Reaberto, Casarão atrai visitantes

O funcionamento segue até dezembro, sempre às sextas, sábados e domingos

Com as portas da casa aberta, as pessoas foram chegando e o movimento de visitantes no primeiro dia de reabertura do Casarão de Brigadeiro Tobias surpreendeu Sônia Nanci Paes, chefe do Patrimônio Histórico e Museus Municipais, e Álvaro Augusto Assis Antunes, tropeiro do Centro de Treinamento de Muares, entusiastas e envolvidos com a história da cidade. Eles vão permanecer no imóvel histórico todas as sextas, sábados e domingos, das 9h às 18h, até o mês de dezembro, recebendo quem quiser entrar para ver e ouvir um pouco da história rural sorocabana. 
 
Há 5 anos, Sônia e Álvaro passam o mês de maio, quando se comemora o Tropeirismo, instalados no Casarão para organizar e receber grupos de pessoas interessadas em conhecer com mais detalhes do que foi e o que é a vida tropeira. A abertura do prédio histórico agora segue, praticamente, os mesmo moldes, mas com uma novidade: os visitantes podem subir no sótão do casarão. O acesso à escada se dá por um cômodo que normalmente, nas comemorações de maio, fica fechado porque guarda o material de apoio da equipe que trabalha nesse evento, explicaram os anfitriões. “O importante é que continuamos aqui para conversar com quiser sobre a história rural da cidade relacionada a outros fatos importantes e também históricos de Sorocaba, do bairro Brigadeiro Tobias, dessa região”, esclareceu a responsável pelo setor de patrimônio histórico do município. 
 
No casarão de 232 anos – de acordo com a informação de Sônia – estão expostas várias peças que remontam ao tempo do tropeirismo e que até hoje são utilizadas por quem vive no meio rural, observa Álvaro. Pertence a ele o artesanato e os objetos que decoram os cômodos do casarão. São selas, arreios, materiais trançados em couros, fotografias, bandeiras, pequenos animais de madeira, tudo que remete à cultura de cidades do interior paulista. Integrante de uma família que tem sua história ligada ao tropeirismo, Álvaro diz que pretende “contar fatos que foram ocultados ao longo da história”. 
 
Parte dessa história escondida pelo tempo é o que a chefe do setor de Patrimônio Histórico e Museus Municipais pretende descobrir dentro de alguns anos, através de um projeto de estudos arqueológicos e histórico que sonha em implantar no lugar. “Queremos fazer esse estudo no solo, na parte externa do prédio, e também num dos cômodos do casarão, em busca de vestígios que indiquem quem viveu aqui, em busca de informações que contem como viviam as pessoas que aqui estiveram. Nesses estudos, é comum encontrarmos cacos de cerâmica, alimentos, sementes. Isso pode nos dizer muita coisa”. 
 
Por conta da legislação eleitoral, qualquer obra no Casarão de Brigadeiro Tobias só pode ser retomada no próximo governo. De acordo com Sônia, o telhado e as esquadrias de portas e janelas já foram restauradas. “Falta a restauração interna que consiste em fazer a manutenção do piso, que possivelmente será trocado por um como era o original, de varvito (tipo de rocha), e falta fazer um novo projeto elétrico”. 
 
Visitas 
 
Morador do bairro Brigadeiro Tobias, o empresário Flávio Quilles aproveitou os portões abertos para entrar no sítio e no Casarão e assim relembrar a infância vivida ali naquelas bandas. “Um tempo em que eu e meus amigos nadávamos no riacho que tem aqui perto”. Ele, que por várias vezes se deparou com o imóvel fechado quando foi ao local passear com seu pastor alemão, ficou feliz em encontrar o lugar aberto para visitas aos finais de semana. “É quando as pessoas têm tempo para visitar espaços como esse”. Sandra Leite é da cidade de Santos, mas tem uma chácara nas proximidades. Aproveitou para entrar no antigo Casarão em companhia da prima Solange Francisco, também de Santos. Para Sandra, a abertura da casa foi uma novidade recebida com satisfação. Para Solange, foi momento de poder entrar num prédio histórico e avaliar a passagem do tempo através da arquitetura. “Olha a grossura das paredes, o tamanho das janelas, o frescor do ambiente”, comentou admirada. “Nem precisa de ter ar condicionado”, brincou. 
 
Sônia e Álvaro destacaram que valorizar o saber antigo é uma de suas propostas com essa iniciativa. “Tem tanta tecnologia desenvolvida antigamente e que usamos até hoje, tanto em construção, na lida com os animais, com a terra. É isso que queremos mostrar, contar por meio de palestras, que na verdade são um bate-papo”, avisou Álvaro. O Casarão do Brigadeiro Tobias fica na rua José Sarti, no bairro que leva seu nome. Placas indicativas instaladas na entrada do bairro apontam a direção onde ele está situado. Não é necessário, mas os interessados em levar grandes grupos de pessoas para conhecer o lugar podem agendar visitas pelo telefone (15) 3233-6856. 
 
Divergências 
 
Durante a entrevista concedida ontem sobre a programação que vai até o mês de dezembro, Sônia Nanci Paes, chefe do Patrimônio Histórico e Museus Municipais, destacou que o casarão histórico não sofre com problemas de infiltração, ao contrário do que alguns restauradores e o próprio secretário de Cultura e Lazer, Edmilson Chelles Martins, já afirmaram em outras entrevistas. “Afirmar se há um infiltração, problemas na estrutura em imóveis históricos é algo que requer estudos específicos. Mas eu me pauto em documentos, estudos técnicos e digo que não há infiltração”, disse. E ainda explicou: “uma casa de taipa de pilão tem que ter uma umidade natural equilibrada. Se fizer uma drenagem no local, o solo pode se ressecar demais e isso não é bom para a casa. Da mesma forma que umidade em excesso e por isso, quando foi necessário, promovemos ao redor da casa uma espécie de drenagem natural, com sulcos na terra em formato de espinha de peixe, para dar vazão à água parada. Uma casa de taipa é como um elemento vivo, que respira”. Sônia ainda falou sobre a pintura da casa. “É uma pintura a cal que permite que as paredes respirem. Isso dá uma falsa impressão de umidade. A técnica, inclusive, tem sido utilizada nas construções atuais que buscam aparência rústica. É um sistema que permite que a casa elimine aquilo que ela não quer”. 
 
Sobre a reabertura do Casarão, Sônia afirmou que essa foi uma proposta discutida com equipes da Secretaria de Cultura em maio, durante as comemorações da Semana do Tropeiro. “Foi um projeto elaborado naquela ocasião para começar no segundo semestre. Não foi uma decisão judicial. Não recebemos nenhuma intimação”, comentou, contestando informações de que a reabertura foi consequência de uma decisão do Ministério Público, que investiga a situação, de propor ação na Justiça para que a Prefeitura tome alguma atitude em relação ao imóvel, já que sem o uso o prédio poderia sofrer com falta de ventilação. 
 
O Casarão de Brigadeiro Tobias é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico do Estado de São Paulo (Condephaat) e pelo Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
 
No casarão há artesanato e objetos que remetem à cultura de cidades do interior paulista
 Por: Fábio Rogério
 
Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul