Pinacoteca realiza mostra que relembra as raízes do construtivismo na produção artística brasileira

A Pinacoteca de São Paulo apresenta, a partir de 15 de junho, a exposição “A linha como direção”, que ocupa o segundo andar da Pinacoteca Estação, em São Paulo. Com curadoria do Núcleo de Pesquisa e Curadoria do museu, a mostra apresenta 12 esculturas e relevos, pertencentes ao acervo da Pinacoteca, que tem em comum o fato de apoiarem-se no elemento geométrico da linha para criar sua espacialidade, retendo, de maneira direta ou indireta, alguns dos questionamentos propostos pelo construtivismo no início do século XX. A realização dessa exposição foi possível graças ao apoio da Lei de Incentivo à Cultura.

Em 1920, os construtivistas russos conceberam o Manifesto Realista no qual defendiam “a linha como direção”. O grupo entendia esse elemento geométrico, não como sua representação gráfica, mas como forma de pontuação das forças e dos ritmos escondidos nos objetos. Também buscavam combater o preconceito secular da impossibilidade de se separar o volume da massa de um objeto. Propunham também rejeitar “o volume como forma plástica do espaço” e “a massa como elemento escultórico”.

Eles tinham em mente os exemplos da engenharia – o trilho, a viga, o arco, o contraforte – e sua capacidade de aguentar cargas e tensões sem a necessidade de quantidades enormes de material; a forma como o espaço poderia ser ocupado e os possíveis vazios gerados. Refletiam sobre a ideia de uma escultura que se afastasse da imperiosidade do monumento para proclamar — como novos valores plásticos — a leveza, a transparência, os ritmos cinéticos, o movimento e o dinamismo.

Os trabalhos reunidos nesta exposição aludem alguns pontos defendidos dentro dessa proposta construtivista. As obras de Waltercio Caldas, por exemplo, flertam com o grafismo. Enquanto Macaparana e Joaquim Tenreiro criam volumes a partir do cruzamento das linhas ortogonais ou diagonais e formam tramas e grades que transformam a planaridade da linha em tridimensionalidade, por sua aproximação e adensamento.

Willys de Castro e Luiz Hermano também operam com a modulação da linha e com ela sugerem volumes sucessivos ou alternados. Todos eles ocupam o espaço, tanto com cheios como com vazios, numa quase demonstração da possibilidade de separar o volume da massa de que também falavam os construtivistas. Sérvulo Esmeraldojoga com a nossa percepção virtual ao transformar a linha em plano e o uso da cor para sugerir cheios e vazios. Sergio Sister, por sua vez, conhecido por seu trabalho em pintura, também aplica o elemento da cor para enfatizar as mudanças de ritmo na modulação das linhas retangulares de seus relevos.

Foram incluídos também na seleção curatorial, artistas que jogaram nova luz sobre a linhagem construtivista. Mari Yoshimoto utiliza-se das linhas quebradas e ásperas do arame farpado para construir esferas perfeitas. Ignez Turazza, Iole de Freitas e Erika Verzutti operam com a noção de uma linha que não pretende delimitar o espaço ou as forças nele atuantes, mas que se associa à especulação das coisas informes. “Essas artistas retiram sua graça justamente de seu caráter de risco, de quase-objeto – que pode ser completado pela vontade e fantasia, ou que se mantém para sempre em potência, no estado de esboço ou como vestígio, resto ou memória”, finaliza Fernanda Pitta, uma das curadoras do núcleo.

Artistas participantes

Erika Verzutti (São Paulo, SP, 1971)

Iole de Freitas (Belo Horizonte, MG, 1945)

Joaquim Tenreiro (Beira Alta, Portugal, 1906 – Itapira, São Paulo, SP)

Luiz Hermano (Preaoca, CE, 1957)

Macaparana (Macaparana, PE, 1952)

Mari Yoshimoto (Santa Rosa do Viterbo, SP,1931 – São Paulo, SP, 1992)

Sérvulo Esmeraldo (Crato, 1929 – Fortaleza, CE, 2017)

Waltercio Caldas (Rio de Janeiro, RJ, 1946)

Willys de Castro (Uberlândia, MG, 1926 – São Paulo, SP, 1988)

Sergio Sister (São Paulo, SP, 1948)

SERVIÇO

Exposição “A linha como direção”

De 15 de junho a 3 de fevereiro de 2020

De quarta-feira a segunda-feira, das 10h às 17h30 – com permanência até as 18h

Pinacoteca Estação

Largo General Osório,66 – 2º andar, São Paulo/SP

Gratuita todos os dias.

Fonte: Sec. de Cultura de São Paulo