Notas para um novo perfil do trabalhador da cultura

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O Brasil registrou na última década um grande avanço quantitativo e qualitativo nas relações de trabalho na área cultural. A cadeia produtiva da cultura é diversificada, sofisticada e com múltiplas funções e especificidades. Cultura, como atividade econômica, saiu do confinamento, e superou fronteiras, mas ainda mantém vícios e dependências de uma atividade não totalmente legitimada pelos mercados tradicionais de trabalho.

 

No entanto, existem alguns sinais positivos para os profissionais da cultura. Um dos elos da cadeia produtiva em que as relações de trabalho parecem estar se redefinindo com mais velocidade é o das empresas privadas. Sejam elas mantenedoras de programas, institutos ou fundações culturais, ou apenas patrocinadoras de projetos culturais, as empresas têm enfrentado o desafio de identificar e atrair profissionais qualificados para seus quadros. Do lado dos profissionais, abre-se um promissor mercado de trabalho que, apesar das perspectivas pouco otimistas na economia, deverá criar oportunidades ainda pouco exploradas.

 

O momento é de transição e terão maiores chances de sucesso aqueles profissionais que puderem demonstrar possuir as habilidades, posturas e experiências desejadas pelas empresas.

 

O mundo contemporâneo dos negócios está em estado de fluxo permanente e as empresas têm que se reinventar a todo o momento, ou correm o risco de ser deixadas para trás. Isso significa que as empresas precisam identificar e recrutar talentos com flexibilidade, agilidade mental, criatividade e curiosidade incansável, capazes, eles mesmos, de sempre se reinventarem.

 

Os profissionais, por seu lado, não mais obedecem ao antigo padrão de seguir uma carreira lentamente ascendente em apenas uma organização. Mudam constantemente de função, de empresa e mesmo de setor econômico, e preferem buscar empresas e atividades que os desafiem, que os estimulem a se desenvolver e a se qualificar. E, é claro, ofereçam compensação material adequada. Como estão em constante mudança, precisam ser capazes de incorporar permanentemente novas habilidades e de aprender a lidar com equipamentos e serviços que ainda sequer tinham sido inventados quando iniciaram suas formações profissionais. É só nos lembramos do Twitter, do Facebook, dos tablets, do cinema 3D e de tantas outras inovações recentes.

 

Portanto, mais do que agregar habilidades técnicas ou específicas, o relevante para os jovens profissionais é saber acumular conhecimento e adaptá-lo de forma inteligente ao ambiente volátil das empresas e dos negócios.

 

O que vale para os profissionais contemporâneos de maneira geral é ainda mais relevante para os profissionais de gestão e produção cultural, e com algumas vantagens: os cursos de comunicações, história, literatura, filosofia, arte e ciências sociais, que dominam a formação dos profissionais da cultura, fortalecem as características, habilidades e atitudes hoje intensamente procuradas pelas empresas. Especialmente para aquelas organizações que desenvolvem programas ou atividades nas áreas de gestão e produção cultural, valorizam o pensamento criativo e a capacidade de construção de cenários, ampliando, assim, as possibilidades de colocação para os que possuem formação nessas áreas.

 

Aqueles que se formaram nas humanidades e nas artes foram estimulados a desenvolver suas capacidades de pesquisar, analisar, avaliar grandes volumes de informação, estabelecer padrões e conexões de sentido, apurar o senso estético, construindo conhecimentos que poderão aplicar de forma inovadora nas empresas.

 

Narrativa, persuasão e cooperação

 

Agora que passamos da sociedade industrial para uma economia globalmente conectada, as bases do sucesso – para empresas e profissionais – passam a ser conhecimento, informação, criatividade e inovação.

 

Isso agrega um enorme valor à habilidade de comunicar de forma clara e persuasiva, pois não é mais suficiente ter uma ideia brilhante: será preciso ter a habilidade de trabalhar em equipe, de transformar a ideia em algo tangível e vendê-la para dentro e para fora da companhia.

 

A formação em humanidades e ciências sociais ajuda na construção de contextos, não só para entender o que está acontecendo no mundo e na empresa, mas para imaginar aquilo que poderá acontecer e porquê. Pois, quando empresas e mercados estão em rápido processo de mudança, são valorizadas as pessoas capazes de apreender o quadro geral da situação e antecipar o que poderá se desenhar no futuro imediato.

 

Por outro lado, negócios geridos por pessoas ignorantes ou inconscientes do passado e da tradição estarão operando com conhecimento insuficiente da realidade, algo absolutamente desastroso no mundo contemporâneo.

 

Finalmente, o novo profissional das carreiras culturais deve procurar se qualificar permanentemente e aproveitar todas as oportunidades de agregar habilidades e conhecimento ao seu repertório, mas evitando a hiper especialização. Deve maximizar o potencial de sua carreira e procurar ser um profissional híbrido, combinando estudos teóricos e conceituais com aplicações práticas.

 

Em um mundo em constante transformação, em estado líquido, como define o sociólogo Zygmunt Bauman, não há espaço para certezas absolutas. Mas sempre haverá oportunidades para os profissionais que conseguirem balancear formação humanística consistente com conhecimentos técnicos específicos e atualizados. Terão ainda maiores chances de sucesso aqueles que demonstrarem habilidade para apreender e decodificar os contextos políticos e econômicos, e bem utilizarem sua capacidade reflexiva para o entendimento amplo do que é cultura e de sua relevância no processo social.

Fonte: Cultura e Mercado