Mostra Véxoa: Nós sabemos é destaque na Pinacoteca de São Paulo

Pela primeira vez, a Pinacoteca de São Paulo realiza uma exposição dedicada à produção indígena contemporânea, com curadoria da pesquisadora indígena Naine Terena. “Véxoa: Nós sabemos conta com a presença de 23 artistas/coletivos de diferentes regiões do país, apresentando pinturas, esculturas, objetos, vídeos, fotografias, instalações, além de uma série de ativações realizadas por diversos grupos indígenas. Os trabalhos podem ser vistos pelo público até 8 de março, no Edifício Luz. A exposição tem o patrocínio do Itaú.

A mostra é um marco da representatividade dentro da Pina: “A Pinacoteca de São Paulo se dedica às artes visuais brasileiras desde sua fundação, em 1905, mas somente em 2019 incorporou ao seu acervo obras de arte brasileiras produzidas por artistas indígenas. Esta exposição é fruto de um diálogo ativo durante os últimos anos entre o museu e diversos atores da arte contemporânea de origem indígena brasileira, colocando em debate a história da arte que o museu pretende contar e as que permaneceram invisíveis”, afirma o diretor-geral do Museu, Jochen Volz.

Exposição

Véxoa: Nós sabemos ocupa as três novas salas para exposições temporárias, localizadas no segundo andar da Pina Luz, em diálogo com a nova apresentação das coleções do museu. A doutora em educação (PUC/SP), mestre em artes (UNB) e ativista Naine Terena se dedica a uma pesquisa de longa data que tem se aprofundado no último um ano e meio. “A grande intenção é fazer uma mostra que não tenha uma centralização no pensamento do curador ou da instituição, mas que considere profundamente o local de fala dos artistas, os anseios”, comenta.

Os trabalhos selecionados, obras históricas e contemporâneas de artistas individuais e também de coletivos, demonstram a pluralidade da produção de artistas indígenas. São pinturas, instalações, esculturas, objetos, vídeos e fotografias que desmistificam a produção artística indígena à condição de artefato ou artesanato.

Em Véxoa, a organização expositiva dos trabalhos não é cronológica, pois leva em consideração as diferentes temporalidades da produção artística indígena, que se transforma no tempo e não é efêmera ou pontual. “Por isso as obras ocupam espaços dialógicos independente da sua estrutura, localidade de origem, artista ou outra classificação, como a etnográfica”, explica Naine.

A exposição reverencia a importância de figuras históricas, trazendo trabalhos inéditos de artistas já conhecidos e também abre espaços para novos, demonstrando também a forte atuação do cinema e da fotografia indígenas, além de amplificar iniciativas de comunicação existentes, como a Radio Yandê.

Destaque para as obras produzidas em diferentes suportes, da fotografia ao vídeo, passando pela cerâmica, o bordado e o uso de materiais naturais, entre outros, além da presença de obras de um dos grandes pensadores indígenas brasileiros, Ailton Krenak. No tocante às pinturas, o Coletivo Huni kui Mahku, do Acre, formado por artistas plásticos indígenas que realizam murais a partir da vivência de diferentes lugares, procurará transpor para suporte da tela as distintas dimensionalidades que a Pinacoteca e a exposição carregam.

O artista plástico Jaider Esbell, indígena da etnia Macuxi, traz os diálogos interativos na obra coletiva Árvore de todos os saberes, um painel de lona de 2 metros que, desde 2013, vem sendo realizado por povos indígenas do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Estado Unidos, México. Além desta produção, ele apresenta mais quatro vídeos que discutem temas como o neoxamanismo; a mercantilização dos saberes dos povos originários; denuncia os ataques aos seus parentes indígenas Makuxi e demonstra a inserção de uma nova geração de indígenas no universo das tecnologias digitais para registrar as memórias e suas experiências nos dias de hoje.

Também já conhecido do público, Denilson Baniwa, nascido na aldeia Darí, da comunidade Baturité/Barreira, no Amazonas, apresenta duas obras: uma instalação com vestígios do incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, numa referência à destruição da cultura material indígena ali preservada, e realiza uma ação de plantio de flores, ervas medicinais e pimenteiras no “território” externo da Pinacoteca, que é transmitida por meio de câmeras de segurança para o interior do museu.

O ativismo feminino está presente por meio da produção de Yakunã Tuxá, da etnia Tuxá na Bahia, que propõe uma reflexão sobre os desafios das mulheres, em especial as indígenas. As ilustrações abordam as suas ancestrais, a força, a beleza e os preconceitos vividos pela mulher indígena nas grandes cidades.

Na mostra também se destacam produções de “etnomídia indígena”, em que as ferramentas de mídia são utilizadas pelos próprios povos, gerando autonomia, representatividade e pluralidade dos discursos. Se destacam Olinda Muniz Tupinambá (Tupinambá, Bahia), o Coletivo Ascuri (Mato Grosso do Sul), Anapuaká Tupinambá (Tupinambá, Bahia) e Edgar Correa Kanaykõ (Xakriabá, Minas Gerais).

A Ascuri (Associação Cultural dos Realizadores Indígenas), formada por jovens realizadores/produtores culturais que usam a linguagem cinematográfica, traz para a exposição as diferentes facetas vividas pelos povos Terena e Kaiowá, entre outros, propagando o “jeito de ser indígena” a partir de suas produções.

Ainda no campo do vídeo, a diretora Olinda Muniz Tupinambá faz a estreia do filme “Kaapora”, uma produção que, segundo a diretora, é feita para seu povo e também para o público externo. Ela explica que o filme é uma forma de fortalecer a cosmovisão de sua comunidade, embora também se preocupe com o que o não índio irá entender sobre sua produção. Assim como Daiara Tukano, reconhecida ativista, apresenta uma série de pinturas, os Hori, que propõem um diálogo com a cosmovisão Tukano.

A primeira web rádio indígena do Brasil, a Rádio Yandê (Nós, em Tupi), também está presente, representada por seu co-fundador, Anapuaká Tupinambá, realizando uma programação especialmente desenvolvida para a mostra.

Em muitos dos trabalhos, é nítida a relação entre arte e ativismo indígena, aspecto inerente às práticas desses artistas. É o caso das fotografias em preto e branco do artista Edgar Kanayrõ que retratam a dança, a pintura corporal e a luta do seu povo, os Xakriabá, pela demarcação e revisão dos limites de terra no município de Itacarambí, em Minas Gerais.

No campo das esculturas, a pataxó Tamikuã Txihi expõe Áxiná (exna)Apêtxiênã e Krokxí que simbolizam os guardiões da memória. Em 2019, essas peças sofreram ataques motivados por racismos em relação aos povos indígenas durante a Mostra Regional M”BAI de Artes Plásticas, na cidade de Embu das Artes.

A exposição também discute os estereótipos a respeito das artes indígenas, frequentemente associadas apenas a peças de artesanato. Para isso, os artistas Gustavo Caboco, Lucilene Wapichana, Juliana Kerexu, Camila Kamē Kanhgág, Dival da Silva e Ricardo Werá, exibem objetos confeccionados por indígenas que usualmente não são considerados como tal. Por carregarem símbolos e elementos que não são considerados pertencentes à cultura dos povos originários, erroneamente passam a ser desconsiderados como arte indígena.

Acompanhe ao vivo os trabalhos on-line de Véxoa: Nós sabemos! Acesse a Rádio Véxoa na Pina, com uma programação especial criada por Anápuàka Muniz Tupinambá Hã hã hãe especialmente para a exposição. Anápuàka é idealizador e fundador, com Denilson Baniwa e Renata Tupinambá, da Rádio Yandê, atualmente coordenada por Anápuàka, Renata Tupinambá e Daiara Tukano. É também idealizador e fundador do YBY Festival de Música Contemporânea indígena.

Na Rádio Véxoa na Pina o público pode ouvir músicas das diversas etnias dos e das artistas presentes na exposição, além de entrevistas e conversas sobre a arte indígena brasileira. Clique aqui e confira.

Acesse também a transmissão da ação de Denilson Baniwa, Nada que é dourado permanece 1: Hilo, parte da série de três trabalhos criada pelo artista para a exposição.

Nada que é dourado permanece 1: Hilo, é uma ação de plantio e semeadura que o artista iniciou no estacionamento da Pinacoteca em 2 de setembro de 2020, exatos dois anos após o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. É também uma espécie de anti-monumento aos indígenas atingidos pela epidemia de Covid-19. A transmissão fica on-line até o fim da exposição.

Fonte: Pinacoteca de São Paulo