Mostra ‘Utensílios: o espírito das formas’ no MCB

utensilios

A partir de 23 de abril, o Museu da Casa Brasileira (MCB), instituição da Secretaria de Estado da Cultura, apresenta a exposição Utensílios: o espírito das formas, um registro artístico da produção e uso de utensílios presentes no cotidiano doméstico das casas brasileiras. Através de um olhar contemporâneo sobre a permanência de formas ancestrais, vistas por meio das matrizes formadoras de nossa cultura, a mostra reúne imagens da fotógrafa Zaida Siqueira e peças da ceramista Caroline Harari. Na ocasião, acontecerá a abertura simultânea da exposição Marcas Registradas, além do lançamento do livro “Utensílios no Brasil”, de Zaida Siqueira.

Utensílios: o espírito das formas propõe ao visitante uma reflexão sobre a permanência e a contemporaneidade das formas ancestrais, bem como dos próprios materiais utilizados, desafiando a diversidade de opções atuais. Como destaca Caroline Harari, a exposição aponta, sobretudo, “para a necessidade do retorno à essência e ao espírito perdido num mundo que vem se tornando cada vez mais entulhado por excessos de todo tipo”.

As fotografias em médio formato e as obras em cerâmica chamam atenção para recipientes cotidianos como cântaros, jarros, potes, gamelas, cumbucas, panelas e pratos. Referências às urnas funerárias de povos indígenas e objetos de uso ritual em religiões de matriz afro-brasileira também compõem a mostra, denotando influências dessas culturas na tradição artesanal e nas técnicas cerâmicas nacionais.

Embora o espírito dessas formas possa ser observado em artefatos dos mais diferentes materiais, a exposição opta, e não por acaso, por apresentar objetos utilitários feitos em fibras vegetais e madeira, além de argila. “São materiais encontrados na natureza e seu processamento, que depende apenas das mãos e de algumas poucas ferramentas, exige um grande conhecimento do ambiente natural e do local em que vivem aqueles que resolvem empregá-los na produção de seus utensílios”, explica Zaida Siqueira, que há dez anos documenta, em viagens pelo Brasil, objetos do cotidiano e os conhecimentos adquiridos em sua produção.

As peças contemporâneas de Caroline Harari apresentadas pretendem convidar à reflexão sobre a combinação entre tradição e inovação. De um lado, a permanência das formas, vista no confronto com peças cerâmicas de povos indígenas e africanos, que constituíram matrizes essenciais na formação da cultura brasileira. De outro, a inovação técnica, representada pela queima das peças em fornos de alta temperatura, que lhes dá uma extraordinária qualidade de leveza, resistência e beleza.

A curadoria da exposição é do pesquisador e curador independente Gilberto Habib Oliveira. Patrocínio da Cerâmica Atlas, com apoio da Cromex.

Marcas Registradas – Com abertura simultânea à Utensílios, às 19h30 do dia 23 de abril, a exposição Marcas Registradas apresenta, em imagens e objetos, a diversidade gráfica dos elementos e cores que criaram a identidade visual do mobiliário das barracas do comércio de rua em Salvador. Fotografias do arquiteto Michel Gorski, registradas durante a festa de Yemanjá, compõem a exposição, ao lado de peças de caráter lúdico e outras de uso cotidiano com estampas e adesivos inspirados na linguagem gráfica popular.

Lançamento de livro – Ainda em paralelo à abertura das exposições, será lançado no dia 23 o livro “Utensílios no Brasil”, que abrange as fotografias de Zaida Siqueira expostas no MCB, além de dezenas de outros registros colhidos nas regiões do Brasil sobre o uso e os conhecimentos envolvidos na produção de utensílios tradicionais. A publicação dedica um extenso capítulo à cerâmica, ocupação de Caroline Harari. De acordo com Maria Lucia Montes, coordenadora editorial do livro e responsável por sua apresentação, “o destaque dado à cerâmica se justifica por ser esta arte um exemplo paradigmático de como o patrimônio imaterial de saberes tradicionais que comandam a produção de nossos artefatos domésticos se expressa no espírito de suas formas.”

O livro “Utensílios no Brasil” tem patrocínio da Tok&Stok, com apoio da Cerâmica Atlas e da Cromex.

“Apesar da sociedade contemporânea, baseada no consumo, ter inventado uma profusão de implementos para o uso doméstico, alguns poucos utensílios contemplam as necessidades básicas do homem de armazenar, processar e servir alimentos e água, conservar seus pertences e se relacionar com o mundo e professar suas crenças. É surpreendente que as formas básicas desses utensílios tenham atravessado o tempo, passando por culturas e povos distintos com pouquíssimas variações. A explicação está justamente no despojamento e na simplicidade dessas formas, características determinantes também da utilidade de tais objetos para o homem”, conclui Zaida Siqueira.

Sobre Zaida Siqueira
Formada em artes plásticas e jornalismo, Zaida Siqueira sempre optou pela fotografia como seu meio de expressão. Participou, juntamente com outros dois fotógrafos, da captação de imagens para o Livro O Lugar onde a Terra Descansa, de 2000, sobre os festivais indígenas da Serra do Cipó, MG. É autora do livro Cozinhas do Brasil: Alimentos e Ritos, de 2006, sobre a arquitetura das cozinhas e alguns ritos na alimentação brasileira, dos índios amazônicos aos tropeiros do Rio Grande do Sul, apresentados na exposição Cozinhas do Brasil, realizada no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Participou da elaboração e desenvolvimento do projeto Cultura e Renda, que resultou em oficinas de capacitação de mais de 30 jovens e na organização do Museu da Renda de Bilro em Morros da Mariana, no Piauí. Em 2011, publicou o livro Padrões, e realizou uma exposição de mesmo nome no Museu da Energia – Casa de Santos Dumont, em 2012, e no MUBE, em São Paulo, em 2013.

Sobre Caroline Harari
Caroline Harari é formada em História pela FFCHL da USP, pós-graduada em Arqueologia pela USP e em Restauração Patrimonial pela mesma universidade. Iniciou sua produção cerâmica em 1999 e, em 2002, realizou a exposição O Barro e a Renda no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Em 2003 participou na 23ª Bienal de Design de Saint-Etienne, na França, e no ano seguinte seu trabalho foi apresentado na exposição Cântaros no Hotel Plaza Athenée em Paris, na França, em 2004. A mesma exposição foi selecionada para Bienal de Design de Amsterdam, na Holanda, em 2005. Outras mostras importantes de suas peças foram Oferenda, realizada no Museu de Arte da Bahia, em 2008, e Oferenda ao Pelourinho no Museu da Cerâmica Udo Knoff, em 2010. Ao mesmo tempo em cria suas peças, Caroline continua com suas pesquisas sobre os mestres ceramistas populares brasileiros em contínuas andanças pelo país, expondo seus trabalhos em museus do Brasil e do exterior. Suas peças são feitas a partir de técnicas contemporâneas e do uso de queima em alta temperatura, na busca por captar a simplicidade das formas essenciais de objetos utilizados há milênios pelo homem, salientando a importância do patrimônio cultural que neles se condensa.

Fonte: MCB