavam como a gente ama. A relação comunitária, que é a base da nossa sociedade, já existia.

Relação com o filho

Eu e a Lélia completaremos, em 30 de agosto, 50 anos que estamos juntos. Eu estava economia e ela era pianista e dava aula quando nos conhecemos. Tivemos que sair do Brasil por causa da repressão brutal da ditadura, pois participamos do movimento estudantil de maneira muito forte. Ou a gente entrava para a clandestinidade ou saíamos. E não voltamos, na época da anistia, porque já tínhamos filhos e um deles (Rodrigo) tem Síndrome de Dawn. Permanecendo em Paris, ele teria uma melhor assistência. Como fotógrafo, as coisas não batiam à minha porta. Tinha que buscar no mundo inteiro. Nessas viagens, eu deixava a minha companheiro e meus filhos.

Mas tinha que ir porque era a minha vida, a minha profissão. Como pai, queria frequentar a família como todos os outros pais. Minha profissão era diferente: eu saía e ficava um mês fora. Na realidade, quem criou nossos filhos foi a Lélia. Foi ela quem resolveu os problema de escola, de escola. Eu acabei me afastando muito deles, principalmente do Juliano, que teve momentos que precisou muito de mim. A participação dele em “Genesis”, filmando o meu trabalho ao lado de Wim Wenders, significou um reencontro e a nossa relação se estreitou muito.

Novo projeto

Em abril, eu cheguei de uma reportagem com os ianomamis, em Roraima e Amazonas. Antes, em junho do ano passado, já feito um trabalho com índios do Maranhão. Pretendo continuar esse trabalho. Já no projeto Genesis, eu trabalhei em várias tribos, mas esse é um trabalho específico. Olha, a participação dos indígenas na formação do Brasil é muito maior que a gente imagina. Você pode olhar no rosto de todas as pessoas que estão aqui e perceberá que elas são resultado de uma contribuição indígena muito forte, seja nos costumes, na raça, na beleza ou no comportamento. Quando os portugueses chegaram, a costa brasileira tinha cinco milhões de índios, que quase foram levados ao extermínio. Em “A Ferro e Fogo”, o autor Warren Dean relata que quantidade de área desmatada na costa era muito maior do que 200 anos depois, quando as florestas voltaram a nascer.

Maior reserva indígena

O Brasil é o país com maior reserva indígena no mundo, com 13% de território demarcado. Nos Estados Unidos, eles destruíram praticamente todas as tribos, com os índios passando a viver em campos de refugiados. No Canadá, pior ainda. Na Austrália, o que aconteceu com os aborígenes foi catastrófico. No Brasil, não. Muito gente até fala que é pouco índio para pouco território, já imaginando explorar aquelas terras, mas o território não é indígena. É de nós todos, dos nossos filhos, dos nossos netos. Os indígenas são os guardiões da terra. Só exploramos efetivamente 1/3 da nossa terras. As outras foram exploradas, desmatadas e abandonadas. Mantendo a cultura indígena, mantemos a nossa história. Quero, com esse projeto, que as gerações futuras tenham maior estima por essa parte da nossa cultura. Talvez com isso vamos parar, em algum momento, de buscar a nossa história em Portugal, na Alemanha, na Itália. A nossa verdadeira história está aqui.

Rio Doce

Somos a maior extensão de recuperação ambiental do Brasil. Esse número não é absolutamente nada em relação ao que necessitamos. Temos um projeto de salvar o rio Doce, um dos grandes rios do Centro-Sul do Brasil. Antigamente os barcos que vinham do mar conseguiam chegar até próximo de Aimorés. A profundidade média era de quatro metros. Hoje é de 70 centímetros. O rio foi assoreado. Três ou quatro de suas grandes bacias, a partir de 2025, não serão mais perenes, por causa da destruição de florestas.

Como há uma grande demanda de água, maior que a oferta, o rio irá morrer. Nós pretendemos recuperar todas as fontes do rio, algo em torno de 350 mil nascentes, mas vocês não imaginam a dificuldade que estamos tendo para conseguir recursos. E como funcionarão as hidrelétricas sem a água do rio Doce? É algo tão evidente, mas a resposta que temos é que é muito caro. Se fizêssemos tudo de uma vez, gastaríamos R$ 2, 3 bilhões. Não é nada, porque o Brasil está comprando 30 caças que, cada um, equipado, custa R$ 250 milhões. Quatro deles já pagariam o projeto. O que estamos fazendo é, a cada emissão de carbono, colocando um preguinho em nosso caixão.

Fonte: Hoje em dia