MAC apresenta as várias faces de Gustavo von Ha

2.gustavo von ha no MAC

Pintor, cineasta e ilusionista, o artista cria um homônimo e questiona a identidade e os mitos na história da arte apresentando 34 trabalhos inéditos no Museu de Arte Contemporânea da USP.

 

Não é uma exposição linear para olhar, apreciar e descobrir o artista. Inventário: Arte Outra, com 34 trabalhos recentes – entre telas, vídeo, fotos e objetos – de Gustavo von Ha, está longe do óbvio. O artista gestual que se anuncia pintando telas pequenas e depois gigantes também não é real. Gustavo Von Ha é um homônimo. Um artista inventado pelo paulista da cidade de Presidente Prudente. Porém, a proposta da arte do homônimo e de seu criador tem versões infinitas que ficam no limite entre realidade e ficção. Uma verdade que ele consegue reinventar com ironia e humor.

 

Tudo que ele apresenta é inédito, mas não é original. Pelo contrário. O pensador e pesquisador Gustavo von Ha define: “Somos seres complexos e nossa formação se dá inteira pela imitação”. A sensação, ao entrar na galeria, é de observar um artista em formação. Na primeira sala, há telas pequenas de quem ainda está percebendo o espaço. Trabalha com camadas de tintas sobrepostas. Já na segunda, há telas de grandes dimensões com uma trama de cores de uma pintura gestual. Ele estende a lona no chão e pinta em gestos largos de uma dança ou performance. As cores vibrantes e o desenho que sugere imagens como a do vento sobre as folhas das árvores – paisagem reforçada pelo vídeo que está na última sala – chamam a atenção do visitante.


“Os trabalhos aludem ao mito de um gesto artístico heroico”, explica a curadora da mostra, Ana Avelar, professora da Universidade de Brasília (UnB) e pós-doutoranda no MAC. “Desta vez, para discutir noções como cópia, simulação e apropriação, Von Ha escolhe a visualidade da pintura gestual – não geométrica, não figurativa, também conhecida como expressionista abstrata, abstrato-lírica ou informalista.” Para a montagem da exposição, Ana acompanhou e pesquisou Von Ha no decorrer de três anos. “A mostra traz uma seleção de imagens que provocam a sensibilidade e seduzem pela cor e pelo gesto. É essa apreensão que o artista intenciona desestabilizar.”


Como uma mostra didática que tenta resgatar o cenário da trajetória de um grande artista, o visitante pode ver vitrines com os materiais que ele utiliza, como pincéis, tintas, espátulas, vidros com pigmentos e esponjas do mar. “Alguns desses materiais foram realmente usados e outros não.”

Na terceira sala, há mais vitrines com documentos, fotografias, livros, cadernos do artista e um manual deComo fazer um Pollock, em uma evocação a Jackson Pollock, um dos pioneiros do expressionismo abstrato norte-americano. Um inventário que acaba intrigando o visitante. Afinal, quem é Gustavo von Ha? Está vivo ou morto?

 

Diante dos jornais, cartazes reais, inclusive da 5ª Bienal de São Paulo de 1959, a confusão aumenta. Nas contas com a realidade, percebe-se que o artista não é o mesmo Von Ha que nasceu em 1977. As evidências indicam que o homônimo viveu as poéticas daquela época. “As obras remetem a uma visualidade inscrita a partir do segundo pós-guerra, entre os anos 1950 e 1960, comumente denominada abstração expressiva ou gestual, pintura de ação, informalismo ou pintura matéria”, esclarece a curadora Ana Avelar. “Quase como um falsificador, Von Ha se apropria de procedimentos, modos de fazer e mesmo da imagem de outros artistas, em trabalhos que evocam de Jackson Pollock a Alberto Burri. São citações e comentários de uma imagem genérica que pautou essa pintura de grande repercussão durante o segundo pós-guerra e que é celebrizada mesmo nos dias de hoje.”

 

Ana ressalta que o homônimo do artista não recria obras, mas produz imagens possíveis. “As matrizes para essas simulações não são escolhidas aleatoriamente. Ele seleciona aquilo que interessa apropriar. Não se trata de uma apropriação apenas da visualidade, mas ainda dos procedimentos aos quais recorriam os principais nomes da pintura abstrato-expressiva.”
A exposição mostra ao visitante o processo de produção das obras. O manual Como fazer um Pollock está ali, inventariando o fazer. Ao criar o homônimo e suas obras, o verdadeiro artista alerta, como esclarece a curadora, para a mitificação contemporânea do artista e da arte a partir da posição de um falsificador. “Ele aponta para o clichê que vigora ainda hoje como imitação, simulação e entretenimento, uma vez perdida a característica transgressora do gesto. Ficamos nesse lugar sem contornos, entre a sedução da pintura e nossa necessidade de um autor e um original, de uma verdade da expressão que garantisse a permanência da aura da obra de arte.”

 

Serviço:
Exposição Inventário: Arte Outra, de Gustavo von Ha,
Curadoria de Ana Cândida Avelar,
Período: até 5 de fevereiro de 2017,
Horário: de terça-feira a domingo, das 10h às 18h
Local: Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP (avenida Pedro Álvares Cabral, 13-1, Ibirapuera, São Paulo, telefone (11) 2648-0254).
Entrada grátis.
 
 
Fonte: Jornal da USPPor Leila Kiyomura 
Imagem: divulgação