Museu Nacional de Belas Artes amplia acervo de Portinari

Instituição recebe doação de 205 obras que estavam em coleção da Finep e que, um dia, formaram herança do único filho do artista

Estudo Guerra e PazEstudo para o painel “Guerra e paz”, de Candido Portinari Divulgação/Joaquim Soares/Finep

RIO – Enquanto pintava obras emblemáticas da arte brasileira, Candido Portinari (1903-1962) formava, em casa, uma pequena herança para o único filho, João Candido. Eram cerca de 600 trabalhos que, mais tarde, foram usados pelo herdeiro justamente para proteger a memória do pai — João Candido vendeu as obras para bancar o Projeto Portinari, um amplo catálogo (virtual e em papel) da produção do artista.

Agora, 205 desses trabalhos, que um dia fizeram a herança de João Candido, chegam ao Museu Nacional de Belas Artes (MNBA). As obras serão doadas pela Finep (Agência Brasileira da Inovação, ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), no dia 13.

A Finep, por sua vez, recebera os trabalhos como pagamento do filho do artista, que muitas vezes recorreu ao órgão do governo em busca de apoio para o Projeto Portinari, iniciado no final dos anos 1970.

Com a doação da Finep ao MNBA, o museu passa agora a ter o maior acervo público do artista, com 243 trabalhos — depois da instituição, segundo João Candido, figuram o Masp, em São Paulo, que detém a importante série “Retirantes”, e os museus da Chácara do Céu e do Açude, que são, juntos, donos de mais de cem obras do pintor.

O MNBA já havia recebido cinco doações de obras de Portinari em 2013, entre elas “A primeira missa” (1948), adquirida pelo Ministério da Cultura por R$ 5 milhões e doada ao museu. As 205 obras que a Finep entrega agora à instituição devem ser expostas no final de maio e seguir em cartaz até setembro deste ano.

João Candido conta como se desfez dos trabalhos que irão ampliar o acervo do MNBA:

— Quando comecei o Projeto Portinari, tive muita dificuldade em viabilizá-lo financeiramente. Estou falando de 1978, e as agências de fomento para arte e cultura ainda eram muito rudimentares, não tinham equipes capazes de analisar propostas ou não possuíam verbas especificamente para atender tais projetos.

Naquele mesmo 1978, João Candido procurou a Finep e ouviu o “sim” do então presidente da agência, José Pelúcio Ferreira. A parceria se estendeu até o final do governo Collor, quando, diz João Candido, “a Finep mudou de perfil e reduziu o apoio a projetos a fundo perdido”.

— Fiquei desesperado. Estávamos longe da meta de fazer o catálogo raisonné. Então, me disseram para pedir à Finep um empréstimo. Dei as obras de minha herança como garantia — completa ele. — As peças tinham valor afetivo muito grande, e me doía vê-las guardadas num cofre. Elas não podiam ser vistas! Por outro lado, durante anos houve um esforço da Finep para colocar essas obras numa instituição.

Entre as 205 obras, há retratos a óleo, mas sobretudo desenhos e estudos para painéis, como o célebre “Guerra e paz”, feito para a ONU, ou para o mural de azulejos do Palácio Gustavo Capanema. Há ainda esboços de ilustrações para capas de livros, como “Memórias póstumas de Brás Cubas” e “O alienista”, de Machado de Assis.

Fonte: O Globo