MEMORIAL DA RESISTÊNCIA TRAZ EXPOSIÇÃO SOBRE LUTA LGBT DURANTE A DITADURA

Seguindo a programação dos Sábados Resistentes Virtuais deste ano, o Memorial da Resistência e o Núcleo de Preservação da Memória Política convidam para a edição do mês de outubro, que será realizada no próximo dia 24, a partir das 15h, por meio dos canais YouTube e Facebook do Núcleo Memória @nucleodepreservacaodamemoriapolitica e do Memorial da Resistência.

Na ocasião, será inaugurada virtualmente a mais recente exposição temporária do Memorial da Resistência, que havia sido programada para o mês de abril, mas devido à pandemia de COVID-19 teve a sua abertura transferida para este mês.  A exposição traz o tema Orgulho e Resistências – LGBT na ditadura, que nasceu da constatação do apagamento das memórias deste importante setor da população durante o período da ditadura civil-militar. A partir daí, um grupo de pesquisadores, coordenados pelo curador da mostra Prof. Renan Quinalha e pela pesquisadora Julia Gumieri do MR, debruçou-se sobre os arquivos do próprio Deops/SP e de documentação da Polícia Civil mais atuante nos cercos repressivos em favor das moralidades.

Com o apoio do Museu da Diversidade Sexual e da Casa 1, a exposição traz informações, documentos, fotografias e objetos artísticos que revelam os bastidores da produção cultural do período e da violenta repressão daqueles anos quando, a pretexto de defender a moral e os chamados “bons costumes”, os grupos LGBTs foram humilhados, perseguidos e muitas vezes presos, apesar de não correrem processos jurídicos contra eles.

Para este Sábado Resistente, os curadores e pesquisadores que se encarregaram de conceber a exposição foram convidados para debater o tema que, no momento social e político em que o Brasil se encontra, segue ainda muito atual. O evento contará ainda com a participação do Movimento Nacional de Artistas Trans (MONART), atualizando o debate sobre a produção cultural LGBT e o crescente conservadorismo. O debate será realizado das 15h15 às 16h15, com mediação de César Rodrigues (Núcleo Memória).

Exposição
A exposição vai além de demonstrar a narrativa da repressão durante a ditadura e se volta à série de ações de resistência que surgiram, neste período, em defesa da diversidade. O público terá acesso a obras literárias, cartazes de peças de teatro, músicas, filmes, fotografias e materiais que confrontavam a censura na época, além de documentos oficiais da ditadura. Dentre os destaques estão fotografias de Vânia Toledo e um desenho inédito da cartunista Laerte Coutinho no tocante a pluralidade de gêneros. Mesmo num contexto repressivo, a mostra aborda o movimento LGBT dando os seus primeiros passos.

Uma série de fotografias exemplifica como a sociabilidade de homossexuais e travestis era cada vez mais visível e crescente em alguns bares e boates da região central da cidade de São Paulo. A exposição atesta como, dependendo do poder aquisitivo, a comunidade LGBT se dividia. A Boca do Luxo, nas proximidades dos bairros República e Vila Buarque, era uma área frequentada por quem tinha melhores condições. Separados pela desigualdade de renda, existia a Boca do Lixo, em Santa Ifigênia, que ficou conhecida como a maior região de prostituição da história de São Paulo. “A Boca do Lixo ocupava exatamente a região onde o Memorial está e vamos exemplificar uma série de ações repressivas que acontecia neste local por meio de imagens de arquivos policiais, das prisões, recortes de matérias de jornais”, explica Renan.

O público poderá perceber como as prisões em massa foram instrumento do Estado para reprimir tipos sociais “indesejáveis”, baseados no ideário da moral e dos bons costumes. E o projeto curatorial reforça como essas prisões se mantiveram frequentes após o golpe de 1964 com a intenção de manter uma espécie de “higienização moral”, sendo comumente batizadas de Operação Boneca, Operação Limpeza, Pente-Fino, Arrastão.

Nas décadas de 60 e 70, a resistência também é demonstrada no âmbito cultural, com o surgimento de uma arte considerada transgressora e de contracultura. Para a mostra, uma das referências é o grupo Secos e Molhados, que tinha como vocalista o Ney Matogrosso, de aparência andrógina, e que por meio da mídia, chegava a inúmeras casas brasileiras, numa clara referência a pluralidade de gêneros.

Orgulho e Resistências: LGBT na ditadura contextualiza também o surgimento de um movimento LGBT mais organizado a partir de 1978. O visitante terá acesso a imagens de atos de rua e capas de publicações da imprensa alternativa que abordavam o assunto.

Por fim, a exposição faz um paralelo ao demonstrar que mesmo com a constituição de um movimento mais organizado no fim da década de 70, muitas das reivindicações históricas do Movimento LGBT foram conquistadas bem recentemente, como a união estável e o casamento homoafetivos (2011), mudança de prenome e sexo nos registros de pessoas trans (2018) e criminalização da LGBT fobia (2019). “A proposta desta exposição de conduzir e mudar o olhar para o passado diz respeito também ao desejo de olhar para o presente, a fim de buscar meios para que uma determinada versão da moral e dos bons costumes não volte a ter o mesmo peso que teve há tão pouco tempo entre nós”, afirma Renan.

Como parte do projeto de mediação da exposição, a Casa 1 – Casa de Cultura e Acolhimento LGBT foi convidada a desenvolver uma edição virtual do Instituto Temporário de Pesquisa sobre Censura. Em uma plataforma digital serão disponibilizados ao visitante materiais articulados aos eixos curatoriais da exposição, reunindo um conjunto de imagens, vídeos, áudios, textos, ilustrações e propostas de atividades.

Novos protocolos
A visitação é gratuita, mas é necessário reservar a data e horário pelo site do Memorial (http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/memorial/). Devido à pandemia, o público deverá seguir um novo protocolo de acesso, conforme detalhamento abaixo. A instituição também funcionará em horário reduzido, das 12h às 18h, de quarta a segunda.
As mudanças são para garantir a saúde e a segurança de todos.
Visitação apenas com reserva de data e horário pelo site http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/memorial;
Antes de entrar no Memorial, todos terão a temperatura aferida. Quem estiver com medição acima de 37,2° e/ou mostrar sintomas e gripe/resfriado será orientado a buscar ajuda médica e não poderá acessar o prédio;
Uso obrigatório de máscaras;
É proibido retirar a máscara durante a visita, inclusive na hora de fazer uma selfie;
Os espaços terão álcool gel para a higienização das mãos;
Sinalização indicará o sentido de circulação e o distanciamento mínimo de 1,5m entre pessoas;
Horário reduzido de funcionamento, de quarta-segunda das 12h-18h. 

SERVIÇO

Memorial da Resistência de São Paulo

Endereço: Largo General Osório, 66, Luz.

Ingresso: Grátis, mas é preciso reserva a data e horário de visitação pelo site www.memorialdaresistenciasp.org.br.

Orgulho e Resistências: LGBT na ditadura

Período: até 26 de abril de 2021

Classificação indicativa: 12 anos

Fonte: Memorial da Resistência