Projeto de transformar o bairro Bom Retiro em Korea Town mobiliza setor cultural

Carta aberta recolhe assinaturas e convida ao debate e defesa da identidade plural local

“O Bom Retiro é de todo mundo!” Esse é o mote da mobilização pública encabeçada pela Casa do Povo diante do projeto do novo Cônsul-geral da Coreia do Sul, Insang Hwang, que visa a transformar o bairro do Bom Retiro, em São Paulo, em Korea Town – Bairro Coreano.

A carta aberta da Casa do Povo está disponível aqui, até o dia 07 de setembro. O documento on-line recolhe assinaturas e convida moradores, frequentadores, comerciantes e demais pessoas e iniciativas a defender a identidade plural do local.  

“Nos juntamos com outras instituições do bairro e publicamos a carta para colher contatos de pessoas interessadas em ampliar a discussão. Portanto, não é exatamente um abaixo-assinado no sentido que não tem uma proposta do Consulado da Coreia do Sul clara o suficiente à qual poderíamos responder ainda. Mas, como um dos agentes do bairro, acreditamos que essa conversa toda precisa ser pública e acontecer no território”, explica Benjamin Seroussi, diretor-executivo da Casa do Povo.

Além das pessoas que moram ou frequentam o bairro, a carta já foi assinada por outros centros culturais do bairro, como o Teatro de Contêiner / Cia. Mungunzá de Teatro, o Instituto Criar de TV Cinema e Novas Mídias, É de Lei, Coletivo Tem Sentimentos, Coletivo Mitchossó, Mulheres da Luz e FIT.

O documento destaca que “o bairro do Bom Retiro vem sendo cada vez mais reconhecido por sua diversidade social, cultural, pelas diversas opções de transporte para toda a cidade, acolhendo sucessivos fluxos de migrantes – intraurbanos, nacionais e internacionais – que se organizam e assumem as mais diversas formas de trabalho e recorrem a um amplo leque de soluções de moradia – de abrigos, favelas, pensões, cortiços e ocupações, aos edifícios modernos assinados por arquitetos estrangeiros dos anos 1950 e às mais recentes estratégias de produção imobiliária.”

Reconhece também que existem problemas no local, alguns específicos de bairros centrais, mas comuns à maior parte da cidade e afirma que “na proposta do Cônsul-geral, publicada em matéria na Folha de São Paulo, em 9 de agosto, as boas intenções para resolver alguns problemas de zeladoria se ancoram num projeto de apropriação do bairro e sua transformação em uma Korea Town. Em nome de uma visão fantasiosa calcada em bairros de cidades norte-americanas, a proposta pretende impor a presença de uma onda migratória sobre todas as outras, passadas e futuras”, diz o documento.

Entre as propostas descritas no projeto da Korea Town estão a instalação de esculturas que simbolizam a Coreia, pintura de murais, instalação de luminárias típicas, aumento da sensação de segurança nas ruas com instalações da primeira companhia da Polícia Militar dentro do bairro e de Base Comunitária Móvel, entre outras medidas.

Em 19 de agosto, o consulado procurou a Casa do Povo para uma reunião on-line, que teve a participação de Insang Hwang (cônsul-geral), Sung Bum Noh (coordenador de assuntos políticos do consulado), Seroussi e Sarah Feldman (professora do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em São Carlos, que também integra o conselho diretor da Casa do Povo).

Hwang informou que a reunião teve como objetivo esclarecer dúvidas relativas ao que foi apontado na reportagem da Folha de São Paulo e foi avaliada como positiva e produtiva. “Foi explicado, por exemplo, que esse projeto não prevê a demolição ou reconstrução de imóveis do bairro, pois respeitamos também a cultura e a diversidade das comunidades nele representadas. A reportagem havia gerado essa dúvida, que esclarecemos”, explica o cônsul-geral.

Seroussi comenta que o projeto foi apresentado de forma mais detalhada e que os representantes da Casa do Povo deixaram claro seu desacordo, reconhecendo, porém, que a instituição não pode falar em nome do bairro e, por isso, essa conversa precisaria ser o primeiro passo para um diálogo verdadeiramente público e coletivo – proposta aceita pelo consulado.

O diretor-executivo da Casa do Povo fez questão de ressaltar que “o movimento que está sendo feito em nada questiona a presença coreana no bairro, mas sim, a redução do local à única presença coreana. Repudiamos qualquer forma de xenofobia”, afirma.

De acordo com ele, assim como existem exemplos de bairros “rotulados” mundo afora, é preciso destacar também experiências que conseguiram manter suas diversidades, como é o caso do Bom Retiro.

A carta aberta da Casa do Povo é finalizada com um trecho que diz: “O Bom Retiro é coreano porque é boliviano, paraguaio, peruano, nordestino, judaico, armênio, grego, sírio-libanês, italiano, inglês, português, ou seja, verdadeiramente cosmopolita, mutante e paulistano. Fixar e rotular a sua identidade é reduzir – privatizar – a sua tão rica diversidade, apagar sua história, excluir boa parte da sua população e acabar com o próprio Bom Retiro.”

A Casa do Povo é um dos exemplos desse bairro multicultural, fundado nos anos 1950 pela comunidade judaica, que se mudou para lá no período pós-Segunda Guerra e, depois, passou a conviver também com imigrantes de países como Coreia do Sul e Bolívia.