Tradução e psicanálise em encontro na Casa G. de Almeida

De 15 a 17 de setembro, a Casa Guilherme de Almeida realiza o evento “Transfusão – VII Encontro de Tradutores da Casa Guilherme de Almeida”. A iniciativa, que debate as relações entre a arte da tradução e a psicanálise, é gratuita e reúne uma série de especialistas de ambos os segmentos. A concepção é de Simone Homem de Mello, com organização e mediação dela e de Marcelo Tápia.

Tradutores, psicanalistas, editores e pesquisadores se pronunciam sobre a relevância do discurso (meta)psicanalítico para o pensamento da tradução, sobre mecanismos tradutórios na prática analítica, bem como sobre motivos literários que migraram para a conceituação psicanalítica. O propósito do encontro é apresentar diferentes abordagens de uma relação interdisciplinar fundamental para os Estudos da Tradução hoje.

Confira a programação:

Sexta-feira, 15 de setembro de 2017

19h | Abertura
TRANSFUSÃO – VII EDIÇÃO
Por Marcelo Tápia (diretor da Casa Guilherme de Almeida) e Simone Homem de Mello (Coordenadora do Centro de Estudos de Tradução Literária da Casa Guilherme de Almeida)

19h30 | Lançamento
HISTÓRIAS EM IMAGENS E VERSOS: WILHELM BUSCH TRADUZIDO POR GUILHERME DE ALMEIDA
Por Simone Homem de Mello (São Paulo)

Uma leitura reservada até então às crianças e fora de catálogo há muito tempo chega ao público adulto brasileiro: vinte narrativas em imagens e versos criadas nas décadas de 1860 e 1870 pelo alemão Wilhelm Busch, precursor das histórias em quadrinhos, e traduzidas pelo poeta Guilherme de Almeida nos anos 1940 tornam-se novamente acessíveis numa edição bilíngue, comentada e acrescida de manuscritos de tradução. O livro lançado pela Ateliê Editorial, em coedição com a Casa Guilherme de Almeida, apresenta a recepção de Busch no Brasil e as técnicas tradutórias de Guilherme de Almeida, bem como um comentário crítico sobre cada história em imagem e verso.

Sábado, 16 de setembro de 2017

10h30 | Palestra
TRADUÇÃO, TRANSFERÊNCIA, TRANSMISSÃO
Por Claudia Berliner (São Paulo)

O termo alemão Übertragung condensa o que se nomeia “transferência” e “tradução”, bem como certa ideia de “transmissão”. A palestrante transitará pelas implicações subjetivas, culturais e políticas que essas experiências pressupõem, a partir de reflexões sobre a obra de Janine Altounian, ensaísta e tradutora de Sigmund Freud.

14h | Mesa-redonda
TOPOI LITERÁRIOS E A DESCRIÇÃO DA PSIQUE

Por Érica Wels (Rio de Janeiro)
A palestrante aborda o trânsito entre a psicanálise e a literatura, enfocando o Freud leitor. Meticuloso e apaixonado leitor de Shakespeare, Schiller, Hoffmann, Heine e Dostoiévski, Freud absorveu em seus textos fragmentos de inúmeros autores, com seus rastros e suas ricas imagens. Da maior influência em língua alemã – Goethe –, Freud tira o fascínio pelo cientista e pelo poeta, incorporando, por exemplo, elementos do primeiro Fausto à sua metapsicologia, que inclui princípios, modelos teóricos e conceitos fundamentais da clínica psicanalítica.

Por Mariana Ribeiro de Souza (Brasília)
O livro Imago (1906), do escritor suíço Carl Spitteler (1845-1924), causou grande impacto no incipiente meio da psicanálise, tendo levado Carl Gustav Jung a adotar o termo imago em sua conceituação. A tradutora da obra para o português abordará sua estratégia para reconstituir as vozes internas do protagonista Viktor nessa narrativa psicológica em que o eu literário aparece decomposto em diversos níveis.

Por Saulo Krieger (São Paulo)
A palestra do tradutor de A vênus das peles (1870) versará sobre modos pelos quais Sacher-Masoch teria traduzido a si mesmo e a seu tempo. Tê-lo-ia feito como literatura que deveria ser lembrada não apenas pelo caráter simbólico de sua temática? Seria possível pensar Masoch como tradutor fiel de seus próprios complexos e necessidades psíquicas? Além disso, em registro bem mais amplo, será abordado o modo como o autor teria traduzido o século XIX, no qual se passou a compreender que as outrora “paixões” já não podiam ser suplantadas ou isoladas pela razão. De Sacher-Masoch como tradução à tradução de sua obra mais emblemática, também serão trazidos aspectos da tradução e divulgação d’A vênus das peles no Brasil.

Por Luiz Augusto Contador Borges (São Paulo)
O tradutor de obras do Marquês de Sade parte, nesta palestra, do princípio de que tradução não é exatamente o espírito nem a letra de uma obra, mas antes o desejo de escrita que se insinua na leitura e acaba se convertendo num desejo do próprio tradutor. Em suas considerações, apontará que o tradutor jamais consegue eliminar a margem pela qual toda tradução se afirma como diferença e não como semelhança da obra vertida para a sua língua.

17h | Mesa-redonda
LINGUAGEM E TRADUÇÃO EM/DE FREUD E LACAN

A linguagem impura da histeria
Por André Carone (São Paulo)

Partindo de exemplos retirados de sua tradução de Estudos sobre a histeria (1893-1895), de Sigmund Freud, o palestrante questiona se a linguagem da histeria – que estaria na origem da psicanálise – também não se faria presente na linguagem da própria psicanálise. Entre a linguagem das pacientes histéricas (que sempre pareceu confusa, corporal e incompleta) e a linguagem teórica do analista existe uma zona cinzenta na qual os conceitos e os fenômenos se embaralham e parecem formar uma só linguagem. A criação da psicanálise não é o produto da habilidade de Freud para fabricar conceitos que decifram o mistério da histeria a uma distância segura. Pelo contrário, a linguagem teórica da psicanálise precisou incorporar as formas de expressão da histeria para que pudesse existir e, por consequência, “decifrá-la”.

A construção dos Seminários de Jacques Lacan
Por Patrícia Chittoni Ramos Reuillard (Porto Alegre)

Os Seminários de Jacques Lacan apresentam uma série de particularidades que provocam não somente grandes dificuldades para o estabelecimento do texto em francês, mas também uma série de problemas para sua tradução: estilo “gongórico”, extrema “manipulação sintática”, concomitância de registros de língua, incontáveis referências literárias e culturais, empréstimo de conceitos de áreas distintas (até sua alteração radical), frases inconclusas, inflexões, pontuação duvidosa, posto que sujeita à interpretação de seus ouvintes, o “delírio do significante” e, por fim, a abundância neológica extraordinária. Nesta apresentação, a palestrante compartilhará dados de uma pesquisa sobre a construção do texto lacaniano e sobre seu processo de criação lexical.

Domingo, 17 de setembro de 2017

14h | Palestra
ENTRE A FONTE E O ALVO. OU O (NÃO) LUGAR DO TRADUTOR
Por Ana Helena de Staal (Paris)

Partindo da sua experiência de psicanalista e tradutora que vive e trabalha numa língua estrangeira, a palestrante aponta a importância de certo desenraizamento do tradutor, relativizando assim a problemática das precedências entre a fonte e o alvo. Tal posição, transicional ou em modo menor, é aquela que, ao aceitar a perda da prioridade ou da pureza do materno, expõe a obra traduzida à agitação do mundo e atribui ao leitor a liberdade do criador.

16h30 | Palestra
NÃO HÁ METALINGUAGEM A NÃO SER NA TRADUÇÃO
Por Ana Laura Prates Pacheco (São Paulo)

Desde que Jakobson propôs a expressão “função metalinguística”, a questão de uma língua que fala de outra interessou a Lacan, que realizou uma interlocução com a linguística durante todo o seu ensino. Lacan sempre sustentou que não existe metalinguagem, já que nenhuma linguagem pode dizer o verdadeiro sobre o verdadeiro. Em 1977, entretanto, ele surpreende ao perguntar: “o que é que isso quer dizer, a metalinguagem, se não for a tradução?” A ideia de um impossível da própria língua foi bastante desenvolvida por linguistas tocados pelo ensino de Lacan. A palestrante sustentará a ideia de que, para além das limitações próprias da tradução, há também ganhos significativas quando se transita entre línguas encarnadas.

Conheça os palestrantes:

Ana Helena de Staal é psicanalista, membro da Sociedade de Psicanálise Freudiana (SPF) e tradutora. Com formação em Filosofia e Psicanálise, foi editora-chefe da revista Chimères, fundada por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Atualmente dirige Les Éditions d’Ithaque, publicando obras de filosofia da mente e ciências humanas. Nesse contexto, traduziu para o francês alguns dos grandes autores da psicanálise contemporânea, como W. R. Bion, Thomas Ogden, Christopher Bollas e Antonino Ferro. Sua prática clínica é essencialmente voltada para o tratamento dos distúrbios psicossomáticos e dos ditos “casos difíceis”.

Ana Laura Prates Pacheco é psicanalista há mais de 20 anos. Realizou sua formação acadêmica, especialização, mestrado e doutorado no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado sobre a escrita e a letra no ensino de Lacan na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Atualmente é pesquisadora convidada do Labeurb/Unicamp. No Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo leciona nas Formações Clínicas e coordena a Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância.

André Carone é tradutor e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Suas pesquisas têm como centro a obra de Freud e suas relações com a filosofia.

Claudia Berliner é formada em Ciências Sociais e Psicologia. Atua como psicanalista e tradutora do espanhol, do francês e do inglês, bem como revisora técnica de livros de psicanálise e intérprete de conferencistas psicanalistas. Entre os autores que traduziu constam Aulagnier, Bergson, Cassin e Badiou, Castoriadis, Dolto, Fédida, Green, Kaës, Lacan, Laplanche, Merleau-Ponty, Nasio, Pontalis e Ricoeur. Tem artigos publicados nas coletâneas Tradução e Psicanálise (2013), Conversas com tradutores (2003), na Revista 32 da APPOA, além de uma tradução crítica dos cinco primeiros capítulos do Seminário 11 de Jacques Lacan em quatro números do Correio APPOA.

Érica Wels tem bacharelado em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com habilitação em Jornalismo, bacharelado e licenciatura em Letras (Português/Alemão), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestrado e doutorado em Letras Vernáculas por essa mesma universidade. Desde 2011 é Professora Adjunta de Língua Alemã no Departamento de Letras Anglo-Germânicas, Faculdade de Letras, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tem trabalhos acadêmicos em suas áreas de interesse: Psicanálise e ensino, Psicanálise e literatura.

Luiz Augusto Contador Borges é graduado, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor em Letras pela Université Paris-Diderot. Como pesquisador dessa universidade, participou do Centre d’Etudes et de Recherces Interdisciplinaires de I’UFR Lettres, Arts, Cinéma (Cerilac). Atualmente se dedica ao estudo das teorias literárias do pós-estruturalismo francês, com ênfase na erótica textual barthesiana. É coordenador e tradutor da coleção “Pérolas Furiosas”, dedicada às obras do Marquês de Sade. Também traduziu autores como Gérard de Nerval, René Char e José Kozer. Como escritor, publica poesia, ensaio e teatro.

Marcelo Tápia, poeta, ensaísta e tradutor, é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Autor de cinco livros de poemas – reunidos no volume Refusões (2017), traduziu, entre outras obras, o romance Os passos perdidos (ed. Martins / Martins Fontes, 2008), de Alejo Carpentier. É professor do Tradusp – Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da FFLCH-USP. Dirige os museus Casa das Rosas e Casa Guilherme de Almeida, além de orientar a Oficina Cultural Casa Mário de Andrade, instituições da Secretaria de Estado da Cultura que integrarão, a partir de janeiro de 2018, a Rede de Museus-Casas Literários de São Paulo.

Mariana Ribeiro de Souza é bacharel em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), licenciada plena em Letras (Língua e Literatura Inglesa) pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e mestre em Língua e Literatura Alemã pela Universidade de São Paulo (USP). Traduziu Imago (2016), de Carl Splitteler, O cego Geronimo e seu irmão & Tenente Gustl (2016), de Arthur Schnitzler, Uma família feliz (2013), de David Safier, e Os últimos dias da humanidade (no prelo), de Karl Kraus. Vive em Brasília, onde trabalha como tradutora e servidora pública.

Patrícia Chittoni Ramos Reuillard é bacharel e mestre em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e doutora em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pela Université de Paris III, com a tese Neologismos Lacanianos e Equivalências Tradutórias. Professora do Departamento de Línguas Modernas e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS, atua nas áreas de Tradução Teórica e Aplicada, Terminologia e Lexicografia (neologia lacaniana). Traduziu mais de 250 títulos da área de Ciências Humanas, entre os quais História da Guerra Civil Russa (no prelo), de Jean-Jacques Marie.

Saulo Krieger é tradutor há 20 anos. Além de A vênus das peles, entre suas traduções publicadas ou no prelo constam ensaios de Freud e sobre Freud, Natã, o sábio, de Theodor E. Lessing, e obras de Axel Honneth, da Escola de Frankfurt. É graduado em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorando em filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), tendo sido bolsista Capes na Université de Reims Champagne-Ardenne, com pesquisa sobre o caráter fisiopsicológico do fenômeno dionisíaco em Nietzsche.

Simone Homem de Mello é autora e tradutora literária. Sua poesia está publicada nos livros Périplos (2005), Extravio marinho (2010) e Terminal, à escrita (2015) e em antologias brasileiras e estrangeiras. Escreveu os libretos das óperas Orpheus Kristall (Munique, 2002), Keine Stille auβer der des Windes (Bremen, 2007) e UBU – Eine musikalische Groteske (Gelsenkirchen, 2012). Como tradutora, dedica-se à poesia moderna e contemporânea de língua alemã. Coordena o Centro de Estudos de Tradução Literária da Casa Guilherme de Almeida e a Pesquisa do Acervo Haroldo de Campos, na Casa das Rosas.

Fonte: Casa Guilherme de Almeida