Coleção de etnógrafo brasileiro é destaque no MOWBrasil

 

 

O Ministério da Cultura (MinC), por meio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), recebeu o reconhecimento do Programa Memória do Mundo pelo acervo do pesquisador brasileiro Arthur Ramos. Coordenado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em parceria com MinC, o Memory of the World (MOW) premiou ainda mais sete coleções documentais de diversas áreas culturais durante evento promovido em Brasília. 

Representante do ministro da Cultura na cerimônia, o presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), Marcelo Araújo, afirmou que a premiação do programa Memória do Mundo é um dos mais significativos reconhecimentos para os acervos documentais e bibliográficos da memória brasileira. “O registro dá luz à relevância desses acervos no âmbito da cultura nacional, permitindo que haja uma maior dinamização dessas coleções nas suas múltiplas vertentes institucionais, sejam eles sediados em museus, em arquivos ou em bibliotecas”, destacou. 

Na avaliação de Araújo, a premiação deste ano trouxe algumas surpresas de grande notoriedade, como o arquivo do Circo Garcia do Centro de Memória do Circo. “É a primeira vez que um acervo circense recebe uma homenagem como esta. Esse fato isolado já é, a meu ver, uma evidência da abrangência adequada do aspecto cultural que esses arquivos revelam em termos da diversidade e da vitalidade da cultura brasileira”, disse.

Para o presidente do Ibram, o fato de o Comitê incorporar diferentes arquivos, de várias partes do País, traz novas perspectivas para o setor cultural e engrandece todo o patrimônio cultural brasileiro. “Um bom exemplo também é o certificado concedido à Fundação Biblioteca Nacional, pela coleção do pesquisador Arthur Ramos. Isso evidencia a necessidade de valorização daquela que é um dos maiores repositórios da memória do Brasil em todas as áreas. Com essa premiação a Biblioteca vê reconhecida a diversidade da sua atuação”, declarou. 

 6.mincselomemoryoftheworld

Arquivo Arthur Ramos

Um dos mais ativos pesquisadores sociais e etnográficos do País, o médico Arthur Ramos escreveu, entre 1926 a 1949, 458 trabalhos. Toda sua produção foi vendida à Biblioteca Nacional em 1956, parte pela viúva, Luiza Ramos, parte pela Universidade do Brasil. O vasto arquivo contém correspondência do titular e de terceiros, recortes de jornais, folhetos, fotografias, originais manuscritos, pesquisas e estudos sobre educação, medicina legal, psiquiatria, psicologia, sociologia, antropologia, folclore e etnografia. 

Para a representante da Fundação Biblioteca Nacional, Ana Lúcia Merege, que recebeu a premiação pela BN, o pesquisador é um personagem histórico admirável por sua contribuição a vários campos de conhecimento, especialmente, para as ciências humanas e sociais. “Ele promoveu uma verdadeira revolução nos estudos sobre a África e sobre os afrodescendentes. Foi integrante da Unesco, médico dedicado às questões psiquiátricas. Ao longo dessas décadas, ele escreveu vários artigos, livros, fez relação com as tribos africanas, trocou correspondências com folcloristas como Edison Carneiro e com o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger”, enfatizou. 

Arthur Ramos chegou a integrar vários movimentos de valorização do negro no Brasil, sendo fundador de algumas entidades de combate ao racismo. “Ramos é uma pessoa pouco conhecida fora do meio acadêmico. Por essa razão, a Biblioteca Nacional pretende finalizar a digitalização da obra dele para que o público externo, de qualquer parte do mundo, possa ter acesso”, pontuou Ana Lúcia. 

 

Patrimônios

O Centro de Memória do Circo, única instituição premiada dedicada exclusivamente às artes circenses, recebeu o reconhecimento do Comitê pelo acervo do Circo Garcia, que atuou no Brasil e em diversos países do mundo durante 75 anos. Coordenado por Verônica Tamaoki, o centro guarda cerca de 50 mil peças da tradicional companhia, entre figurinos de palhaços, material tridimensional e fotografias. “O circense, apesar da poeira das estradas, da fuligem dos trens da maresia e do passar do tempo, guardou seu patrimônio material. Para nós, é fundamental o agraciamento de um acervo que é, realmente, muito interessante”, agradeceu. 

Outros acervos premiados na noite de ontem foram o de Jean-Pierre Chabloz, referente à Batalha da Borracha, apresentado pelo Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará; o arquivo da Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos, 1983-2016; o arquivo Público do Estado de São Paulo; a coleção de Obras Raras da Biblioteca Mineiriana do Instituto Cultural Amilcar Martins, apresentado pelo Instituto Almicar Martins; o Conjunto Documental Companhia Empório Industrial do Norte, 1891-1973, apresentado pelo Arquivo Público do Estado da Bahia, da Fundação Pedro Calmon; os Dissídios Trabalhistas do Conselho Nacional do Trabalho: Um Retrato da Sociedade Brasileira da Era Vargas, apresentado pelo Tribunal Superior do Trabalho; e o Pensar o Brasil: A Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1839-2011, apresentada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 

Programa Memória do Mundo

Criado pela Unesco em 1992, o Programa Memória do Mundo (Memory of the World – MOW) reconhece documentos, arquivos e bibliotecas de grande valor internacional, regional e nacional. O Comitê Nacional do Brasil da Memória do Mundo foi instituído no âmbito do Ministério da Cultura, por meio de uma portaria editada em 2004. 

O diretor do Departamento de Promoção Internacional (Deint) do MinC, Adam Muniz, esclarece que o simples ato de registrar um acervo como algo possuidor de um valor excepcional-universal e que, portanto, precisa ser conservado para gerações futuras, já é uma medida de salvaguarda desse patrimônio. “Para o Ministério da Cultura, participar do Comitê Memória do Mundo é muito importante. Esse programa foi internalizado no ordenamento jurídico brasileiro por um ato do MinC, que tomou a dianteira da proteção e preservação do legado documental brasileiro. Além do mais, é mais uma evidência do nosso engajamento com um programa que é mundial”, ponderou.

Composto por 18 membros, eleitos a cada dois anos, o Comitê reúne representantes de diversos órgãos ligados à cultura e à pesquisa, como o MinC, a Fundação Biblioteca Nacional, o Ibram e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Anualmente, o Comitê MoWBrasil lança um edital para candidaturas de acervos a serem reconhecidos como patrimônio para a memória brasileira por meio de sua inscrição no Registro Nacional do Brasil do Programa Memória do Mundo. Até o momento, foram registradas 91 coleções documentais no Brasil. 

Os acervos escolhidos são divulgados, no Diário Oficial da União, por meio de uma portaria editada pelo Ministério da Cultura, que reconhece a decisão do Comitê. Com a autorização do escritório da Unesco em Paris, é preparada a logomarca Memória da Humanidade, que poderá ser utilizada em todo material de divulgação do acervo premiado. “O registro brasileiro permitirá, caso haja interesse, a apresentação de um pleito para o reconhecimento internacional, o que ampliaria ainda mais a dimensão de uma determinada coleção documental”, complementa Muniz.

 

Fonte: Assessoria de Comunicação | Ministério da Cultura