Para historiador, ainda há obras a serem recuperadas

Com famílias constituídas, carreiras estabelecidas em museus e universidades e idade média de 40 anos, os “caçadores de obras-primas” eram os mais improváveis soldados da Segunda Guerra. Enviados ao front, eles tinham a missão de resgatar milhões de peças de arte pilhadas pelos nazistas e de tentar impedir que os aliados destruíssem monumentos históricos e culturais na medida em que ganhavam terreno na Europa.

A tarefa de preservar em meio ao exercício de destruição que é a guerra coube à divisão de Monumentos, Belas Artes e Arquivos, criada por Estados Unidos e Inglaterra no fim de 1943, quando a invasão da Itália colocou no campo de batalha muitas das criações fundamentais da civilização ocidental, entre as quais A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, quase destruída em um bombardeio

O estabelecimento da força-tarefa deve muito a George Stout, um especialista em história da arte e técnicas de preservação com mestrado em Harvard que é o principal personagem do filme Caçadores de Obras Primas, no qual é interpretado por George Clooney.

Como todos os “homens dos monumentos” transportados para as telas, Stout ganhou um novo nome e foi rebatizado de Frank Stokes, responsável por convencer o então presidente Frank Delano Roosevelt a criar uma divisão responsável por proteger a herança cultural europeia. “Quem vai garantir que a estátua de David continuará em pé e que a Mona Lisa ainda estará sorrindo?”, pergunta Stokes no começo do filme.

Mas, com exceção dos nomes, alguns detalhes e ajustes geográficos e cronológicos, a versão cinematográfica é bastante fiel à realidade, segundo Robert Edsel, autor do livro no qual o filme se baseou: Caçadores de Obras Primas – Salvando a Arte Ocidental da Pilhagem Nazista, também editado no Brasil.

“Nunca havíamos visto ninguém fazer isso em uma guerra”, disse o autor ao Estado. “Esses homens e mulheres arriscaram suas vidas e se afastaram de suas famílias e de carreiras estabelecidas para fazer algo que não iria necessariamente beneficiar os Estados Unidos, mas a civilização mundial.”

Inicialmente, eles foram enviados às frentes de batalha para identificar monumentos históricos e culturais, na tentativa de evitar ou minimizar danos durante ataques dos aliados. Mas diante da escala sem precedentes do roubo de objetos de arte pelos nazistas, eles acabaram envolvidos no esforço de localização, resgate e devolução desses itens a seus proprietários.

Quando o Exército americano determinou que o grupo concluísse suas atividades, em 1951, a divisão de Monumentos, Belas Artes e Arquivos havia recuperado 5 milhões de objetos, 4 milhões dos quais roubados. A grande maioria fazia parte de coleções particulares de famílias judaicas enviadas a campos de concentração pelos nazistas.

Parte das obras foi retirada de museus, principalmente da Europa Oriental. Entre essas, está o Retrato de um Homem Jovem, de Raphael Sanzio, que fazia parte do acervo do museu polonês Czartoryski, na Cracóvia, quando foi roubada por oficiais nazistas em setembro de 1938.

Seu destino seria o museu que Adolf Hitler planejava construir em sua cidade natal austríaca, Linz, idealizado para abrir cerca de 8 mil dos principais objetos de arte pilhados em toda a Europa. No filme dirigido por Clooney, o quadro de Raphael é queimado por soldados alemães junto com centenas de outras obras de arte – e esse é um dos poucos aspectos da versão cinematográfica questionados por Edsel.

“Nós sabemos que em 1944 a obra estava fora da zona de combate e não há nenhuma evidência de que ela tenha sido destruída. O grande mistério é saber onde está agora”, observou. O quadro de Raphael é considerada o mais valioso dos milhões de objetos de arte roubados pelos nazistas que continuam desaparecidos.

As obras que seriam destinadas ao Museu do Führer em Linz foram catalogadas em álbuns localizados pelo “caçadores de obras-primas”, que serviram como provas nos julgamentos de Nuremberg. Segundo a acusação, só em Paris, 38 mil residências de famílias judaicas foram roubadas. Outra pista essencial para a descoberta do destino das obras foram as anotações feitas durante por Rose Valland, a curadora do museu parisiense Jeu de Pomme, interpretada por Cate Blanchett no filme.

“Rose Valland é uma das grandes heroínas da guerra”, diz Edsel. Durante seis meses ela testou as intenções de James Rorimer, especialista em arte medieval, até se convencer de que poderia entregar a ele as informações que revelavam o esconderijo de muitas peças roubadas.”

 Fonte: Estadão