Mulheres Negras na Museologia celebra aniversário da Rede Museologia Kilombola

Evento contará com diversificada programação on-ine

Novembro é o mês da Consciência Negra e do Empoderamento do Povo Negro. É também o aniversário da Rede Museologia Kilombola, que completa um ano de existência com uma série de eventos virtuais realizados de 23 a 29. “Mulheres Negras na Museologia” tem como objetivo ser um marco para todas as pessoas que compõem a gestão, idealização e curadoria do evento, que será realizado em parceria com o SISEM-SP (Sistema Estadual de Museus de São Paulo), instância da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, ICOM Brasil (Conselho Internacional de Museus), IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), Museu da Memória e Patrimônio da Universidade Federal de Alfenas e Museologicas Podcast.

Durante esse caminhar, a Rede tem trilhado caminhos em busca de uma Museologia reflexiva, responsável, comprometida com a equidade e inclusão de corpos pretos, quilombolas, marginalizados e periféricos.

Todas as atividades serão gerenciadas e terão a participação de mulheres negras de relevância para a Museologia, patrimônios e culturas brasileiras.

Programação

Segunda-feira, 23 de Novembro de 2020, às 18h.

CONVIDADA: Joana Flores

TEMA: Mulheres Negras no Museu.

MEDIAÇÃO: Edna Moraes

Terça-feira, 24 de Novembro de 2020, às 18 horas.

CONVIDADA: Luzia Gomes

TEMA: Narrativas de Mulheres Negras na Museologia

MEDIAÇÃO: Pâmela Andrade

Quarta-feira, 25 de Novembro de 2020, às 18 horas.

CONVIDADA: Zinalva Ferreira

TEMA: Mulheres Negras na Conservação

MEDIAÇÃO: Mariana Marques

Quinta-feira, 26 de Novembro de 2020, às 18 horas.

CONVIDADA: Anna Luísa

TEMA: O Protagonismo de Mulheres Negras no Patrimônio Cultural. 

MEDIAÇÃO: Tácia Muniz

Sexta-feira, 27 de Novembro de 2020, às 18 horas.

CONVIDADA: Mona Nascimento

TEMA: Representatividade Negra na Docência da Museologia. 

MEDIAÇÃO: Andressa Batista

Sábado, 28 de Novembro de 2020, às 18 horas.

CONVIDADA: Ana Paula Pacheco e Nutyelly Cena

TEMA: Museologia, Mulheres e Consciência Negra. 

MEDIAÇÃO: Thainá Castro

Domingo, 29 de Novembro de 2020, às 18 horas.

CONVIDADA: Luciana Menezes de Carvalho

TEMA: Mulheres Negras e o Cenário Museológico Internacional e Latino-Americano

MEDIAÇÃO: Inah Irenam

Segunda-feira, 30 de Novembro de 2020

LANÇAMENTO da Revista MEMÓRIA LGBT + KILOMBOLA com a Temática: Raça, Etnia, Sexualidade e Afeto

Rede Museologia Kilombola

Desde o primeiro africano a colocar os pés nesta terra, o povo preto tem perdurado em constantes lutas pela sobrevivência, pelo direito à vida e estado de bem viver. Tais questões foram essenciais para o combate ao racismo e seus efeitos.

O racismo constitui-se como instrumento de controle e cerceamento de direitos dos diversos grupos “minoritários” em uma sociedade marcada por mais de 320 anos de escravização dos corpos pretos.

Em novembro de 2019, surge a Rede Museologia Kilombola no Recôncavo da Bahia, território com maior população negra fora do continente africano, onde se evidenciou os primeiros traços da colonização europeia no Brasil e, consequentemente, as maiores revoltas negras do período colonial português.

A Rede surge com o escopo de criar novas possibilidades, de provocar, de instigar e construir uma análise crítica, contextualizada e prática do museu e da museologia como, também, refletir sobre o direito à memória e à materialidade das produções orais e gráficas.

Partindo da necessidade em debater o genocídio físico e epistêmico, que ambientes acadêmicos têm sustentado nos últimos anos, é bem sabido que os corpos presentes nas universidades brasileiras, atualmente, são formados por corpos pretos, quilombolas e periféricos que antes não tiveram acesso ao ensino superior como instrumento de direito e emancipação política, social e econômica.

Suas vivências acadêmicas vêm refutar os locais determinados, ou seja, os espaços excludentes e produzir uma expropriação do conhecimento sintético (conhecimento acadêmico) e orgânico (conhecimento empírico).

A contra colonialidade tratada no movimento é, segundo Nêgo Bispo, pensador quilombola piauiense, “todos os processos de resistência e de luta em defesa dos territórios dos povos contra colonizadores, os símbolos, as significações e os modos de vida praticados nesses territórios”.

A Rede Museologia Kilombola entende a museologia como um território e, como tal, reproduz o silenciamento político e acadêmico dos indivíduos que se propõem a ser não mais objetos de estudo, e sim, sujeito das narrativas, dando a elas significados próprios.

Os museus brasileiros têm sido palco de reprodução de símbolos, estereótipos de gênero, raça e etnias, invisibilizando as populações historicamente discriminadas e incluindo nesse contexto as mulheres.

Como resultado, reforça por meio das exposições ou coleções a propagação da manutenção da visão da crença, valores e hábito sexista, machista e etnocêntrico produzido pela sociedade ocidental e patriarcal.

A categorização dos corpos é uma ação ocidental de hierarquização que define, além das classificações de gênero, os posicionamentos em sociedade, pois é através das divisões de raça, classe e gênero que se desenvolve o berço do Norte.

A pesquisadora nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí problematiza esse conceito enquanto uma categoria de organização instituída pela sociedade colonial, visto que as classificações em solo africano, anterior ao colonialismo, nunca subdividiu desse modo a sua comunidade.

É a partir dessa óptica que surge o conceito de “mulher negra”, uma das condições menos privilegiadas no cenário diaspórico. Violentadas, estigmatizadas e invisibilizadas, o patriarcado buscou engessar a mulher preta em um ambiente de submissão que não lhes permitia o agenciamento de suas próprias vidas. Porém, ao contrário do que se buscou afirmar, as dinâmicas sociais construídas por esse grupo apresentam-se em contextos de resistência que perpassaram das lutas coloniais, que visavam a emancipação da população negra, até a atualidade.

Ainda é possível observar, a partir dos índices de desenvolvimento, os resquícios de um sistema opressor que inviabiliza não apenas a ascensão das mulheres, principalmente as negras, mas também a sua existência.

Em 2020, as mulheres negras despontam como as principais vítimas de feminicídio, conforme apontado pelos Estudos da violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Nos primeiros seis meses desse ano, 1.890 mulheres foram mortas de forma violenta, boa parte em plena pandemia do novo Corona vírus – Um aumento de 2% em relação ao mesmo período do ano passado quando 6.331 desses crimes foram motivados por ódio em razão da condição de gênero, ou seja, feminicídio”.

A propagação dessas atitudes viola direitos humanos e contribui para um alto índice de desigualdades, estigma sobre mulheres, principalmente a mulher negra, indigna ou trans que dentro desse universo cultural ou acadêmico às vezes nem são citadas como artista e profissionais, detentores de conhecimento, saberes e direitos.

Mesmo diante de cenários como os atuais, são as mulheres negras que seguem mobilizando e modificando as estruturas sociais e agenciando novos modos de construção.

A Rede segue construindo experiências distintas de resistência e criação, louvando o sagrado e as ancestrais que permanecem vivas nas memórias e lutas.

Assim, a Museologia Kilombola, em seu primeiro ano e no âmbito de atividades de reconhecimento e valorização da negritude, potencializadas nos dias que antecedem e precedem ao dia da Consciência Negra, definiu como tema de discussão para seus últimos encontros de 2020 “Mulheres Negras na Museologia”.

Fonte: Museologia Kilombola