Piracicaba torna-se capital do humor gráfico

Com a tradição do humor político que enfrentou a ditadura, está aberto o 39° Salão Internacional de Humor de Piracicaba, cuja mostra oficial, mostras paralelas e outras atividades podem ser conferidas de graça de terça a domingo no Parque Engenho Central. Fundado no auge da ditadura – 1974 -, o salão tornou-se um respiro da liberdade de expressão durante os anos de chumbo e é hoje um dos maiores do mundo – nessa edição, a maior de sua história, o salão exibe 436 obras de artistas do Brasil e outros 64 países.

Além do centenário Engenho Central, antigo engenho de cana às margens do Rio Piracicaba transformado em centro cultural, o Salão espalha mostras paralelas em museus, bares, restaurantes da Rua do Porto, ponto de gastronomia típica local, e outros espaços culturais. Oficinas, atividades externas, como a Caminhada do Humor, e o Salãozinho de Humor, dedicado a trabalhos de crianças, completam a extensa programação.
 
Ucrânia
 
 
Entre as mostras de fora da seleção oficial, nesse ano o Salão abre espaço para artistas ucranianos com a exposição "Um Certo Humor Ucraniano", organizada pelo artista Vladimir Kavanevsky e com obras dele e de expoentes de seu país.
 
Como no Brasil
 
De acordo com Kavanevsky, como no Brasil – e em todo o mundo -, charges, tiras e cartuns são instrumentos de crítica social, seja a governos ditatoriais ou aos desmandos e corrupção da política que produz injustiças. "A situação na Ucrânia é similar à do Brasil. As charges são muito usadas para criticar ditaduras e situações políticas. Não existem diferenças reais na arte dos desenhos de todo o mundo", diz o artista ucraniano.
 
Censura

Kavanevsky atualmente trabalha em uma revista de oposição que enfrenta forte pressão do governo por suas críticas – há alguns anos, lembra ele, jornalistas foram assassinados na Ucrânia por razões políticas. "Neste momento, está impossível publicar um cartum realmente forte contra o poder", diz ele, que já sofreu censura anteriormente na então União Soviética.

 
Mas a produção em seu país é prolífera, tanto quanto no Brasil. Segundo ele, desde a independência, há 20 anos, artistas ucranianos ganharam mais de mil prêmios em concursos de todo o mundo – e em quase todas as edições do Salão de Piracicaba, o país está ao menos representado. Em seus trabalhos, o ucraniano tem a crítica social e à estupidez humana como seus temas preferidos. No Salão desse ano, Kavanevsky exibe três de seus desenhos (veja na galeria).
 
Quando perguntado sobre os artistas brasileiros, Kavanevsky diz gostar da "criatividade de muitos cartunistas brasileiros" e cita Cau Gomez entre seus preferidos – "Eu gosto das ideias de seus cartuns."
 
História
 
 
O salão surgiu do sonho de um grupo de jornalistas, artistas e intelectuais piracicabanos, que queria colocar o humor gráfico dentro do Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba. A ideia de um salão de humor cresceu e recebeu apoio e em 1974 ocorria a primeira edição com trabalhos dos mais importantes cartunistas da época, Jaguar, Ziraldo, Fortuna, Millôr, Zélio e Ciça, todos do extinto "Pasquim", e a quem o grupo piracicabano recorreu para angariar obras e mais apoio – o que conseguiram na hora.
 
Medo da Ditadura
 
O medo dos organizadores era que não pudessem abrir as portas por causa da ditadura. Mas abriu, o público compareceu e, a partir da terceira edição, tornou-se internacional. Pelo salão passaram nomes que se tornariam ícones das artes gráficas, como Henfil, Glauco, Angeli e muitos outros.
 
Serviço:
A mostra oficial do Salão pode ser visitado até 14 de outubro, de terça a quinta, das 14h às 18h; sextas, sábados, domingos e feriados, das 10h às 20h.
O Parque Engenho Central fica na Avenida Maurice Allain, 454. Telefone (19) 3403-2615; site oficial: www.salaodehumor.piracicaba.sp.gov.br.
 
Fonte: Caros Amigos