MIS-SP é a primeira instituição fora da França a receber exposição ‘François Truffaut: um cineasta apaixonado’

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Mostra lembra os 30 anos de morte do diretor de ‘Os incompreendidos’ e ‘Jules e Jim — Uma mulher para dois’

Foi Serge Toubiana, diretor geral da Cinemateca Francesa, em Paris, que escolheu o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP) como primeira instituição fora da França a receber a exposição “François Truffaut: um cineasta apaixonado”. A mostra foi concebida para homenagear o diretor de “Os incompreendidos” (1959) e “Jules e Jim — Uma mulher para dois” (1961) nos 30 anos de sua morte, completados em outubro do ano passado. Com mais de 600 itens, entre livros, revistas, objetos pessoais, desenhos e fotos relacionados à vida e obra de Truffaut, a mostra se abre ao público brasileiro amanhã e permanece em cartaz até 18 de outubro.

André Sturm, diretor-executivo e curador geral do museu paulistano, conta que Toubiana o procurou em abril do ano ano passado para fazer a oferta: 

— O Serge ficou muito impressionado com a montagem que fizemos da exposição “Georges Méliès”, em 2012, e nos procurou para oferecer a mostra do Truffaut em primeira mão — diz ele.

 ADAPTAÇÃO AO NOVO ESPAÇO

“François Truffaut: um cineasta apaixonado”, que tem um custo operacional de R$ 1,8 milhão, terá no MIS-SP uma abordagem diferente da exibida na Cinemateca Francesa. Originalmente projetada de forma cronológica, ganhará aqui uma outra divisão, na qual os filmes de Truffaut servem como guia do espectador. Haverá três grandes núcleos temáticos, o Amor Pelo Cinema e o Amor Pelas Mulheres, além de um inteiramente dedicado a um dos filmes seminais da Nouvelle Vague, “Jules e Jim — Uma mulher para dois”.

 — Tivemos que fazer mudanças para adaptar a exposição original às áreas específicas do MIS — explica o francês, em entrevista concedida por e-mail. — Mas o espírito é o mesmo: evocar François Truffaut em sua obra como cineasta e escritor de cinema, com muitos documentos de seus arquivos a respeito de sua vida e trabalhos.

Os itens apresentados são apenas uma pequena parte dos arquivos de Truffaut. O curador conta que os descobriu há 25 anos, guardados e organizados em uma sala nos escritórios da Les Films du Carrosse, produtora do cineasta. A família doou tudo à Cinemateca Francesa:

 — Truffaut guardou tudo, tudo sobre sua vida e sua obra, desde a sua infância até sua vida adulta. Ele era um verdadeiro obcecado por arquivos, manteve tudo, arrumou tudo: cartas, registros de produção, textos de apresentação de seus filmes, correspondência com seus amigos, com escritores (Jean Cocteau, Henri-Pierre Roché, Audiberti, Jean Genet…), cineastas (Roberto Rossellini, Jean Renoir, Alfred Hitchcock…).

 Alguns desses documentos inéditos, redescobertos recentemente, são apresentados pela primeira vez. Entre eles, estão ensaios dos atores, um croqui de figurino, fotos de cena e acessórios do filme “O último metrô” (1980).

A opção por tematizar a mostra tem uma lógica, segundo Toubiana. Há o Truffaut crítico e o Truffaut cineasta, e ambos formam um todo coerente e lógico, segundo ele. Quando se tornou cineasta, Truffaut continuou a escrever sobre filmes, cineastas que admirava, elaborar prefácios e, claro, o livro de entrevistas com Hitchcock, publicado em 1966: “Hitchcock/Truffaut”. O volume se tornou uma bíblia para cinéfilos de todo o mundo e é continuamente reeditado.

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 — Para a nova geração de espectadores, no entanto, o que importa são os filmes. Truffaut é descoberto por eles. Seja por seus filmes sobre a infância, como “Os incompreendidos”, “O garoto selvagem” ou “Na idade da inocência”. Ou pela série de filmes com Antoine Doinel, que oferece uma espécie de “educação sentimental” para jovens que acabam de sair da adolescência (o primeiro amor, primeiro emprego, casamento, primeiro filho, o divórcio). Ou por filmes sobre amor a paixão, por exemplo, como “Jules e Jim”, “As duas inglesas e o amor”, “O homem que amava as mulheres” e “A mulher do lado”. Outra possibilidade são os filmes noir, adaptados de romancistas americanos: David Goodis (“Atirem no pianista”), William Irish (“A noiva estava de preto” e “A sereia do Mississipi”), Charles Williams (“De repente, num domingo”).

AVESSO À TECNOLOGIA

Truffaut viveu uma época de forte oposição entre o cinema e a televisão. Hoje, muitos cineastas estão trabalhando para a TV e serviços de streaming como Netflix, Amazon e Hulu, alguns dos quais produzem material próprio. Qual caminho escolheria Truffaut?

 — É difícil imaginar hoje — diz o curador da Cinemateca Francesa. — Truffaut era um homem de uma outra época, ele não gostava de telefone, ele adorava escrever cartas, ele enviava telex, telegramas. Não consigo imaginá-lo em nosso tempo, com a internet. Ele amava as coisas secretas, encontros a dois, ele se protegia da sua própria celebridade e, acima de tudo, trancava-se na produtora Les Films du Carrosse para trabalhar, escrever e preparar seus próximos filmes. Ele queria ser livre, independente, capaz de decidir tudo sobre sua obra. No fim da vida, ficou impressionado com o filme que Ingmar Bergman fizera para a televisão: “Fanny e Alexander”. Ele começou a trabalhar com o roteirista Jean Gruault para criar uma série para a TV francesa. O projeto foi intitulado “0014”, mas Truffaut morreu, aos 52 anos, em 1984 (devido a um tumor no cérebro), antes que pudessem completá-lo.

Fonte: O Globo