Lisboa sedia o 8º Encontro Iberoamericano de Museus

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Coube à luminosa cidade de Lisboa albergar durante três dias de outubro (13 a 15) o 8º Encontro Iberoamericano de Museus. Sob uma chuva copiosa reuniram-se representantes dos diversos países da América Central, Caribe, América do Sul e da Ibéria. As águas do Tejo agitavam-se perante o vento do outono quando, depois das palavras de acolhimento dos anfitriões, António Pinto Ribeiro, organizador das excelsas conversas “Próximo Futuro” da Fundação Calouste Gulbenkian lança o desafio de “descolonizar os museus”. Abordando a problemática das relações históricas que formam a unidade cultural desse mundo, questiona a formação dos seus museus e interroga-se sobre a necessidade de num mundo que refere, talvez já de forma anacrónica “pós-colonial” repensar os objetos dos museus.

O questionamento sobre o lugar e a função dos objetos nos museus do futuro foi efetivamente uma das inquietações que o encontro mostrou. Uma preocupação que acompanhou os quatro painéis que se debruçaram sobre a necessidade de formação dos profissionais de museus e de modos de trabalhos em rede; a análise das questões da cidadania e participação em museus; dos problemas da era da digitalização; e dos programas de gestão museológica em contexto de economias em ajustamento estrutural e seus efeitos nas políticas públicas para museus.

Cada uma destas questões foi tema dos painéis temáticos, onde cada membro das delegações nacionais presentes teve oportunidade de intervir. No final de cada painel um confortável período de debate permitia à audiência interpelar cada um dos oradores, permitindo precisar e esclarecer questões relevantes.

Mônica Barcelos coordenadora da Unidade Técnica do Ibermuseus apresenta, em linhas gerais os diversos objetivos programáticos. Apoio á ação educativa constitui um dos programas mais acarinhados pelos membros do Ibermuseus, dada a sua dimensão estruturante na atividade e ação museus dos diversos museus. Um outro programa, o “Apoio ao Património Museológico em Risco”, vai criando um conjunto de práticas que capacitam a intervenção de profissionais em situações de catástrofe natural ou na procura da sustentabilidade das diferentes qualidades de objetos patrimoniais e museológicos.

Um terceiro programa, de Apoio a Projetos de Curadoria, procura estimular a produção e divulgação de projetos de natureza regional que contribuam para estimular a identidade regional e inter-regional, no âmbito da diversidade cultural e duma cultura de paz. Um quarto programa é o “Observatório Ibero-americano de museus”.

O programa “Observatório Ibero-americano de museus” avalia a produção e a gestão do conhecimento sobre os museus e as políticas públicas na área da Ibero-américa e tem vindo a reunir dados e sínteses que abordam a complexa realidade da ação museal.

O programa de “formação e capacitação” procura fazer o balanço da oferta formativa na área da museologia, promove e incentiva a criação de políticas públicas de formação de profissionais de museus e organiza cursos, acões de formação e oficinas de museologia ao mesmo tempo que incentiva e apoia o intercâmbio de profissionais. Os oradores convidados no oitavo encontro representavam as diferentes instituições universitárias que em Portugal se dedicam à formação pós-graduada em Museologia e Estudos do Património. A ação do Programa completa-se com os “projetos multilaterais” que concretizam ações de cooperação entre diferentes países, sobre temas de interesses comum transnacional.

No âmbito das discussões dos painéis, Clara Camacho apresenta a síntese do seu trabalho de doutoramento “Da cooperação às redes de museus: um mosaico heterogéneo no panorama europeu”. Clara, para além da organização operacional deste evento, foi também durante vários anos responsável pela Rede Portuguesa de Museus, que durante alguns anos foi referência institucional para vários países. A realidade portuguesas, devido ao desinvestimento nas políticas públicas culturais por parte do Estado, deixou de ser referência. No entanto a abordagem da complexidade e da diversidade dos mecanismos de relação intermuseal nos vários países europeus não deixa de ser um importante contributo para analisar as formas de relações entre museus para incrementar e potenciar a sua ação. A realidade museal ibero americana é todavia bastante diferente da europeia. Um dos fatores dessa diferença relaciona-se com o papel do museu na afirmação do Estado Nação e a dos processos identitários locais. Esses são processos ainda muito fortes, com vários países, como o Brasil, o Uruguai, o Chile, Honduras e El Salvador a procurarem criar redes de participação e cidadania através dos seus museus.

Já no mundo ibérico, tal como na Europa, como a conferência de Augusto Santos Silva “sobre os museus face aos seus públicos” demonstra, o desinvestimento dos estados nacionais em políticas culturais públicas tem levado a uma diminuição das atividades de parceria e relação com as comunidades dos seus museus nacionais, sendo este papel cada vez mais assumido por redes de participação cidadã, ao nível local ou regional. Estes pequenos museus de comunidades constituem hoje, na realidade Ibérica, laboratórios de participação e cidadania. Um movimento que parece ter escapado na análise de Santos Silva, muito centrada em dados estatísticos sobre numero de visitantes, embora se tenha esforçado por procurar encontrar respostas para novos movimentos presentes em museus das grandes metrópoles.

Os oradores seguintes, praticamente todos oriundos do diversificado mundo dos museus americanos, contribuíram com essa leitura, mostrando a relevância da atividade criativa na construção dos nossos espaço urbanos. Várias intervenções mostraram como museus e instituições de memória não devem ser analisados apenas numa óptica de organizações prestadoras de serviços à comunidade, mas também como espaços de encontro da comunidade na produção de arte urbana e catalisadores da ação cidadã.

O segundo dia foi dedicado aos desafios da digitalização nos museus. A revolução digital instalou-se nos processos de comunicação, na produção de acervos, no tratamento dos inventários, no relacionamento com as comunidades, nos processos expositivos. Os desafios são muitos. A grande questão que se coloca no desafio do digital é a grande pressão que os museus têm vindo a sentir para criar uma “espetacularização” dos seus processos expositivos. A maioria dos participantes considera que esse é um caminho que deve ser percorrido com cautela. Várias são as razões, sendo as questões financeiras e tecnológicas os seus maiores inconvenientes. Para muitos museus a produção de base tecnológica é dispendiosa e rapidamente se torna obsoleta.

Um exemplo do potencial dos meios digitais é a interoperabilidade entre sistemas de catalogação. Uma possibilidade que permite aos diferentes profissionais da rede iberoamérica de acederem a vastos recursos de investigação. Por exemplo o sistema CERES1 – Coleções em Rede, da Rede Digital de Coleções de Museus em Espanha, poderá ser compatibilizada com o sistema Matriz 2 português poderão em breve estar conectados. Existem diversos projetos de regiões em Espanha que já estão ligadas através de redes digitais3. O projecto Europeana 4 que liga pontos de cultura na Europa poderá ser num curto espaço de tempo um exemplo a seguir entre os museus da Iberoamérica. Por tudo o que está acontecer não é aconselhável deixar de explorar as vantagens do digital na organização museal.

Emergiu entre os participantes uma largo consenso de que a questão chave que orienta o museu na era da digital é a sua capacidade de se constituir como espaço de encontro. Explorar as suas virtualidades como local de concretização de relações humanas a partir dos objetos patrimoniais é um desafio permanente. Esse deve ser o seu paradigma orientador nas suas relações com a digital.

O quarto e último painel lançou a desafio do “enfrentamento da crise política” e contou com uma conferência de Sofia Tsilidou, membro do Grupo NEMO, Rede Europeia de Organizações de Museus, que se propôs pensar os museus em tempo de crise. A questão das crises nos museus é complexa. No caso europeu e em particular na Ibéria, a crise financeira tem induzido uma forte diminuição no financiamento público das organizações museais. Noutros espaços a crise pode ser social ou política. Vários são os países na Ibero América onde os museus representam plataforma de diálogo para a reconstrução social e prática duma cultura de paz. Noutros casos, como sobressae no casos das Antilhas, a crise situa-se mais na capacidade dos museus e outras organizações patrimoniais de dialogarem com o setor turístico, para, através do acesso à recursos financeiros, intervirem e criaram animação e atração turística em centros urbanos. As complexas relações entre a cultura e o turismo continuam a pontuar as preocupações dos profissionais dos museus. Um diálogo que vai paulatinamente prosseguindo.

Dois dias e meio de intenso diálogo que produziram a “Declaração de Lisboa”. A declaração lida por Ângelo Oswaldo Araújo Santos, presidente em exercício do Ibermuseus e atual Presidente do Instituto Brasileiro do Museus reflete bem a riqueza da discussão e debate. A ideia força que a conferência acentua é a grande capacidade dos museus para gerarem encontros. Essa linha conduzirá o Ibermuseus a profundar as suas redes de parceria, a procurar cruzar saberes e experiências, a promover formas e canais de comunicação entre profissionais e entre os museus e os cidadãos. Acentua-se nessa declaração a relevância da função social dos museus para a construção de uma cidadania ativa e responsável. Recomenda por isso aos poderes públicos a adoção de políticas públicas integradas para assegurar a sustentabilidade social dos museus. Considera ainda que os museus são espaços de inclusão social e aconselha o uso das ferramentas digitais para aprofundar o empoderamento das comunidades.

 

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1 Ceres

2 Matriz Net

3 Portal Museos de Andalúcia

4 Europeana