MASP: PRIMEIRA MOSTRA INDIVIDUAL DE LUIZ ZERBINI EM UM MUSEU EM SP

Artista se apropria de clássico dispositivo expográfico de Lina Bo Bardi para criar uma experiência imersiva

O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand apresenta, de 1º de abril a 5 de junho de 2022, a mostra Luiz Zerbini: a mesma história nunca é a mesma, que ocupa o espaço expositivo do 2º subsolo do museu. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico, e Guilherme Giufrida, curador assistente no MASP, a exposição traz um conjunto de cerca de 50 trabalhos, entre pinturas, monotipias, gravuras e desenhos, em sua grande maioria inéditos, distribuídos em uma expografia-obra projetada em diálogo com a arquitetura do espaço. Trata-se da primeira exposição individual de Zerbini, um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, em um museu em São Paulo, sua cidade natal. Ressaltando o interesse do artista pelos aspectos da botânica, as obras retomam narrativas apagadas das histórias brasileiras com o intuito de reconstruí-las a partir de novas imagens e protagonistas.

Luiz Zerbini (São Paulo, 1959) mudou-se para o Rio de Janeiro no início da década de 1980 e começou também nesse período sua trajetória artística. Ao longo do tempo, sua pesquisa em uma variedade de técnicas, passando por experimentações em pintura, colagem, vídeo e instalação, tornou-se uma marca em sua obra. Esta exposição, mesmo que não retrospectiva, engloba trabalhos e questões prementes do artista, que, de certo modo, o acompanham desde o início de sua produção. A mostra busca criar novas paisagens para a história do Brasil por meio de uma experiência imersiva composta de pinturas, monotipias e objetos da natureza.

Sua mostra individual parte de uma pintura do artista realizada em 2014, denominada A primeira missa, comissionada para a coletiva Histórias mestiças, realizada no mesmo ano no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Nessa obra, “Zerbini questiona o imaginário produzido pela célebre pintura Primeira missa no Brasil (1860), de Victor Meirelles (1832-1903), reinventando a imagem e a própria narrativa dos primeiros dias do famigerado encontro entre invasores e indígenas no início do processo colonial brasileiro”, comenta o curador Guilherme Giufrida. O sentido de reconstrução da história é, nesse caso, o deslocamento do ponto de vista: agora, pretende-se enxergar por meio de outros sujeitos, sejam humanos, vegetais ou animais, a cena dessa invasão de mundos provocada pela chegada dos portugueses.

Como descreve Giufrida, “o artista assume o gesto de agenciar imagens que se solidificaram como ilustração de fatos que foram, na verdade, inventados por elas. Trata-se assim de reimaginar as histórias, atribuindo-lhes novas representações, fazendo emergir outras ideias e protagonistas”. A exposição, portanto, pretende se valer desse procedimento para abordar momentos e embates da história do país. Exemplo disso são as quatro novas pinturas de grande dimensão, elaboradas especialmente para a mostra: Massacre de Haximu (2020), Paisagem inútil (2020), Rio das Mortes (2021) e Canudos não se rendeu (2021).

Ao conjunto de pinturas vem se somar uma seleção de dezenas de monotipias da série Macunaíma (2017), concebidas para uma edição do romance Macunaíma: o herói sem nenhum caráter (1928), de Mário de Andrade (1893-1945). Nelas, Zerbini traduz a narrativa do livro de Andrade — que conta a história de vida de um sujeito indígena e suas intensas transformações — a partir da apropriação da vegetação nativa do cenário do protagonista, evidente nos suportes em papel.

Além delas, a individual também integra duas obras instalativas — uma delas trazendo raízes de plantas do ateliê do artista —, além da própria expografia, uma apropriação de um clássico dispositivo — uma grande estrutura modular de madeira — desenhado por Lina Bo Bardi (1914-1992) para a mostra Cem obras-primas de Portinari (1970), de Candido Portinari (1903-1962), no MASP, com alterações no desenho e intervenções de pintura propostas por Zerbini.

Cada vez mais interessado, nos últimos anos, em questões de botânica e discussões (inclusive filosóficas) ao redor do universo vegetal, o artista passou a refletir o tema em sua produção desde a década de 2000, nela incluindo tanto um diálogo quanto uma preocupação com a causa e as demandas das populações indígenas, sobretudo no combate ao garimpo e outras formas de invasão de territórios desses povos na atualidade.

Luiz Zerbini: a mesma história nunca é a mesma integra o biênio de programação do MASP dedicado às Histórias brasileiras, em 2021-22, por ocasião do bicentenário da independência do Brasil, em 2022. Este ano, a programação inclui também mostras de Abdias Nascimento (1914-2011), Dalton Paula, Joseca Yanomami, Madalena dos Santos Reinbolt (1919-1977), Judith Lauand e Cinthia Marcelle, além de uma grande coletiva, Histórias brasileiras.

SOBRE LUIZ ZERBINI
Luiz Zerbini nasceu em São Paulo em 1959 e vive e trabalha no Rio de Janeiro. Em 1982 formou-se em Belas Artes pela Fundação Armando Alvares Penteado, em sua cidade natal. Começou a estudar pintura desde cedo, com José Van Acker, e mais tarde também fotografia com Carlos Moreira e aguarela com Dudi Maia Rosa. Membro da chamada Geração 80, que voltou a promover a pintura como principal meio de expressão artística, muitos de seus primeiros trabalhos foram pinturas. Desde então tem trabalhado com escultura, vídeo, desenho e fotografia. Em 1984, participou da icônica exposição Como vai você, Geração 80?, no Parque Lage, no Rio de Janeiro.

Em 1995, recebeu o Grande Prêmio de crítica na categoria artes visuais da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Em 2015, apresentou uma importante exposição individual no Galpão Fortes Vilaça, em São Paulo. Recentemente, também foi objeto de pesquisas na Casa Daros, no estado do Rio de Janeiro (2014); no Instituto Inhotim, em Minas Gerais (2013); e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (2012).

Zerbini expôs em galerias e museus em todo o Brasil e no mundo e representou o país em Bienais notáveis, incluindo Bienal de São Paulo (2010 e 1987); Bienal do Mercosul (2001); Bienal de La Havana (2000); e Bienal Internacional de Cuenca (1996). Nos últimos anos, participou de algumas exposições na Fondation Cartier pour l’art Contemporain, em Paris. Hoje, vem desenvolvendo uma forte relação com a floresta amazônica, tendo visitado a região algumas vezes, incluindo uma comunidade indígena no Parque Indígena do Xingu, em 2014. Essa relação influenciou o vocabulário de sua pintura e o início da produção de monotipias, em 2016. O artista também faz parte do renomado grupo Chelpa Ferro, que participou da 20 a Bienal de São Paulo.

CATÁLOGO
Acompanhando a mostra, será publicado um catálogo sobre o artista num único volume bilíngue, contendo ilustrações de todas as obras exibidas, textos inéditos de Adriano Pedrosa, Clarissa Diniz, Frederico Coelho, Guilherme Giufrida, Kleber Amancio, Lilia Moritz Schwarcz, Manuela Carneiro da Cunha e Naine Terena. Com design de Elisa von Randow e Yasmin Dejean, da Alles Blau, ganhará impressão em capa dura, a R$ 175. A publicação será vendida com 20% de desconto no MASP Loja, online ou física, cumulativo com o desconto do programa Amigo MASP.

SERVIÇO
LUIZ ZERBINI: A MESMA HISTÓRIA NUNCA É A MESMA
1.04 — 5.06.22
MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Avenida Paulista, 1578 — Bela Vista
01310-200 São Paulo, SP
Telefone: (11) 3149-5959
Horários: terça grátis Qualicorp, das 10h às 20h (entrada até as 19h); quarta a domingo, das 10h às
18h (entrada até as 17h); fechado às segundas
Agendamento online obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos
Ingressos: R$ 50 (entrada); R$ 25 (meia-entrada)
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Fonte: MASP