Museu do Futebol faz ação de salvaguarda de acervo do Santa Marina Atlético Clube

Centenário clube de São Paulo tenta reverter ação de despejo

Na última semana, a equipe do Museu do Futebol, instituição museológica da Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, realizou uma força-tarefa para salvaguardar o acervo do Santa Marina Atlético Clube, que sofre com uma ação de reintegração de posse do terreno que ocupa há 72 anos, na capital paulista.

Na sexta-feira (06), estava tudo preparado para a desocupação do local, inclusive, com todos os troféus e fotos empacotados e catalogados, mas uma liminar judicial concedida no período da tarde reverteu a situação e evitou o despejo.

O Santa Marina vive uma disputa do terreno contra a multinacional Saint-Gobain e tinha até o dia 7 de agosto para deixar a área em que se encontra, porém, em resposta a uma ação civil pública impetrada pelo Ministério Público, foi suspensa a reintegração de posse por decisão judicial.

O clube agora espera ganhar tempo para tentar o tombamento da área. Na decisão liminar do dia 6, a juíza da 19ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), Camila Rodrigues Borges de Azevedo, diz: “A preservação de patrimônio é matéria de relevo à sociedade: representa conhecimento e domínio sobre o passado, para que seja apresentado ao futuro. É, portanto, legado e herança entre gerações de um mesmo povo e serve à construção e manutenção de sua identidade local, histórica e cultural”.

Força-tarefa de salvaguarda do acervo

O Santa Marina tem um memorial com troféus, documentos e fotos acumulados ao longo de sua história e, diante do iminente despejo, foi necessário um trabalho rápido e preciso para salvaguardar o acervo.

“Nós soubemos da situação do Santa Marina por meio de uma matéria na imprensa e também de um grupo de pesquisadores/jogadores de futebol amador que nos contatou solicitando orientação e auxílio com a questão dos acervos. Fizemos uma visita ao local para averiguar o estado e a quantidade de itens”, explica Ligia Dona de Souza, Assistente de Pesquisa do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB).

A primeira visita ocorreu no dia 03 de agosto, quatro dias antes do prazo final de desocupação. “O tempo era curto, então organizamos uma força-tarefa com uma parte da equipe do Museu do Futebol e contamos com o apoio do pessoal que nos pediu ajuda”, diz Ligia.

De acordo com ela, os voluntários participaram de uma oficina explicativa sobre como seria a limpeza, o manuseio e o acondicionamento do material. O Museu elaborou uma planilha de inventário simplificada com um código para cada item, descrição, tipo e observação e, em três dias, o grupo conseguiu limpar, embalar e registrar cerca de 294 itens, entre eles, troféus, taças, formas de vidro da antiga fábrica Santa Marina e quadros de fotos, entre outros objetos.

Além disso, a equipe do Museu solicitou alguns álbuns de fotografia emprestados para digitalizar as imagens e tê-las como acervo do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), disponibilizando-as também para que o Memorial do clube possa salvaguardar essas fotos em outro suporte que não apenas o físico. “O trabalho foi interrompido temporariamente com a notícia da liminar na tarde de sexta-feira (06), mas retornaremos em breve, com mais tempo e calma, para continuar o inventário do Memorial”, afirma a Assistente de Pesquisa.

O Santa Marina é um clube já mapeado e referenciado pelo Museu do Futebol há alguns anos. De acordo com Ligia, o clube compôs, inclusive, a exposição temporária Futebol de Papel (2013-14). “Em virtude disso, já tínhamos uma parcela do acervo fotográfico digitalizado”, pontua a profissional.

Com o bloqueio temporário da reintegração de posse, o acervo, que seria destinado para uma casa cedida por um amigo do presidente do clube, Francisco Ingegnere, permanecerá no mesmo lugar em que se encontra.

A Assistente de Pesquisa do Centro de Referência do Futebol Brasileiro destaca que “o trabalho de inventariar os itens do clube é importante, mesmo sem a reintegração de posse, já que, apesar do cuidado com os acervos, eles não tinham nenhum tipo de controle dos materiais que entravam ou saíam do memorial”.

Segundo matéria do UOL Esporte, agora, os órgãos competentes devem julgar a importância social, cultural e esportiva do Santa Marina para o bairro da Água Branca, na Zona Oeste de São Paulo. “O Santa Marina já está inserido em uma Zepec (Zona Especial de Preservação Cultural), que consta do Plano Diretor e é marcada como território que deve ser preservado pelos bens culturais e interesse histórico que há nele. Ao ser criada essa Zepec, foi reconhecido que todo o contexto fabril ali mudou culturalmente aquela região e por isso deveria ser preservado”, explica a advogada Beatriz Calheta, que junto de Vitor Inglez de Souza e Kelseny Medeiros Pinho, ambos do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, foi uma das responsáveis pela ação civil pública. Geraldo Rangel de França Neto, 3° promotor de Justiça do Meio Ambiente da capital, foi quem acolheu a ação no MP.

A tentativa de preservação do clube também virou objeto de um Projeto de Lei apresentado da vereadora Erika Hilton (PSOL) na Câmara Municipal, em 30 de julho. O PL objetiva instituir, com amparo no art. 13 da Lei Orgânica do Município de São Paulo, a declaração de reconhecimento do Santa Marina como patrimônio cultural material da cidade de São Paulo.

No documento, consta que “o time amador de origem operária foi fundado em 1913 por trabalhadores da antiga Companhia Vidraria Santa Marina e é um destaque nas modalidades esportivas de futebol de campo e futebol de salão. Localizado no bairro da Água Branca, zona oeste de São Paulo, o clube fica numa região de fábricas e possui um acervo significativo, digno de grandes clubes profissionais, além de uma impecável sala de troféus e galeria de fotos, vários jornais e fotografias”.

Em comunicado enviado pela assessoria de imprensa, a Saint-Gobain afirma que sempre esteve disponível e aberta ao diálogo com o Santa Marina Atlético Clube a fim de encontrarem, em comum acordo, a melhor solução para ambas as partes em relação ao imóvel localizado na Avenida Santa Marina, nº 443/833/883.

Diz ainda que, embora a companhia não comente processos judiciais em curso, o imóvel, que pertence ao Grupo Saint-Gobain, era utilizado pelo Clube via um Contrato de Comodato que expirou em 2019. Ao longo desses anos, a empresa sempre atuou de maneira transparente junto às lideranças do Clube para buscar alternativas na resolução do tema. Sobre a ação civil pública do Ministério Público, veiculada na imprensa, a empresa acrescenta que não foi formalmente citada pelo órgão até o presente momento.

O Grupo afirma ser pautado nos princípios de responsabilidade social e ambiental, e reitera seu empenho na solução desta questão da melhor forma possível.