Dos museus para as ruas

N1 Marcelo Araújo
Araujo no La Casserole, restaurante que frequenta desde os tempos de estudante de direito

Quando o recém-formado advogado Marcelo Mattos Araujo resolveu conhecer o mundo, o pé na estrada de Jack Kerouac (1922-1969) já estava convertido em rito de passagem pavimentado para jovens de famílias tradicionais. Era necessário viajar antes de embarcar de vez no mundo adulto, e reservara um ano para circular pela Europa e arredores. Em plena Tel Aviv (Israel), no entanto, o rapaz pegaria uma rota desviante, única em sua vida. Foi dentro do então recente Museu da Diáspora (Beit Hatfutsot – The Museum of the Jewish People), e sob seu impacto, que Araujo decidiu: “O que eu quero mesmo da vida é trabalhar em museu!”

Em 1980, o futuro, para o futuro museólogo e secretário de Estado da Cultura de São Paulo, era continuar seguindo tranquilamente os passos do pai. Ele mesmo, durante os cinco anos em que atuou na área, cuidou de centenas de questões extremamente específicas do escritório paterno – recursos de segundo grau de casos de acidente do trabalho. “Gosto muito do direito como espinha teórica, mas o exercício foi uma área que acabou não me interessando”, dirá Araujo, de 56 anos, durante o almoço para este “À Mesa com o Valor”.
A guinada de carreira apenas alterava o foco. Relações fiéis com o trabalho seriam uma constante. No primeiro empregador na nova ocupação, o Museu Lasar Segall, ficou por 20 anos. Em seguida, foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo por uma década até receber convite do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), para a secretaria.

“Quando eu contava que queria ser museólogo, as pessoas falavam: ‘Mas você vai trabalhar com música?'” (risos). Naquele momento, era uma profissão pouco conhecida, que nem era regulamentada, distante do boom atual de mais de dez cursos de graduação no país. O processo foi rápido e pragmático. “Cheguei em 23 de dezembro [de 1980] e, em fevereiro, me inscrevi no curso de pós-graduação [da Escola de Sociologia e Política de São Paulo]. Comecei em março e, no comecinho de abril, já entrei no estágio no Museu Lasar Segall.”

“Minha família achou um pouco estranho perder um filho advogado e ganhar um filho museólogo”, conta o ex-aluno do colégio de elite paulistana Dante Alighieri e da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP). “Mas depois, enfim, me apoiaram. Não foi nenhum grande problema.”

Quase 30 anos depois, Araujo fornece amostras do temperamento contemporizador da família. Às 13h04 de uma quinta-feira, quatro minutos após o horário previsto, e com a mão na entrada do La Casserole, escolhido por ele para o encontro, este repórter atende o celular. É a assessora do secretário avisando que já aguardam no restaurante.

Aplicado, diplomático e conciliador. Os adjetivos mais usados pela comunidade artística e pela mídia para saudar Araujo com otimismo quando seu nome foi anunciado para o cargo, em abril do ano passado, se justificam já nos cumprimentos. O secretário e a assessora Renata Beltrão estão esperando à mesa de quatro lugares, em frente da grande foto das margens do rio Sena, Paris. É um dos lugares mais estratégicos deste tradicional francês do largo do Arouche, centro de São Paulo. “Tudo bem. Está perfeitamente dentro do previsto”, diz o secretário ao repórter, que logo chega pedindo desculpas.

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Fonte: Valor Econômico