Num Brasil ‘nervoso’, papel do Museu é fundamental, diz Lilia Schwarcz

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Nomeada nesta semana a mais nova curadora-adjunta do Masp, a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz já está trabalhando na elaboração de um seminário e de uma exposição no museu que vão discutir a representação da infância nas obras de arte. Outros dos assuntos que norteiam suas pesquisas, como escravidão e sexualidade, também estão na pauta da instituição.

Nesse sentido, a escalação de Moritz Schwarcz, autora de livros como “Brasil: Uma Biografia” e “As Barbas do Imperador”, marca uma abertura do Masp, e do campo da arte como um todo, a disciplinas antes desenvolvidas em paralelo ao pensamento estético.

Junto de Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp com quem já havia trabalhado na mostra “Histórias Mestiças”, realizada no Instituto Tomie Ohtake, no ano passado, Moritz Schwarcz engrossa a cúpula do maior museu da América Latina na tentativa de abrir a instituição para além das artes plásticas e abraçar temas contemporâneos.

Em entrevista à Folha, Moritz Schwarcz conta que se sente uma discípula de Lina Bo Bardi, idealizadora do Masp, ao tentar reenquadrar “culturas e narrativas plurais” dentro do discurso do museu e confessa que perdeu o “mau vício” de encarar imagens só como ilustração. “Esse corpo a corpo com a arte me mostrou que ela não vem a reboque das coisas.” Leia a seguir trechos da conversa.

Folha – Como será seu trabalho no Masp? Sendo antropóloga e historiadora, como você vê o trabalho de criar exposições de arte e estabelecer relações entre as obras de um acervo?
Lilia Moritz Schwarcz – Eu venho da área das ciências humanas, e a gente tem o mau vício de achar que imagem é só ilustração. Já vinha exercitando então esse desafio de encontrar uma autonomia nas imagens, mas sem dizer que elas têm autonomia absoluta. Ou seja, queria encontrar um equilíbrio entre narrativas e narrativas iconográficas e imagéticas.

Não sou curadora de formação e estava preocupada com a área em que eu podia atuar, e eles disseram que queriam que eu entrasse para tocar projetos que já estavam sendo encaminhados pela equipe curatorial na área de narrativas e histórias. Já estou trabalhando num primeiro projeto, que vai falar sobre a infância.

Um assunto tão amplo como infância, por exemplo, precisa ser discutido num museu de arte?
Precisar, não precisa. Mas é uma vocação minha tomar temas clássicos da historiografia e ver como essa questão aparece e é cruzada de outra maneira na história da arte. Não vamos fazer uma exposição só com o acervo do Masp. Sabemos que a infância é um conceito plural construído, porque os escravos, por exemplo, eram vistos como adultos já com 12 anos. A criança em grupos ameríndios era uma coisa, na nossa sociedade é outra.

Sabemos que as crianças eram descritas nas telas acadêmicas como pequenos adultos, então vamos pensar o que significam essas imagens. Queremos embaralhar as cartas. Para produzir uma exposição como essa, vamos conversar com especialistas que venham da antropologia, da educação, da história.

Acredita que sua entrada no museu e a consulta a intelectuais de outras áreas pelo mundo da arte é sinal de que o mundo vive uma época transdisciplinar?
Não tenho a veleidade de supor que agora o sertão vai virar mar, que todos vamos invadir o campo da arte. Minha geração se formou sob o signo da transdisciplinaridade, mas nosso grande desafio é não supor que ser interdisciplinar é pôr um livro de outra área debaixo do braço e cruzar o corredor. Eu mesmo venho experimentando com outras áreas, e acho que essa abertura do Masp é uma tentativa de fazer valer esse bordão que por muito tempo só foi decorativo. É um sinal do momento e da nossa reflexão acadêmica. A academia brasileira vem mostrando como tem uma reflexão amadurecida, e a possibilidade de transitar é uma expressão desse amadurecimento.

Esse pensamento lembra as ideias de Lina Bo Bardi, arquiteta do Masp e uma de suas principais idealizadoras. Desde o ano passado, quando assumiu o comando, a nova equipe do museu vem tentando retomar as ideias dela. Você se identifica com isso?
Eu me sinto como uma discípula dela. Desde que eu e o Adriano Pedrosa [diretor artístico do Masp] fizemos a mostra “Histórias Mestiças” no ano passado, a gente já tinha clara uma questão, que era não chamar nada de arte popular, não usar essas classificações que limitam, rotulam e criam hierarquias. Pensando a partir da antropologia, essa atenção a várias culturas no plural é muito relevante. E a Lina é um exemplo, é pioneira dessa ideia. Ela faz mais do que resgatar uma cultura, porque quem pensa em resgate evoca uma cultura parada. Eu penso cultura como algo dinâmico, uma reelaboração, uma tradição, uma ressignificação, é um pouco nessa perspectiva. Não é uma pedra no rio, é o rio que passa. Adoraria representar esse retorno de uma filosofia da Lina. Não tenho essa veleidade, mas adoraria.

Alguns temas de seu interesse, como escravidão e sexualidade, devem servir de base para futuras exposições. Como você pensa que a arte reflete ou reage a essas questões?
Penso que a arte não reflete as coisas. Se ela reflete, ela produz também. A grande vantagem de pensar por imagens é pensar a ideia da função produtora das imagens. Elas são reflexo e ao mesmo reflexividade. A arte muitas vezes está à frente, apontando o caminho, e nós estamos atrás. Isso é o revolucionário de fazer arte. Esse corpo a corpo com a arte me mostrou que ela não vem a reboque das coisas.

Como antropóloga, entendo que a sociedade produz diferenças, e as diferenças são sempre construções históricas, políticas e sociais. Há marcadores de raça, de gênero, de região. Na minha opinião, esses marcadores estão sempre em diálogo. Estou estudando, por exemplo, Lima Barreto e vou colocar em diálogo raça, gênero e região. A gente sabe que raça biológica não existe, mas raça social existe. A ideia é articular esses conhecimentos, assim como digo que não sou curadora, eu estou curadora. Esses são todos temas na minha agenda.

Na sua opinião, que papel tem um museu de arte nesse momento de crise generalizada que a sociedade brasileira atravessa?
O museu tem um papel fundamental nesse contexto. Não há sociedade que não construa suas instituições representativas. É como as capitais se vestem, produzem seus museus, suas galerias, suas salas de concerto. O Masp é um cartão-postal de São Paulo e da nossa nacionalidade. Estamos nos perguntando agora sobre as formas de ser e estar brasileiros, e isso é um processo mutante. Os museus têm um papel fundamental para contribuir com essas questões. Então talvez precise mesmo discutir tudo isso num museu, uma reflexão mais crítica, mais ligada a questões do nosso momento.

Penso que o Brasil se encontra num momento muito nervoso. De um lado, fico satisfeita que os brasileiros estejam nas ruas, mas esse é um momento de reflexão. Na minha opinião,estamos num contexto em que o panorama democrático continua bastante consolidado, mas, se a democracia anda consolidada, temos apanhado feio dos valores republicanos. Basta ver os escândalos que envolvem a questão da corrupção. A corrupção não é endêmica, não está no DNA dos brasileiros. A crise é séria e longa.

Na arte, estamos dialogando com esse movimento. E por isso essa ideia de histórias plurais e narrativas plurais. Se há algo de novo no nosso cenário é essa certeza de narrativas que são diversas na sua história e na sua agenda.

Por Silas Martí

Fonte original da notícia: Folha de S. Paulo