Retrospectiva de Ernesto Neto na Pinacoteca percorre quase 40 anos de sua produção

Até o dia 15 de julho, o público que comparecer à Pinacoteca de São Paulo poderá conferir a exposição “Ernesto Neto: Sopro”, que ocupa o Octógono, sete salas do 1º andar e outros espaços da Pina Luz.

Com curadoria de Jochen Volz e Valéria Piccoli, respectivamente, diretor e curadora-chefe do museu, a retrospectiva reúne 60 obras de um dos mais proeminentes nomes da escultura contemporânea.

Desde o início de sua carreira, nos anos 1980, o artista carioca vem produzindo obras que colocam em diálogo o espaço expositivo e as diversas dimensões do espectador.

A partir de uma compreensão singular da herança neoconcreta, Ernesto Neto (Rio de Janeiro, 1964), desdobra suas esculturas iniciais – elaboradas com materiais como meias de poliamida, esferas de isopor e especiarias – em grandes instalações imersivas, que propõem ao espectador um espaço de convívio, pausa e tomada de consciência. Sua prática escultórica engendra-se a partir da tensão de materiais têxteis e de técnicas como o crochê. Essas grandes esculturas lúdicas acolhem ações e rituais que revelam as preocupações atuais do artista: a afirmação do corpo como elemento indissociável da mente e da espiritualidade.

Desde 2013, o artista vem colaborando com os povos da floresta, principalmente, a comunidade indígena Huni Kuin, também conhecida como Kaxinawá. A população dessa etnia, com mais de 7.500 pessoas, habita parte do Acre e forma a mais numerosa população indígena do Estado. “A turma da floresta tem uma ligação muito mais profunda com a natureza. Inclusive, a palavra natureza, como algo que está fora de nós, seres humanos, nem existe nessa comunidade. Eles não veem essa separação”, conta o artista.

“A convivência com eles me trouxe um entendimento profundo da espiritualidade, desta força de continuidade do ‘corpo-eu’ e do ‘corpo-ambiente’, e também uma base estrutural ‘espiritofilosófica’, além da compreensão de que há muito o que descobrir enquando humanidade: quem sonos? Onde estamos? Para onde vamos?” O entendimento do planeta como organismo interdependente permeia boa parte das obras de Neto.

Para a mostra, o artista concebeu novos trabalhos, entre eles, um para o espaço do Octógono, que acolhe quatro ações/rituais participativos abertos ao público ao longo do período expositivo. Integra também o conjunto uma obra seminal em sua trajetória: Copulônia (1989). De poliamida e esferas de chumbo, seu título faz referência à cópula – termo utilizado pelo artista para caracterizar um tipo de elemento, presente na obra, em que duas partes se penetram – e à colônia – seção da obra na qual os elementos se repretem. “Traz a ideia de população, família, corpo seletivo e convivência simbiótica”, define o artista.

A exposição propõe demonstrar como a fisicalidade, o indivíduo e o coletivo sempre estiveram presentes, desde o início, na prática do artista, moldando sua poética. Sua colaboração atual com líderes políticos e espirituais das nações Huni Kuin, cujas contribuições ao artista recebem na mostra uma sala própria, aparece como uma consequência natural de sua pesquisa escultórica. “Neto vem explorando e expandindo os princípios da escultura radicalmente desde o começo de sua trajetória. Gravidade e equilíbrio, solidez e a opacidade, textura, cor e luz, simbolismo e abstração ancoram sua prática, num contínuo exercício acerca do corpo individual e coletivo e da construção em comunidade”, observa Jochen Volz.

Esta é também a primeira exposição que propõe traçar seus primeiros experimentos nesse campo através de investigação e da apropriação do espaço expositivo até atingir seu atual engajamento social. Num momento marcado pelo descompasso entre humano e natureza, Neto propõe que a arte seja uma ponte para a reconexão humana com esferas mais sutis. “O artista é uma espécie de pajé. Ele lida com o subjetivo, com o inexplicável, com aquilo que acontece entre o céu e a Terra, com o invisível. Desse lugar, consegue trazer coisas”, finaliza Neto.

Sobre Ernesto Neto

Ernesto Neto nasceu em 1964, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha. Entre suas exposições individuais recentes, destacam-se: GaiaMotherTree, Zurich Main Station, apresentado pela Fondation Beyeler, (Zurique, Suíça, 2018); Boa, Museum of Contemporary Art Kiasma (Helsinque, Finlândia, 2016); Rui Ni / Voices of the Forest, Kunsten Museum of Modern Art (Aalborg, Dinamarca, 2016); Aru Kuxipa | Sacred Secret, TBA21 (Viena, Áustria, 2015); The Body that Carries Me, Guggenheim Bilbao (Bilbao, Espanha, 2014); Haux Haux, Arp Museum Bahnhof Rolandseck (Remagen, Alemanha, 2014); Hiper Cultura Loucura en el Vertigo del Mundo, Faena Arts Center (Buenos Aires, Argentina, 2012); La Lengua de Ernesto, MARCO (Monterrey, México, 2011) e Antiguo Colegio de San Ildefonso (Cidade do México, 2012); Dengo, MAM (São Paulo, 2010). Destacam-se, ainda, suas participações nas Bienais de Veneza (2017, 2003 e 2001), de Lyon (2017), de Sharjah (2013), de Istambul (2011) e de São Paulo (2010 e 1998). Sua obra está presente em diversas coleções importantes, entre elas: Centre Georges Pompidou (Paris), Inhotim (Brumadinho), Guggenheim (Nova York), MCA (Chicago), MOCA (Los Angeles), MoMA (Nova York), Museo Reina Sofía (Madri), SFMOMA (San Francisco), Tate (Londres) e TBA21 (Viena).

SERVIÇO:

Ernesto Neto: Sopro

Até 15 de julho

De quarta a segunda-feira, das 10h às 17h30 – com permanência até as 18h.

Pinacoteca de São Paulo

Praça da Luz 2, São Paulo (SP) – galeria temporária, Octógono, pátio e outros espaços.

Ingressos: R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada para estudantes com carteirinha). Menores de dez anos e maiores de 60 são isentos de pagamento

A Pina Estação é gratuita todos os dias.

Amigo da Pina tem acesso ilimitado, além de desconto na loja e no café. Também pode participar de visitas guiadas e outros eventos com a equipe da Pinacoteca. Para saber mais sobre o programa, acesse http://pinacoteca.org.br/apoie/amigos-da-pina/

Fonte: Sec. da Cultura de SP