Exposição “Avante São Paulo!” leva fotografias do acervo do CMU a Limeira

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São Paulo, a locomotiva do Brasil”. A expressão, familiar à maior parte dos brasileiros, é uma síntese da imagem de progresso e modernização que caracteriza o território paulista. Poucos têm dimensão, no entanto, dos esforços empreendidos para que a região se consolidasse como “a terra prometida” de imigrantes e migrantes que para cá vinham (e ainda vêm) em busca de trabalho ou de uma vida melhor.

A exposição “Avante São Paulo! A documentação fotográfica da Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas” é uma oportunidade de vislumbrar, por um lado, a importância do órgão na construção desta imagem progressista do estado e, por outro, o caráter estratégico da fotografia para a difusão da política de modernização e desenvolvimento agrário e urbano em curso na região durante a Primeira República (1889-1930). Realizada em parceria com o Centro de Memória – Unicamp (CMU), a exposição acontece no Espaço Cultural Engep (Largo da Boa Morte, 118), na região central de Limeira-SP. Aberta no dia 4 de setembro, a visitação segue no local até o dia 27 novembro, de segunda a sexta, das 9 às 18 horas, e aos sábados até as 13 horas, com entrada franca.

De acordo com Paulo Masuti Levy, diretor do Espaço Cultural Engep e diretor geral do evento, a mostra permite compreender a política de modernização como reflexo do sentimento republicano que marcou o período, e vai de encontro à intenção do espaço de, por meio de eventos culturais e educativos gratuitos, contribuir para o fortalecimento da identidade e da cidadania. Já para Maria Elena Bernardes, diretora do CMU e coordenadora geral da exposição, a iniciativa permite, neste trigésimo ano do Centro, dar mais um passo na direção de uma de suas principais missões, que é difundir o acervo para além do meio acadêmico, dando visibilidade a uma coleção que muito tem a dizer sobre a história de São Paulo.

Um projeto político em imagens

Quando foi criada, em 1892, a Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas era o mais importante instrumento de atuação do governo estadual no campo econômico. Repercutindo os ideais republicanos e a estrutura ministerial da Federação, abrangia projetos e iniciativas em diversos setores: da agricultura à indústria, do comércio às obras públicas, dos transportes às comunicações, passando ainda pelas políticas de imigração, colonização e concessão de terras.

Cássia Denise Gonçalves, coordenadora técnica do CMU e uma das curadoras da exposição, explica que o projeto político da Secretaria da Agricultura era complexo e abrangente. Foi tanto fundamental para a sedimentação de um imaginário promissor sobre a região – que visava principalmente atrair mão de obra imigrante, demanda crescente após a abolição do trabalho escravo no país –, quanto para implantação de novas técnicas e conhecimentos que buscavam modernizar a produção agrícola em São Paulo. Prova disso é a permanência de estruturas criadas dentro da Secretaria como referências para o desenvolvimento do estado, como é o caso do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP). “Os homens que estavam à frente da Secretaria e seus projetos eram pessoas muito bem formadas, tinham um projeto muito bem definido, e sabiam como chegar lá”, afirma.

Foi durante a gestão do médico e político Carlos Botelho, entre 1904 e 1907, que a fotografia se tornou uma importante estratégia de publicidade e registro das iniciativas da Secretaria. “Como ele cria o Serviço de Informação e Difusão, e também quer incrementar o serviço de propaganda no exterior, para atrair a mão de obra imigrante e poder concretizar o projeto que eles tinham, é que ele vai investir neste serviço [de produção fotográfica]”, contextualiza Cássia Denise.

Além de ilustrar os relatórios, as fotografias também eram utilizadas nos guias e publicações destinadas aos imigrantes e nas publicações técnicas que instruíam os agricultores. Para tanto, a Secretaria da Agricultura buscou contratar fotógrafos profissionais, como foi o caso de Guilherme Gaensly, um dos mais importantes profissionais do período, e um dos poucos cuja autoria conseguiu ser verificada. Mais que meros registros das ações e iniciativas da Secretaria, as fotografias seriam, na visão de Gonçalves, representações carregadas de intenções ideológicas e políticas. “Eles queriam mostrar a realidade mais perfeita possível. Por isso, não vejo essas imagens como registros do real. Elas gravitam mais em torno do simbólico”, completa ela.

A coleção da Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas foi transferida ao CMU pelo IAC em 1994. Ao todo, são 24 álbuns, que reúnem cerca de 2.700 fotografias tiradas entre 1896 e 1925 aproximadamente, além de livros e publicações do órgão até então guardadas pela biblioteca do IAC. A escolha do CMU para salvaguardar os materiais que estavam no Instituto Agronômico levou em consideração a existência de uma infraestrutura técnica e de pessoal que permitisse sua conservação e disponibilização para pesquisa.

“Avante São Paulo!”

A exposição que acontece em Limeira foi organizada em três eixos ou temas principais. João Paulo Berto, arquivista do CMU e integrante da equipe curadora, explica que, num primeiro momento, a intenção foi contextualizar a própria Secretaria, contando um pouco de sua história e sua estrutura: “Buscamos mostrar a Secretaria como um dos mais importantes centros de planejamento territorial e urbano do estado”, afirma.

No segundo eixo, a curadoria reuniu imagens dos Núcleos Coloniais, que mostram como eram as plantações e as moradias à época, e como viviam os imigrantes que ali fixavam residência, seja por meio da compra de lotes, de arrendamentos ou da prestação de serviços nas fazendas da região.

Conforme Ana Cláudia Cermaria, também arquivista do CMU e curadora da exposição, no terceiro eixo foram selecionadas imagens de dois álbuns sobre o primeiro Recenseamento Federal do século XX. “O Censo de 1920 buscava levantar não somente informações demográficas, mas também a situação econômica do país”, conta. Os resultados, segundo ela, confirmaram a proeminência do estado de São Paulo, que em relação ao levantamento anterior, de 1890, apresentou um aumento populacional de 231%, com mais de 4,5 milhões de habitantes.

A equipe curadora ainda buscou contemplar cenas de diferentes cidades do estado: além de Limeira e Campinas, há fotos de Guarujá, Santos, Araras, Americana, Salto, São Carlos, Rio Claro, Pirassununga, Bragança Paulista, entre outras. Ao todo, foram selecionadas cerca de 70 fotografias, devidamente tratadas, e ampliadas em diferentes formatos especialmente para o evento. Além das imagens, também são expostas publicações e objetos que ajudam a entrever um período extremamente importante da história do estado. A organização do evento ainda preparou um catálogo, com textos e imagens sobre a exposição, e três diferentes modelos de cartões postais, que serão distribuídos gratuitamente ao público.

A exposição é uma realização do Espaço Cultural Engep em parceria com CMU, e contou com o apoio da Associação Pró-Memória de Limeira e da Biblioteca Paulo Masuti Levy. A direção de arte e coordenação executiva é de Ivo Marreiro.

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SERVIÇO:
Exposição “Avante São Paulo!”
Onde: Espaço Cultural ENGEP – Largo da Boa Morte, nº 118, Centro – Limeira (SP). Telefone: (19) 3404-1600.
Visitação: De 5 de setembro a 27 de novembro de 2015. Segunda a sexta, das 9 às 18h. Sábados, das 9 às 13h.
Entrada: gratuita.

Texto: Juliana Oshima Franco.
Imagens: Coleção Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo / Centro de Memória – Unicamp.
Fotografias da exposição: Leandro Costa.