Diversidade com adversidades: a cultura em situação

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Nas múltiplas redes de paradoxos que entrelaçam desejo e repressão, necessidade e satisfação, a alienação prossegue em contiguidade com o progresso científico e tecnológico e com a perpetuação de uma desigualdade estúpida, quando comparada com a ampla riqueza produzida mundialmente. Compõe tal situação um excesso plasmado de determinado vigor regressivo que persiste sobre o poder cultural de Eros.
Luiz Palma[2]


Luiz Palma. Eros Cultura. 2002.

É possível pensar a cultura para além de um conceito e tê-la como um signo[3] que indica um mais além de toda a objetividade? Como não se trata de um simples objeto, mas de uma força social ambivalente, insistimos ardentemente em deslindá-la para reafirmar sua incondicionalidade. Em “A ideia de Cultura”, Eagleton[4] pressupõe cultura como uma incessante procura ativa – “a palavra sugere, então, uma dialética entre o artificial e o natural, aquilo que fazemos ao mundo e aquilo que o mundo nos faz (…). Trata-se, assim, não tanto de desconstruir a oposição entre cultura e natureza quanto de reconhecer que o termo «cultura» é já, em si mesmo, essa desconstrução”.

A multiplicidade de entendimentos e aplicações do termo é parte de uma luta legítima por reconfiguração social e cultural na sociedade presente, abalada por crises sucessivas de inúmeras ordens. Canclini[5] enumera quatro vertentes que se destacam nesse cenário: a cultura como a forma com que determinado grupo situa sua identidade; a cultura ligada a valores, como uma instância simbólica de produção e representação da sociedade, capaz de desenvolver processos de significação; numa terceira vertente, a cultura compreendida como configuração de consenso e hegemonia, que detém o poder de qualificar ou desvalorizar o que quer que seja; e a cultura como “dramatização eufemizada” de conflitos sociais, ou seja, que reflete em suas manifestações – na música, no teatro, na dança e em outras linguagens, o poder e as lutas de diferentes classes sociais. Para esse autor, é necessário avançar no deslindar da cultura, a fim de explorar como as aproximações que narram seus vínculos com a sociedade, com o poder, a economia, com a produção, poderiam ser conjugadas e articuladas uma com as outras. Os próprios conceitos e palavras mudam de significado, extraídos de suas raízes semânticas originais são ressignificados pelo espírito do tempo, o que requer maior dose de atenção e rigor. Seguindo pelo raciocínio da semelhança à diferença, da desigualdade e da desconexão da cultura, cada realidade cultural possui uma lógica própria, a qual caracteriza ações, práticas, costumes, concepções e demais forças de manutenção ou transformação social.

Cabe ainda reafirmar que a relatoria foi pensada como um texto crítico, embora não se trate de retomar cada fala ou a própria conversação a partir de um determinado modelo teórico, mas tentar ir além do relato descritivo do acontecimento. Pôr-se mesmo em busca da intensificação da razão e da sensibilidade, que nos parece encoberta pela generalidade de um estado de coisas universal. Por outro lado, a análise crítica não recusa o componente utópico e aberto às contradições e ambigüidades, próprias do que estamos discutindo, ou seja, a sustentabilidade cultural em museus.        

O webnario foi conduzido por Davidson Panis Kaseker, museólogo, diretor do GTC SISEM-SP. Sua fala inicia-se por agradecer a presença na programação de cada uma das pessoas convidadas para as exposições do dia: Márcio, Franco e Renata, a audiência virtual do público e o fundamental apoio da Equipe ACAM Portinari pela atuação em todas as fases do evento. Cita a relatoria crítica de Luiz Palma e colaboradoras, assim como saúda os integrantes da equipe do SISEM. Em seguida apresenta a trajetória acadêmico-profissional dos enunciadores, mencionando também as possibilidades de participação da audiência com perguntas e observações. Sob sua coordenação e com suas contribuições conceituais e práticas advindas de sua larga vivência como gestor e estudioso da política cultural, especialmente no campo museal, a atividade realiza-se em ambiente virtual e compreensivamente participativo, pois é o meio possível e desafiador para vocalizações e debates nesse estágio da pandemia do Covid 19.

Para abrir as falas Davidson repõem a questão com vistas a orientar o início das apresentações, o mediador relembrou que,no ano de 2005, a Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais (UNESCO) já estabelecia a diversidade como patrimônio cultural, comum da humanidade, em benefício de toda a sociedade. Sobre essa premissa, ocorreriam os debates do presente evento: como a diversidade contribui para a cultura?

Os registros seguem a direção de fala do programa.

Márcio Farias. Professor e pesquisador. Graduado em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2011). Mestre e Doutorando em Psicologia Social na PUC-SP com vinculação ao NUTAS (Núcleo de Estudos e Pesquisa Trabalho e Ação Social). Professor convidado do Celacc (Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação) Eca/ USP. Membro do colegiado do Instituto Amma Psique e Negritude. Membro de Comissões de Avaliação de Ações Afirmativas em Concursos Públicos para a Fundação Carlos Chagas. Foi coordenador do Núcleo de Desenvolvimento Institucional do Museu Afro Brasil.

Inicia por dizer que esse é um momento de verdade cultural multi-étnica: ideia de universal? O que é isso? Menciona a lembrança de um colega, pesquisador de Emília Viotti da Costa, que sempre cita uma frase da autora: “Crises são momentos de verdade”. Traça, então, um paralelo com o período atual de confinamento, que evidencia os dilemas sociais e a tentativa de resolução de problemas que estruturam nossa nação como um todo. No Brasil a entrada tardia na modernidade, com a Semana de 1922 chega com a insígnia da diversidade cultural e já dispunha dos conceitos de universalidade, sendo seu discurso da identidade nacional consolidado ao longo do século XX. Contudo, se o país, em tese, já emerge sobre esse alicerce, o que acontece na contemporaneidade que requer a rediscussão desse tema?

Qual o sentido das instituições museais trazerem o debate da sustentabilidade cultural? Pelo nosso atraso institucional a arte compareceu no Brasil como reveladora das contradições sociais, quase como uma ciência social. No Brasil, a arte como elemento civilizatório ainda se mostra pertinente, mas a população negra não se vê representada, pois mesmo assim está nos estereótipos. Exemplifica com a exposição de Tarsila do Amaral no MASP (2019) com a afirmação do movimento por uma identidade nacional e a retomada dos pontos modernistas. Comenta Márcio que se tratou mais de uma revolução cultural formal (estética), pois a representação étnica não se efetiva e comparece como imagens estereotipadas.  Nesse mal estar social presente, nos diz que cabe o olhar atento à sociedade americana que traz questões e debates sobre relações raciais. Na luta pelos direitos civis entre muitas ações, o boicote ao consumo foi uma operação estratégica e coordenada de enfrentamento ao racismo. A população negra passou a deixar de adquirir produtos advindos de empresas e serviços signatários do racismo e da segregação racial. Décadas mais tarde, em virtude da crescente demanda de um setor que consumia cultura, mas não se via representado, o filme Pantera Negra alcançou o mais alto patamar de acesso e consumo desse grupo, que exigia criticamente uma representação mais digna quanto ser.

De sua experiência no museu Afro Brasil[6], Marcio diz que o cuidado com a história da escravidão e a população negra e as respostas às questões em causa são ímpares, por meio de Emanuel Araújo, propõe a mão afro-brasileira como mão civilizatória, não só do trabalho, mas do traço estético, trazendo uma resposta às contingências do tempo. Os artistas negros com suas obras estão ali, mas poderiam estar em outros museus. No Brasil não se compreende nossas origens. O brasileiro tem dificuldade com a “escravidão” porque sua elaboração se deu por fontes escapistas. Para a psicanálise, diz citando um amigo psicanalista, a problemática do trauma não resolvido, considerando seu papel e incidência na alteridade e na cultura, sempre retorna. Está no contemporâneo – raça como variável de distinções materiais e simbólicas. Reconhecemos a mestiçagem como origem, mas o destino, histórico por suposto, deveria ser outro. O destino, até pouco tempo, era a Europa. No processo brasileiro o negro afirma-se como “o ser da cultura”. Algo como servir a cultura para entreter. Preconceitos estão em muitas concepções. Cita a razão helênica, por exemplo, como uma suposta qualidade de distinção da população do hemisfério Norte: ser racional. No Sul, somos os negros, mestiços, índios, os seres da emoção. É preciso inverter a ideia do universal para o particular porque o racismo, visto pelo ângulo filosófico, tenta impor a destituição de humanidade do negro. Aqui ao relator cabe lembrar o que foi e continua sendo feito também com os índios brasileiros nos seguidos processos de evangelização, pois, o “selvagem” não tem alma. Marcio assevera com convicção que certos conceitos não servem mais para interpretar o Brasil e o brasileiro. Deixa uma esperança ao dizer que o mal estar poderá nos levar a algo diferente.

Davidson (mediação). Muitas colocações incríveis com referências importantes; presença da diversidade de fato deve estar em todos os museus públicos. A população negra freqüenta mais o museu Afro Brasil do que outros museus? Ao que Marcio responde afirmativamente e acrescenta: “o museu Afro está também no imaginário e importa para as pessoas que não foram ainda”. O debate público está recrudescendo e isso é importante”.

Franco Reinaudo. Coordenador do Museu da Diversidade Sexual, São Paulo, primeiro espaço da América Latina e terceiro do mundo, sobre a temática LGBT. Graduado em Gestão de Empresa Turística pelo “Istituto delle Scienze Turistiche” Florença, Itália e Marketing pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Cursou Filosofia, Língua e Literatura Inglesa na PUC/SP. Ativista pelos direitos da população LGBT desde os anos 1990, ajudou na construção da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Fundou e dirigiu a ABRAT (Associação Brasileira de Turismo LGBT). Desenvolveu o Programa Mais Orgulho, projeto inédito do Governo do Estado que apóia Paradas do Orgulho LGBT no interior e litoral do Estado.

Inicia sua fala a partir de considerações de Marcio Faria na questão da diversidade indagando como incluir essas populações em nossa sociedade que é hétero-normativa e branca? Apresenta dados sobre a violência contra o público LGBT, divulgada no jornal Correio Braziliense. O Brasil é o país que contém a maior porcentagem de violência contra a população LGBT do mundo, sendo que, a cada 20 horas, morre um LGBT de maneira violenta. Neste contexto, nasce o Museu da Diversidade Sexual, criado em 2012 e formalizado por decreto em 2018. Chama a atenção para o fato de que museus como o Memorial da Resistência, Afro Brasil, da Diversidade Sexual foram criados a partir do Estado, e demandas da sociedade civil organizada com a redemocratização e a Constituição Cidadã de 1988 e hoje trabalham com a temática dos direitos humanos, fazendo parte de uma política pública, o que impacta diretamente no reconhecimento das mesmas.

Com isso os museus se posicionam contra a violência de populações discriminadas. O movimento do Orgulho Gay começa e cresce na América do Norte nos anos 1960/70 e nos anos 1980 com o advento da Aids é fortemente estigmatizado como a “peste gay”. Período complicado, com caixões lacrados e exclusões de toda sorte. Os doentes não eram cuidados, a família escondia porque a sociedade considerava a homossexualidade como algo negativo. O museu da Diversidade Sexual busca trazer a história e dar visibilidades aos fatos. O museu fica dentro da estação do Metro República e a arquitetura proposta na época tinha a fachada como “portas de armários”. Tal fachada, no projeto de design aludia às falas populares sobre “sair do armário”; na verdade, o projeto parecia sugerir que a comunidade LGBT estava “voltando para o armário”. Uma alusão indesejada. Hoje, o Museu é absolutamente aberto, sem barreiras de acesso, feito assim a pedido da comunidade, assim como, gratuito. Uma porta aberta. O fato de estar no Metro é importante uma vez que mostra a história da comunidade LGTB em um espaço de passagem. Chama atenção como um corpo estranho e aberto que atrai todo o tipo de pessoas. Muitas pessoas entram pela primeira vez “em um museu”. No início o museu sofreu ataques. Franco menciona que o Museu da Diversidade se trata de um corpo incômodo na cidade, que causa as reações mais diversas, mas, principalmente, a violência e a discriminação. Expõe boletins de ocorrência sobre agressões sofridas pela instituição ou na instituição. A relação com o Metro é de parceria em atividades conjuntas, divulgações, campanhas. A sustentabilidade econômica do Museu é complexa, mas conta com custos mais baixos de muitos insumos artísticos e técnicos porque a comunidade LGTB se envolve, assim é com os artistas e também com as empresas de membros da comunidade. 

Atuamos basicamente em três frentes: primeira, o ativismo e faz referência a exposição “Todos podem ser Frida”, onde os visitantes puderam vestir um figurino e realizar registros fotográficos. Tal ação atraiu públicos dos mais diversos perfis. Fala da participação do Museu no Programa “Sonhar o Mundo” da UPPM/SEEC quando o museu expôs uma grande plotagem sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos que causou reações surpreendentes em pessoas passantes que nunca haviam tido contato com uma “carta” de seu próprio direitos. Essa exposição sobre direitos ensejou boas discussões que foram levadas depois para o interior e o litoral do estado.

Na segunda frente, a educação, a escola pública tem recorrido ao museu para lidar com questões da homossexualidade na educação escolar. Um fato importante na evolução da própria sociedade. Outras programações do Museu: “Caio, mon amour” – com distribuição de textos do autor para os passantes e os interessados. As pessoas ficavam satisfeitas em conhecer e voltavam com comentários. “Devassos no Paraíso” – Parada do Orgulho LGBT de 2019 que contou a história do movimento.

Terceira frente, o engajamento – ampliação na própria comunidade e em outros grupos. Mostras diversas com jovens artistas. “Solidão Homo” – com artistas mais conhecidos para a curadoria dos temas. Atividades diversas, sensibilizações, lançamento de livros, e assim, seguindo na busca por articulação com outros espaços. O museu atua fora do espaço também, por exemplo, para participar ativamente da Parada do Orgulho LGBT que durante a realização aumenta a presença nos museus da cidade. Bloco de Carnaval que atualmente desce a Rua Augusta com mais de 20.000 pessoas. O MDS realiza três exposições por ano, mas não tem acervo permanente por falta de espaço. São 100m² de área. Muito bem aproveitados. São Paulo, com o Museu da Diversidade Sexual e também com uma das maiores “Parada do Orgulho LGTB” do mundo é vista com uma imagem de passagem e também de destino para o turismo LGBT porque é considerada nessa visão como uma cidade receptiva e respeitosa. Turistas de muitas partes e não só da comunidade LGTB, chegam ao museu com esse relato. A diversidade é fundamental. “Deixamos os becos da noite, viemos para o dia e agora estamos com o Museu da Diversidade Sexual para a construção de uma sociedade mais justa”. E Franco com genuíno orgulho nos diz, “- não deixem de ver a exposição virtual do MDS”[7].

Como relator, sinto/penso que alcançamos diante da confluência cultural das tendências homoafetivas mencionadas, algo como uma evolução criadora com a intuição do sensível e do esclarecimento do saber.

Renata Cittadin – Atualmente, atua como museóloga no Memorial da Inclusão (São Paulo – SP) discutindo o empreendimento e o exercício de processos museológicos menos excludentes. Tem graduação em Museologia e mestrado pelo Programa Interunidades de Pós-Graduação em Museologia da Universidade de São Paulo, onde desenvolveu estudos sobre a gestão de museus e a consolidação do campo museológico em Santa Catarina. É membro do Conselho Gestor do Sistema de Museus de Santa Catarina. Coordenou o Museu Nacional de Imigração.

Renata chama a atenção dos temas menorizados no próprio campo museal referindo-se às manifestações que a antecederam e acrescentando questões do movimento social de deficientes, marcado por exclusão. Quer entender “sustentabilidade” como um conceito amplo e não só ajustado às questões da gestão. Por que um Memorial da Inclusão? Porque a sociedade é altamente excludente. Criado em 2009 e hoje vinculado a Secretaria de Direitos Humanos do estado de São Paulo, teve em 2018 publicado o decreto que reconhece todos os processos museológicos realizados na instituição e a formaliza. Localizado no Memorial da América Latina, em São Paulo, encontra-se sediado no antigo Parlatino. O trabalho no Museu tem uma abordagem acentuada na discussão atitudinal, na educação e nas memórias de outros tempos, agregando funções que aliam a experiência prática com a teoria, com objetivo de sensibilizar sobre a importância dos direitos humanos, da inclusão, da acessibilidade e do reconhecimento à diversidade humana. Busca-se memorializar o movimento social de pessoas com deficiência, marcado por exclusão e lutas por direitos nos anos 1970/80 em busca de uma organização política por direitos. O acervo do Memorial da Inclusão[8] é constituído de documentos e narrativas assim como, por depoimentos. A luta por direitos prossegue, “criamos e recriamos pautas que se renovam”. Buscam-se mecanismos de aproximação com nossos públicos. Há uma queda de paradigmas constantes em um grande campo de atuação que é o universo dos deficientes. Os números mundiais de PCD são gigantescos, algo em torno de 80 milhões dos quais a maioria encontra-se em países pobres – boa parte no Brasil. Em São Paulo ainda assim a população de PCD tem visibilidade, mas, ainda insuficiente diante do apagamento e do preconceito estrutural. Renata reforça que temos que ir além de PCD como público, alcançá-las como sujeitos de direitos a uma vida comum. A relação do Museu com o entorno territorial ainda não se dá como poderia ser. Busca-se empreender o sustentável como processo museológico menos excludente. E Renata interroga: – onde estão nossas ações? Como interpretar nos nossos acervos as pessoas com deficiência? Trata-se de produzir sem excludência, ir além da acessibilidade atitudinal e comunicacional. É preciso insistir no museu social e inserir de fato o modelo da diversidade. Faz-se primordial que os museus entendam que boa parte das pessoas com deficiência foram impedidas de acessar e protagonizar suas próprias vidas. Nesse sentido, a museologia precisa criar meios de comunicação e troca efetivos, devendo, não apenas, promover a inclusão, mas também saber debater os processos de exclusão. A pandemia trouxe ao Memorial da Inclusão desafios diversos para a continuidade de suas atividades de forma virtual, considerando que seus meios de comunicação ainda não são adequadamente acessíveis. A instituição tem buscado capilarizar a busca por coletivos em todo o território do estado de São Paulo, procurando levantar quais são as referências patrimoniais existentes na luta pelos direitos civis das pessoas com deficiência fora da Capital. O museu vem atuando, ainda, no reconhecimento da luta por direitos às pessoas com deficiência como um patrimônio cultural do estado de São Paulo. Hoje, a equipe vem trabalhando com “processos museológicos acessíveis”, ressaltando a importância dos colegas de trabalho portadores de deficiência e sua enorme contribuição para a observação de detalhes, de forma que o museu se torne o menos excludente possível. Cita os seguintes questionamentos: como pensar em uma rota de fuga para uma pessoa com deficiência visual? Como tornar a reserva técnica acessível? Como desenvolver processos documentais acessíveis? Como uma pessoa com deficiência pode acessar o acervo por meio do banco de dados? Como pensar as atividades de salvaguarda, pesquisa e comunicação transversalmente acessíveis, entendendo a pessoa com deficiência não só como público, mas como protagonista dos processos? Ressalta que, ser acessível às outras instituições é uma regra; para o Memorial é um dever. 

Davidson (mediação). Como o exercício da diversidade cultural poderá contribuir para a sustentabilidade nos museus? Temos que insistir no comprometimento com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e perseguir os dezessete objetivos[9].

Mas, no portal do tempo-espaço dos anos 20 do século XXI, o mundo que experimenta a globalização material e política e mais a de um vírus biológico mortífero, e que está potencializado pelas redes sociais para alcançar soluções emergenciais para evitar a catástrofe maior, encontra-se em boa parte regido pela opacidade de podres poderes. Embaralham-se informação e desinformação, opinião e conhecimento propugnando uma euforia alienada e escapista de curta duração e a caminho do desânimo com a política e a depressão psicológica. Com a amplitude da conexão virtual conjugada com o cerceamento da vida física dentro/fora da redoma sanitária preventiva, encontram-se compulsoriamente nesta contradição todas as gerações vivas em situações culturais, educacionais e econômicas extravagantes, para dizer o mínimo. E ainda na tragédia maior de abandono e miséria estão os excluídos históricos e os desterrados políticos de guerras e perseguições contemporâneas.

Nesse fluído ambiente emergencial que se vive e se atua e que gera novidades e surpresas a todo instante, o pesquisador, o gestor e o ativista cultural não podem prescindir do pretérito civilizacional de positividades e negatividades e também da dinâmica da inovação científica e tecnológica para planejar e alcançar novos horizontes. Nessa parte reflexiva da relatoria crítica, mobilizada de forma direta ou indireta nesse relator por cada um dos oradores e nas observações do mediador e da audiência, termino por dizer que não há e nem haverá “ferramenta” transformadora. Aqui o exigido significa a passagem da indignação ética à ação ético-política, da dialética das idéias à vida que tendo atingido a palavra justa, sabe que tudo resta por fazer. Essa reflexão é exigida na ordem do existencial. Sem isso o conjuntural conduz a dança para o retorno às coisas mesmas do soberano estrutural.



[1] Por Luiz Palma, psicólogo social e artista visual, técnico da UPPM, com a colaboração Ana Carolina Xavier Ávila, da Equipe ACAM Portinari de Apoio ao SISEM-SP.

[2] In: Arte e psique: um poder sem majestade. P.63. São Paulo: Escuta, 2019.

[3] Na definição peirceana, o signo ou representâmen é um primeiro que está em genuína relação com um segundo, o objeto, com o intuito de determinar um terceiro, o interpretante. PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e filosofia. São Paulo: Cultrix, 1975.

[4] Terry Eagleton. A ideia de cultura. Temas e Debates. Lisboa: Actividades Editoriais, 2003.

[5] Néstor García Canclini. Diferentes, desiguais e desconectados. Rio de Janeiro :UFRJ, 2006.

[6] http://www.memorialdainclusao.org.br/br/o-memorial-da-inclusao/

[7] http://www.mds.org.br/exposicoes2/

[8] http://www.memorialdainclusao.org.br/br/o-memorial-da-inclusao/

[9] http://www.agenda2030.org.br/sobre/