Museu tenta preservar instalação do venezuelano Jesús Rafael Soto

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Tocar é permitido. Pendurar-se como um Tarzan, não. Após quase uma década de esforços e despesas institucionais, uma instalação de Jesús Rafael Soto, pioneiro do movimento artístico cinético, foi aberta no Museu de Belas-Artes de Houston, Texas.

Etéreo e imaculado, “The Houston Penetrable” talvez não se conserve assim por muito tempo no Cullinan Hall, criado por Mies van der Rohe em 1958.

Sessenta visitantes a cada vez poderão penetrar em seu mar de 24 mil feixes tubulares de plástico transparente e reluzente de 8,5 metros, pendurados no teto.

No meio deles flutua um globo amarelo radiante, criado com tubos pintados para compor uma elipse perfeita. Os espectadores poderão ativar o labirinto de luz e cores, brincando em meio aos tubos, como pretendia o artista.

Nascido na Venezuela em 1923, Soto radicou-se em Paris em 1950, onde expôs com Alexander Calder e Jean Tinguely. Na sua carreira, criou 25 Penetráveis.

Misto de abstração geométrica, escultura minimalista e playground, essas grades de tubos coloridos de PVC geralmente eram penduradas em quadros não fixados ao teto e em muitos casos montados ao ar livre.

Soto sempre considerou seus Penetráveis efêmeros, e apenas alguns poucos sobreviveram.

Em 2004 a curadora de arte latino-americana do museu de Houston, Mari Carmen Ramírez, encomendou um Penetrável para o acervo permanente do museu.

Soto completou esse trabalho criado para um local específico, seu maior, semanas apenas antes de sua morte, em 2005, aos 81 anos. Este ano, a obra ficará montada até 1° de setembro.

“É importante fazer isso, porque muitos dos Penetráveis de Soto, assim como os trabalhos de arte cinética de outros artistas latino-americanos, franceses ou americanos, deterioraram com o tempo”, comentou Edward J. Sullivan, professor do Instituto de Belas-Artes de Nova York.

“Nos círculos acadêmicos e de conservação a questão de como restaurar e expor esses trabalhos é debatida intensamente.”

O museu buscou a ajuda técnica dos colaboradores de longa data de Soto em Paris, Paolo Carrozzino e Walter Pellevoisin.

Como nenhum Penetrável havia sido pintado antes, eles fizeram testes extensos para determinar que tipo de pigmento poderia aderir bem aos tubos de plástico (a solução encontrada foi tinta diluída de silk-screen).

O trabalho durou quase três anos, com vários artesãos pintando e etiquetando os 18 mil elementos que compõem o globo amarelo. O museu não revelou o custo do trabalho.

Carrozzino criou uma grade de aço com 240 módulos, cada um deles com cem feixes plásticos, para ser fixada ao teto.

“Quando o museu explica que vai guardar isto por anos e anos, é preciso pensar no manuseio e organização necessários apenas para montar, desmontar, armazenar e montar novamente.”

Outra complicação foi o peso: mais de sete toneladas. O teto teve que ser reforçado com vigas de aço, e para isso foi preciso fazer a remoção de amianto.

Ninguém sabe até que ponto os materiais vão continuar estáveis ao longo do tempo. A limpeza só será feita quando a obra for removida para ser armazenada.

Ramirez visualiza o Penetrável como uma obra exposta sempre no verão. “Esperamos que vire uma coisa cult”, disse. O museu tem 400 tubos guardados, para o caso de necessidade.

Fonte: Folha de S. Paulo