Alemão John Heartfield atacou nazismo em montagens fotográficas

 

Uma radiografia de Adolf Hitler mostra o ditador com uma pilha de moedas no lugar da espinha dorsal. Outra revela uma curva sinistra na coluna, metáfora dos desvios de conduta de seu regime.
 
Na década de 1930, nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, John Heartfield, que morreu aos 76 anos, em 1968, criou fotomontagens críticas ao nazismo, denunciando a perseguição aos judeus e a cooptaçãoda indústria do país para financiar o Holocausto.
 
Um recorte dessa produção, alegorias ácidas e sintéticas contra a política da época, está agora em exposição no Museu Lasar Segall.
 
Heartfield, que nasceu Helmut Herzfeld e mudou o nome em protesto contra a Alemanha, não foi um artista de museu ou galeria. Suas imagens estampavam as capas da revista "Arbeiter-Illustrierte-Zeitung", ou 'revista ilustrada do trabalhador', que chegou a ter tiragem de 500 mil exemplares semanais.
 
"Toda a esquerda berlinense publicava na revista", diz Jorge Schwartz, curador da mostra. "Havia então um operariado ilustrado e crítico."
 
Durante a ascensão de Hitler, a revista serviu de máquina de protesto, defendendo ao mesmo tempo uma revolução formal nos moldes do que ocorrera na Rússia de 1917. As fotomontagens de Heartfield, pioneiro da técnica, saíram na publicação entre 1930 e 1938, e mostravam que a arte servia a um propósito político e não se descolava da realidade.
 
"Heartfield é um artista engajado", escreve a crítica Annateresa Fabris no catálogo da mostra.
"Sempre atento ao mundo real, ele penetra no sistema de comunicação de massa a fim de explicitar as tensões e as contradições."
 
Ele, que dizia "pintar com as fotografias", buscava reunir imagens icônicas numa mesma superfície, criando a ilusão de uma composição "única, compacta e lisa".
 
Segundo Fabris, Heartfield usa estratégia semelhante às montagens do cineasta russo Sergei Eisenstein, que explorava o choque entre fragmentos de imagens fortes, usando conflitos "gráficos, óticos, espaciais e cromáticos" para revelar "relações de poder e a brutalidade do nazismo".
 
Judeu, Heartfield sobreviveu ao Holocausto. Fugiu em 1933 para a então Tchecoslováquia, onde a revista continuou a ser publicada. Depois, exilou-se no Reino Unido.
 
No fim da vida, o artista voltou a Berlim, onde trabalhou com Bertolt Brecht e sua companhia Berliner Ensemble. "Isso mostra que ele foi coerente com sua postura ideológica", diz Schwartz. "Sempre crítica e de esquerda."
 
JOHN HEARTFIELD
QUANDO todos os dias, das 11h às 19h; fecha às terças; até 24/2/13
ONDE Museu Lasar Segall (r. Berta, 111, tel. 0/xx/11/5574-7322)
QUANTO grátis
 
Fonte: Folha de S.Paulo