Pinacoteca traz obras em forma de caixa

Caixas encerram universos inteiros, céus e nuvens mais ou menos abstratos. Em alguns casos, guardam resquícios das contradições de um país. Em outros, viram microcosmos cheios de cor.

Uma mostra agora em cartaz na Pinacoteca do Estado volta aos anos 50 e recolhe até os dias de hoje obras que abrem e fecham, trabalhos em forma de caixa, que vão desde abstrações geométricas a comentários críticos sobre o contexto político da época em que foram criadas.
 
No alto de uma sala, estão caixas brancas que Lygia Pape equipara a nuvens no céu, objetos ortogonais que imprimem lógica matemática à visão de devaneio.
 
Divulgação
Obra de Lygia Pape em mostra na Pinacoteca alude à miscigenação brasileira
 
Waltercio Caldas reproduz constelações e galáxias em branco no interior de uma caixa preta, como se tentasse fazer caber entre as faces de um cubo toda a percepção, uma possível alusão à tentativa de enquadrar na alvura das galerias de arte a potência do pensamento estético.
 
Nos caixotes e vasilhames de Hélio Oiticica, pigmento cru e paredes coloridas se articulam na expressão de um estado de cor em potencial, a tensão de uma obra que parece se conservar em estado perpétuo de gênese, uma espécie de embrião de formas.
 
Quem articula todas as peças nesse armazém de caixas é o crítico britânico Guy Brett, responsável pela exposição e um dos maiores nomes por trás do reconhecimento da arte brasileira no exterior.
 
Brett trabalhou com Sérgio Camargo, Lygia Clark, Cildo Meireles, Lygia Pape, Waltercio Caldas e Oiticica, ajudando a posicionar esses artistas no plano global antes que virassem as grifes que são hoje.
 
“Todos esses trabalhos têm uma relação”, afirma Brett em entrevista à Folha. “Mas há um paradoxo. Enquanto muitos desses artistas tentavam levar arte às ruas, eles se isolam nessas peças introspectivas, calmas, criando uma biblioteca de formas.”
 
Nessa biblioteca, para além das caixas, há livros de desenhos de Mira Schendel, em que a artista cria quase uma animação página a página, ou mesmo exercícios geométricos de Lygia Pape e Ferreira Gullar, desdobrando o pensamento da poesia concreta que surgia nos anos 50.
 
Mais adiante, com a eclosão do regime militar, o “clima muda”, como diz Brett, ao analisar obras críticas de Artur Barrio e Antônio Dias.
 
Enquanto Barrio alude às mortes do período num livro com páginas feitas de carne, Dias ataca o fim do voto democrático na ditadura com sua série de urnas lacradas, caixas que guardam objetos secretos e nunca podem ser abertas.
Em performances ao longo da carreira, Dias chegou a abrir algumas dessas urnas, mas a que está agora na Pinacoteca permanece lacrada desde 1975 e assim deve ficar.
 
CABELOS E LÂMINAS
 
No ano crítico de 1968, em que foi baixado o Ato Institucional nº 5, recrudescendo a repressão, Lygia Pape fez uma das obras mais contundentes da mostra, uma caixa com três tipos de cabelo, alusão à miscigenação que está na origem do povo brasileiro.
 
Materiais nocivos perdem o perigo em obras de Jac Leirner e Cildo Meireles. Enquanto ela transforma maços de cigarro em esculturas que chama de pulmões, ele anula o potencial de corte de facas ao fechar várias delas juntas numa caixa, lâmina colada em lâmina, inofensivas.
 
Fonte: Folha online