Novo curador do Tomie Ohtake chega com a missão de arrasar quarteirões

Já passa das dez horas da noite quando Philip Larratt-Smith desce do quarto, todo de moletom, com o cabelo enrolado amarrado atrás da cabeça.

Numa sala de reuniões do hotel Fasano, em São Paulo, ele conta o que pretende fazer agora que virou uma espécie de curador internacional -e à distância- do Instituto Tomie Ohtake.

15085517O canadense Philip Larrat-Smith, 36, novo curador internacional do Instituto Tomie Ohtake

Mas, antes de qualquer conversa, é preciso lembrar que Philip, 36, não é um novato na cena paulistana. Esse canadense radicado em Nova York pode ser visto no restaurante Spot sempre que está em São Paulo. Foi ele quem organizou as mostras de Andy Warhol, na Estação Pinacoteca, e de Louise Bourgeois e Yayoi Kusama, no centro cultural em Pinheiros que agora o contratou.

Não seria exagero dizer que, depois de Bourgeois, Kusama e Salvador Dalí, o Tomie Ohtake entrou na onda das mostras blockbuster, fazendo frente a outros espaços da cena nacional, como a Pinacoteca do Estado, que acaba de trazer Ron Mueck, e o Centro Cultural Banco do Brasil, que abriu há pouco uma retrospectiva de Picasso em São Paulo e se prepara para receber Kandinsky logo mais, nas filiais de Belo Horizonte e SP.

Nessa equação, Philip, que ainda estudava literatura grega e latina em Harvard quando conheceu a escultora francesa Louise Bourgeois, em 2001, entra como peça-chave. Amigo de Louise, morta há cinco anos,

Obcecado por Warhol e por sua “identificação patológica” com o sonho americano, e íntimo de estrelas controversas da arte contemporânea, como a artista japonesa Yayoi Kusama e a fotógrafa americana Nan Goldin, famosa por seus registros dos submundos de Nova York e Berlim, o curador tem o trânsito que o centro cultural almeja para criar uma programação dos sonhos -e de bilheterias alucinadas.

“Não existe nenhum artista fora do mercado hoje. Quando entrei no mundo da arte, essa ainda era uma cena alternativa. Tudo que eu sabia de Louise Bourgeois é que ela era uma velha que esculpia aranhas gigantes”, diz Philip.

“Mas hoje esse mundo todo está cheio de dinheiro. Se fizer um teste de pureza a cada passo que dou como curador, vai ser impossível trabalhar. Não assino embaixo de tudo o que o mercado faz, mas decidi lutar pela expressão sem assumir uma posição política, para não correr o risco de ser hipócrita.”

O curador entende bem esse risco. Na época em que ainda se sentia um “turista” no meio artístico, decidiu provocar o embargo dos Estados Unidos a Cuba montando mostras de artistas como Bourgeois, Warhol e o fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe em Havana. “Eram exposições que pretendiam ser uma ponte entre os dois países”, diz o curador. “Mas hoje sinto que Havana vai se tornar uma Disneylândia.”

Ele diz que se identifica com ideias da esquerda, mas que é difícil escapar da força do dinheiro e do mercado da arte, que paga seu salário e garante a agenda sempre lotada.

Depois da entrevista, viajaria a Paris, para compromissos profissionais e onde seria fotografado para Serafina por Nan Goldin, voltaria a Nova York e seguiria sua série de viagens. “Minhas alianças políticas são diferentes agora”, diz. “Não é que tenha feito uma jornada da esquerda à direita, mas acredito ter perdido o encanto com isso.”

Essa perda de paciência com os que ainda reivindicam uma segregação entre arte e mercado parece explicar os interesses atuais do canadense. Ele prepara para o Tomie Ohtake mostras do fotógrafo japonês Hiroshi Sugimoto, famoso por suas representações de uma natureza em miniatura, e da fotógrafa americana Diane Arbus, conhecida por seus personagens bizarros.

Ou seja, Philip tenta se distanciar da realidade para mergulhar em universos paralelos, talvez menos perigosos do que a política. “Gosto dessas situações em que a linha entre arte e vida não é tão fixa”, diz o curador. “Não gosto de arte que se parece com fragmentos do noticiário. Vou atrás de coisas que podem me nutrir e quem sabe até me matar.”

Fonte: Folha de S. Paulo