Bienal de Arquitetura de Veneza revê Brasil modernista

Hospital da rede Sarah construído por João Filgueiras Lima o Lelé em Brasília

Hospital da rede Sarah, construído por João Filgueiras Lima, o Lelé, em Brasília

Uma nova modernidade —brasileira— nasceu em solo tropical. Da austeridade cartesiana de Brasília às influências regionais na obra de Lina Bo Bardi, a arquitetura antropofágica do país será revista em seu pavilhão na próxima Bienal de Arquitetura de Veneza, a partir de junho.

Num desafio aos 65 países que participam da mostra nos Giardini, em Veneza, o arquiteto e curador holandês Rem Koolhaas pediu que cada um investigasse a “absorção” da linguagem modernista em suas arquiteturas nacionais.

“É olhar desde os índios e o barroco até a modernidade e ver como tudo isso se integrou”, diz André Corrêa do Lago, embaixador do Brasil no Japão, responsável pela representação nacional em Veneza. “Vou mostrar a arquitetura moderna como busca pela identidade do país.”

Sua seleção, que vai de Oscar Niemeyer a projetos do programa Minha Casa, Minha Vida, terá 180 fotografias, plantas e desenhos de 50 arquitetos do país, num arco histórico de quase cem anos.

“Nossa tradição é a modernidade”, diz o curador. “Mas quero uma reavaliação crítica da linguagem moderna.”

Ou seja, não será mais uma ode à monumentalidade de Niemeyer, morto há dois anos, nem a exaltação de aspectos consagrados do modernismo brasileiro, hoje fetichizado e canibalizado por arquitetos contemporâneos.

“Esses cânones atuam de uma maneira quase intimidadora para novos caminhos”, diz Rodrigo Loeb, que terá seu projeto da biblioteca Brasiliana da USP, realizado em parceria com Eduardo de Almeida, na seleção oficial.

Nesse ponto, a obra de João Filgueiras Lima, o Lelé, famoso por hospitais cheios de curvas e aberturas ousadas ao entorno, entra como uma espécie de ponte entre os arroubos formalistas da primeira fase do modernismo no país e o uso desse repertório em obras mais funcionais.

“Lelé veio da tradição de Niemeyer e deixa isso reverberar na obra dele, mostrando que a beleza e a forma podem estar a serviço de algo objetivo”, diz Corrêa do Lago. “Quero mostrar como o país que construiu Brasília respondeu aos desafios reais.”

Daí a escolha de projetos também nessa linha, como o Pedregulho, famoso conjunto habitacional em forma de onda construído por Affonso Eduardo Reidy, no Rio, e uma visão mais crítica de Brasília.

Em sintonia com a proposta de Koolhaas, que investiga a “transição do que parece ser uma linguagem arquitetônica universal a modalidades de se manter nacional”, essa seleção busca no passado os dados que informam o presente da arquitetura.

“Estamos a quase cem anos do início do modernismo”, diz Loeb. “É importante olhar o passado, ver como até a plasticidade moderna do concreto armado é uma alusão à taipa de pilão.”

Fonte: Folha de S. Paulo