Resgate do Cavalleiro esquecido

Mostra “Cinema & Invenção” resgata obra e carreira do cineasta Elyseu Visconti Cavalleiro no Sesc Palladium

Aos 74 anos, o cineasta Elyseu Visconti Cavalleiro está em plena atividade. Numa conversa ao telefone, ele cita uma série de projetos nos quais está trabalhando, incluindo um documentário sobre o pai, Henrique Cavalleiro, um curta de animação e “Enterro no Pomar”, adaptação de Edgar Allan Poe que ele pretende filmar na própria casa, em Teresópolis. Seu próximo longa, porém, deve ser “Glória Pátria e Cruzeiro do Sul”, sátira aos governantes brasileiros desde o golpe militar até os dias atuais, que está em fase de captação de recursos.

“A Dilma Rousseff é uma vendedora da Avon na história”, ele conta, rindo. É o mesmo espírito libertário e subversivo do cinema que Cavalleiro e seus contemporâneos – como Rogério Sganzerla, Andrea Tonacci e Neville D’Almeida – realizaram nos anos 1970. E que é resgatado na mostra multimídia “Visconti Cavalleiro – Cinema & Invenção”, que vai até 10 de agosto, no Sesc Palladium.

Com curadoria de Paulo Klein, a exposição estreou no início do ano em São Paulo, recuperando a obra de Elyseu. Depois de ter seus dois longas, “Monstros de Babaloo” e “O Lobisomem – Terror da Meia-Noite”, censurados pela ditadura, ele foi para o Nordeste, onde realizou uma série de curtas etnográficos, e acabou caindo no esquecimento.

Além dos dois longas e dez curtas, a mostra traz ainda fotos, desenhos do artista, um documentário e um seminário sobre seu cinema e um concerto, na abertura de hoje, de Vera Terra, estudiosa das trilhas musicais dos filmes exibidos e amiga do homenageado. Estes três últimos itens são novidades exclusivas da edição belo-horizontina da exposição.

“Como define o autor Jairo Ferreira, o cinema do Elyseu é sempre um vulcão em atividade”, afirma Klein.

Trajetória. Cavalleiro é neto do pintor Eliseu Visconti, considerado o introdutor do impressionismo europeu nas artes plásticas brasileiras. Além de ter herdado o nome, o cineasta também seguiu os passos do avô, estudando gravura e pintura na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, depois complementando sua formação em Paris.

“Meus professores já diziam que minhas pinturas e gravuras eram cinematográficas”, lembra o diretor, que já trabalhava na TV Rio enquanto fazia o curso de artes. Além do avô, os pais de Cavalleiro também eram artistas plásticos e ele cresceu em uma casa frequentada por nomes como Mario de Andrade e Olegário Mariano.

Na França, o cineasta estagiou como assistente do papa do documentário etnográfico, Jean Rouch, durante a realização de “A África de Hoje”. Essa influência se manifestaria nos curtas, ou “folkdocumentários”, que Cavalleiro realizou sobre a cultura popular brasileira, sob orientação dos antropólogos Gilberto Freyre e Luiz da Câmara Cascudo.

Trabalhos como “Folia do Divino”, “Feira de Campina Grande”, “Ticumbi” e “Boi Calemba” registram manifestações do interior do país que, em muitos casos, não existem mais. Dez deles estão na programação de “Cinema & Invenção”. “Essa cultura folclórica é o que o Brasil tem de mais raro e está desaparecendo porque não têm o incentivo da sociedade, que despreza e tem até vergonha delas”, argumenta.

Ainda na Europa, Cavalleiro trabalhou na Itália e na antiga Checoslováquia. Foi em Praga, em 1965, que ele realizou três desenhos que acabaram na edição alemã de “Os Diários de Kafka”. Inéditos no Brasil, eles serão exibidos em uma sala especial da mostra em Belo Horizonte, ao lado de três desenhos do estudo do cineasta para sua adaptação de Edgar Allan Poe e mais outras duas gravuras. “É a cereja do bolo da exposição e funciona quase como uma galeria de museu”, destaca Klein.

Fonte: O Tempo Magazine