Análise: É possível reduzir riscos para manter obras de arte

E as chamas levaram "Samba", obra realizada depois da fundamental viagem de Di Cavalcanti a Paris e três anos após a Semana de Arte Moderna — evento que nasceu, aliás, de uma ideia do pintor. 

Esse exemplo vigoroso do esforço modernista de configurar uma expressão nacional na arte apareceu num tempo em que as peripécias mais radicais e incomunicáveis das vanguardas eram "corrigidas" por uma onda que se convencionou chamar de "retorno à ordem". 
 
O movimento que revalorizava a figura vinha a calhar para os modernistas interessados em delinear uma temática "nossa". No caso de Di tratava-se de representar o homem, ou a mulher brasileira negra e miscigenada, no contexto da cultura popular. 
 
Para alguns, uma obra-prima como "Samba" não poderia estar em outro lugar que não um museu ou uma instituição pública. Dessa forma estaria mais protegida e acessível ao público. 
 
Embora nem sempre nossos museus mostrem regularmente as preciosidades que possuem, é presumível que, se estivesse num deles, a tela "Samba" poderia ser mais vista. Quanto a ficar mais protegida, já não parece tão certo. 
 
A maior parte da obra do grande artista uruguaio Torres-García foi destruída pelo fogo no Museu de Arte Moderna do Rio. E incêndios em museus, mesmo em países ricos e que dão mais valor a seu patrimônio do que o Brasil, também acontecem. 
 
Diante da tragédia, não é incomum o apelo desesperado a alguma instância salvadora que poderia evitá-la. Pode ser uma divindade qualquer ou o Estado. Não parece razoável, contudo, que o Estado simplesmente "tombe" ou sequestre obras de pessoas que as adquiriram, sob o argumento de que irá cuidar melhor do patrimônio. 
 
Em tese, colecionadores privados são os maiores interessados em manter suas peças em boas condições. Se nem sempre o fazem, é de fato um problema. 
 
Fonte: Folha de São Paulo | Caderno Ilustrada
 
Outras soluções podem ser imaginadas. Por exemplo: não seria impossível para um órgão público ou privado mapear obras cruciais como "Samba", entrar em contato com os donos e compartilhar projetos de segurança. É sempre possível reduzir riscos, e tudo deve ser feito nesse sentido. Nada, porém, impedirá que fatalidades continuem a acontecer.