Quando o museu se torna lugar de criança

Resgatando ideário modernista, Museu de Arte de São Paulo subverte padrões para se abrir para o público infantil

A partir de sexta-feira (8), obras de Van Gogh e Renoir que pertencem ao acervo do Masp (Museu de Arte de São Paulo) serão rebaixadas. Elas sairão da altura tradicional de 1,50 metro e serão dispostas 30 centímetros abaixo, ao lado de fotografias, obras de artistas contemporâneos relacionadas à infância e desenhos infantis. Sem hierarquia.

A exposição “Histórias de Infância”, em cartaz até 31 de julho, quer mostrar como a infância é representada e vista em diferentes épocas, suportes e contextos. Para isso, exibirá obras que retratem crianças de diferentes maneiras. Desde a escolha do que será exibido à própria configuração das obras no espaço físico do museu, tudo leva em conta a perspectiva das crianças.

Rosa e Azul

“O museu está interessado nas histórias de movimentos e grupos que foram silenciados ou reprimidos ao longo da história. O interesse pela produção infantil se insere nesse contexto de recontar a história da arte de um ponto de vista que ainda não foi abordado”, conta aoNexo o curador do Masp, Fernando Oliva.

As obras serão rebaixadas para que as crianças possam observá-las com autonomia. Além disso, sua organização não acontece de forma cronológica. Pinturas e esculturas religiosas dividem espaço com fotografias de amas de leite; “Rosa e Azul”, de Renoir (1881) está ao lado de uma fotografia de Barbara Wagner, de 2005. “Achamos que assim conseguimos revelar coisas particulares tanto de uma obra quanto de outra”, diz Oliva.

O mesmo espaço será ocupado por obras produzidas por crianças em oficinas dentro do próprio museu. Não há diferenciação porque isso criaria uma hierarquia entre as obras. E as crianças são, por natureza, anti-hierárquicas. “Tínhamos interesse na produção, histórias e narrativas da infância. E temos algo a ensinar e muito a aprender com as crianças”, diz o curador.

Movimento modernista valorizou a arte infantil

Oliva conta que, desde a fundação do Masp, em 1947, há programação direcionada ao público infantil. Desde aquela época, o Club Infantil abria espaço para a participação das crianças, que acompanhavam a montagem das exposições, a chegada das obras e tinham acesso aos artistas.

É um resquício do próprio movimento modernista, que nas décadas de 1920 e 1930 se voltou para a produção cultural subversiva, que rompia padrões e normatizações e questionava julgamentos morais e estéticos da época. Livres e antiautoritárias por natureza, as crianças se encaixavam nesse perfil.

“Há uma dificuldade bastante generalizada em aceitar como bons e como sublimes os desenhos das crianças. Apesar destes não ficarem devendo nada às vezes até aos de Rembrandt e de muitos outros gênios.” A frase, do escritor e poeta Mario de Andrade, resume o interesse dos modernistas sobre a produção artística feita por crianças.

Mario de Andrade colecionou desenhos infantis por duas décadas. A ele interessava, principalmente, a maneira como as crianças se expressavam livremente sem as normatizações da época.

“Primeiro: nós não damos importância ao que o menino faz. Acha-se graça e apenas. Segundo: damos importância por demais ao que os gênios catalogados fazem. Acha-se importante e guarda-se.”

Mario de Andrade

Fonte: Nexo

Escritor