Mostra relaciona poemas a pinturas modernas e contemporâneas

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Uma exposição agora em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, dá um significado mais concreto à ideia de descrever um quadro como poético. “Narrativas Poéticas” mostra lado a lado fragmentos de clássicos da poesia brasileira e algumas obras marcantes da arte moderna e contemporânea do país, criando um elo entre expressão plástica e a força das palavras.

Ou melhor, uma espécie de eco entre as duas formas de arte. De associações mais literais, como aquela entre um poema de Carlos Drummond de Andrade sobre as mulheres de Di Cavalcanti ao lado de uma tela do pintor com nus femininos a outras mais abstratas, como versos de João Cabral de Melo Neto seguido de uma série de telas abstratas, a mostra estabelece um grande diálogo.

Enquanto Cabral de Melo Neto fala em “desenho de arquiteto, as paredes caiadas, a elegância dos pregos” e outros objetos que “existem a palo seco”, pintores como Arcangelo Ianelli, Rubem Ludolf e Ivan Serpa constroem arquiteturas abstratas ancoradas em formas geométricas.

Drummond de Andrade, um dos poetas que mais aparece na mostra, também enseja representações de sua “Cidadezinha Qualquer” ou mesmo um elo poderoso com a arte contemporânea, em que os versos de “Igreja”, que fala do “canto dos homens trabalhando trabalhando, mais perto do céu, cada vez mais perto” aparecem ao lado de fotografias de Cássio Vasconcellos, que retrata a construção de arranha-céus em São Paulo.

Nesse ponto, também há um forte paralelo com os versos de Mário de Andrade, que, em “Inspiração”, fala em “comoção de minha vida” e “luz e bruma”, “forno e inverno morno”.

Outra ligação mais literal, mas não menos potente, acontece entre os versos de Vinicius de Moraes em “O Operário em Construção”, em que descreve a “rude mão” de um trabalhador, e um estudo em carvão de Candido Portinari para seu painel “Pau Brasil”, que mostra um homem prestes a levantar uma tora.

Uma sequência de telas abstratas de Manabu Mabe, Tomie Ohtake, Yolanda Mohalyi, Iberê Camargo e Arthur Luiz Piza também aparece sublinhada por versos que exaltam aspectos formais sem precisar um conteúdo figurativo, como Cabral de Melo Neto, que fala em “bem entramada sintaxe” apreensível “em conjunto: nunca em detalhe”.

De certa forma, poemas nessa linha se prestam com maior elasticidade ao diálogo com a pintura. Helena Severo, curadora da mostra, lembra, aliás, que esse elo entre pintura e poesia no Renascimento foi o fator responsável por elevar a prática da pintura de uma arte mecânica para o território das artes teóricas, mais nobres.

Mas para além de uma ligação estreita entre os versos e as pinceladas, um dos núcleos mais fortes da mostra também cria um embate entre poemas impressos frente a frente e obras também colocadas de tal forma.

Num dos pontos mais inusitados, uma tela de Renata de Bonis, que mostra uma garota correndo por um bosque com as mãos sujas de sangue, está diante da “Tocadora de Guitarra”, de Victor Brecheret, como se fugisse da estátua e da ideia de uma síntese entre as artes, da música à escultura, passando pela pintura mais dolorosa.

NARRATIVAS POÉTICAS
QUANDO de ter. a dom., das 10h às 17h; até 20/7
ONDE Museu da Língua Portuguesa, pça. da Luz, s/nº, tel. (11) 3322-0080
QUANTO grátis

Fonte: Folha de S. Paulo